EFEITO CORONAVÍRUS

Pandemia reduz transplantes de órgãos em Rio Preto

Com bronquiolite e bronquiectasia, jovem de 24 anos teve o transplante de pulmão cancelado há duas semanas, após a descoberta de que o doador tinha Covid. Pandemia fez Hospital de Base mudar protocolos e reduzir o número de procedimentos


Victor Hugo, 24 anos, é de Contagem (MG) e precisa de um cilindro de oxigênio para respirar
Victor Hugo, 24 anos, é de Contagem (MG) e precisa de um cilindro de oxigênio para respirar - Johnny Torres 19/5/2020

Victor Hugo Teixeira Moutinho, de 24 anos, dorme com o celular embaixo do travesseiro. Junto com a esposa, Alexa Caroline, o aparelho e o tubo de oxigênio são companhias constantes. Há duas semanas, o celular tocou por volta do meio-dia, trazendo a notícia mais aguardada: o transplante bilateral de pulmão de que o jovem precisa para voltar a respirar sozinho iria acontecer. Ele deixou o almoço à mesa e foi para o Hospital de Base - já estava com a mala arrumada há meses, à espera pelos órgãos. Chegou a ir para o centro cirúrgico, mas voltou sem os novos órgãos. Uma tomografia apontou traços de infecção por coronavírus nos pulmões que viriam de São Paulo e a equipe do HB precisou rejeitar os órgãos. Victor Hugo vai aguardar pelos próximos. Só Deus sabe quando isso vai acontecer - e ele torce para que isso ocorra o mais rápido possível, já que a pequena Emanuely, sua primeira filha, está a caminho.

A vida do jovem é mais uma entre as que foram afetadas pela pandemia de Covid-19. Não apenas vários órgãos não podem ser transplantados por causa do vírus, mas também as equipes de transplante modificaram protocolos para segurança das equipes e dos pacientes, já que os receptores já são debilitados, justamente por conta das doenças que os os levaram a precisar de uma cirurgia tão complexa. O procedimento os deixa com o sistema imunológico ainda mais debilitado, pois precisam tomar imunossupressores, medicamentos fortes para que o organismo não rejeite o órgão.

Os números já apontam para uma queda no HB: até 19 de maio de 2019 (com exceção de medula, cujos dados são até abril), foram 166 transplantes de rim, fígado, coração, pulmão, medula e córneas; esse ano, no mesmo período, são 148. O serviço de transplante de coração está paralisado para uma reestruturação, a pausa não tem relação com a pandemia.

Com bronquiolite e bronquiectasia, Victor Hugo veio de Contagem (Minas Gerais) para Rio Preto para fazer o transplante. Motorista de aplicativo afastado por causa das doenças, ele tem dificuldade para realizar tarefas simples, como dirigir, tomar um banho, se vestir e até ter uma noite de sono tranquila. Até a fisioterapia no hospital foi substituída pela reabilitação em casa. "A gente fica muito ansioso, na expectativa que dê tudo certo, de que tudo vai passar logo para respirar ar limpo."

A meta de realizar um transplante de pulmão por mês no HB já foi posta de lado em 2020. "É um dos órgãos mais afetados pelo coronavírus, a gente acaba limitando muito a possibilidade de utilização dos órgãos", diz Henrique Nietmann, cirurgião cardiotorácico responsável pelo serviço no hospital. Não basta que o teste PCR, dos fluidos respiratórios, dê negativo para coronavírus - a tomografia também precisa estar limpa. Segundo o médico, o transplante acaba ocorrendo em casos excepcionais, em que o receptor não pode esperar. Desde que a pandemia começou, uma operação do tipo foi feita em Rio Preto. "A gente não tem tratamento eficaz para Covid-19, não sabe até onde a doença vai em uma pessoa que está sendo imunossuprimida."

Os transplantes de córnea eletivos foram completamente paralisados por causa da pandemia de coronavírus. "É uma determinação do Ministério da Saúde. A gente só está fazendo os de urgência, os eletivos foram paralisados no Brasil todo. Muito triste esse cenário", considera Amália Tieco, diretora-administrativa do HB.

Os transplantes de rim de doadores vivos - entre familiares próximos - foram interrompidos durante a pandemia. Doadores com critérios estendidos - idosos e hipertensos, por exemplo - também não estão sendo utilizados, e receptores idosos terão de aguardar mais um tempo na fila, pois eles têm maior risco de desenvolver complicações caso sejam contaminados pelo coronavírus.

"O receptor de rim pode ficar em diálise. Os que não conseguem ficar na diálise têm que correr o risco (e fazer a cirurgia)", diz Mário Abbud Filho, chefe do serviço de transplante de órgãos do HB e do transplante renal. "Quem está em diálise já é de risco para Covid-19 e não está sendo testado porque não há teste para todo mundo, mas deveria, porque é uma população que fica confinada três vezes por semana com profissionais de saúde."

De acordo com Renato Silva, chefe do serviço de transplante de fígado, a equipe não vai buscar órgãos em hospitais que sejam referência para tratamento de coronavírus, ainda que o exame do doador tenha dado negativo. Já foram recusados órgãos por causa disso. "Mesmo que esteja em outra UTI, o grande problema desse vírus é que o contágio é muito rápido. Aqui no Estado de São Paulo já teve equipe que foi retirar órgão e o doador estava contaminado, a equipe foi posta em quarentena." Silva ressalta que é impossível interromper o serviço, mas há uma tendência de queda nos números - no mês passado foram seis procedimentos, em maio são apenas dois. "Temos que pensar na saúde da equipe e do paciente que vamos transplantar."

Também houve redução no número de transplantes de medula. Isso porque doadores estão com medo de ir até os centros, seja em Rio Preto ou outros locais, fazer os procedimentos. "A gente está percebendo com tristeza que não estão querendo coletar", afirma João Victor Píccolo Feliciano, chefe do serviço de transplante de medula do HB. Para muitos pacientes, sobra a opção do transplante entre irmãos ou outros familiares próximos - mesmo não sendo 50% compatíveis.

O hematologista pontua que transplantes de pacientes com doenças crônicas, como mieloma e alguns linfomas, estão sendo remarcados. É impossível, no entanto, apesar de toda a fragilidade do transplantado, parar todo o serviço. "Não está comprovado que existe mortalidade maior entre transplantado de medula. O paciente com leucemia não pode esperar. Protege de Covid-19, mas morre de leucemia", exemplifica Feliciano. O Hospital de Base inclusive recebeu pacientes do Hospital das Clínicas de São Paulo, que teve de interromper o serviço de transplante de medula.

Alexandra Siscar Barufi, cardiologista do Hospital da Criança e Maternidade (HCM), da equipe de transplante de coração infantil, diz que há uma paciente internada, de 12 anos, aguardando um coração. Como ela estava com tosse, foi feito o teste de coronavírus, mas o resultado foi negativo. Todos os possíveis doadores estão sendo testados. Conforme a médica, menos ofertas estão surgindo porque há menos mortes que levariam a uma doação, como acidentes de trânsito.

Tanto receptores quanto doadores estão passando por exames de coronavírus.

As mudanças no transplante de cada órgão no Hospital de Base

Pulmão - Somente os pacientes que de fato não podem esperar estão sendo transplantados. Além de o teste PCR (de fluidos respiratórios) dar negativo no doador, é preciso que a tomografia do doador esteja limpa e não aponte infecção por coronavírus

Córneas - Só estão sendo feitos os transplantes de urgência; os eletivos estão interrompidos

Coração infantil - Os doadores estão sendo testados antes da coleta. Uma das dificuldades é que há pouca oferta de órgãos, pois diminuiu a incidência de óbitos que levariam a transplantes, como os acidentes de trânsito

Rim - Foram suspensos os transplantes entre doadores vivos (familiares próximos) e também os de receptores de risco maior, como os idosos, que não eram prioritários. Não estão sendo utilizados órgãos de doadores de critérios estendidos (pacientes mais velhos, hipertensos ou que tiveram morte por acidente vascular cerebral, por exemplo). Foram mantidos os transplantes de pacientes prioritários

Fígado - A equipe não está buscando o órgão em UTIs onde estejam sendo tratados pacientes com Covid-19

Medula óssea - A equipe está encontrando dificuldade porque alguns doadores não têm comparecido para os procedimentos, com receio de contrair coronavírus. Transplantes de doenças crônicas como mieloma e alguns linfomas foram adiados e serão remarcados. Estão sendo mantidos os procedimentos em pacientes prioritários - antes da internação, paciente e acompanhante passam por exame para ter certeza de que não estão contaminados por coronavírus, já que ficam em isolamento antes e depois do transplante

Número de transplantes

2019

De janeiro até maio

  • Córnea 24
  • Medula 61 (até abril)
  • Fígado 30
  • Coração 4
  • Rim 45
  • Pulmão 2

2020

De janeiro até maio

  • Córnea 22
  • Medula 53 (até abril)
  • Fígado 24
  • Coração 1
  • Rim 45
  • Pulmão 3

O serviço de transplante de coração está interrompido para reestruturação, a pausa não tem relação com a pandemia.

Na primeira quinzena de maio, 81% das famílias disseram "sim" ao pedido de doação de órgãos da equipe do Hospital de Base, mesmo em meio à dor de perder alguém amado. O número é o maior em 24 anos, desde que a instituição começou a fazer os registros. O índice aproxima a região de Rio Preto da Espanha, referência mundial, onde em média 85% das pessoas aceitam doar órgãos do parente que faleceu.

Um ano atrás, o número de famílias que aceitavam o pedido da Organização de Procura de Órgãos (OPO) do HB era de no máximo 65%. No início dos anos 2000, era de apenas 25%. Já foram vários tabus - desde que o corpo ficaria deformado, hoje já bastante superado, até sobre a morte encefálica, também já bastante compreendida. Um dos principais entraves é a dúvida sobre se essa seria a vontade da pessoa, por isso a orientação é conversar com a família sobre esse desejo.

João Fernando Picollo, coordenador da OPO, atribui o aumento no índice de aceitação a um trabalho feito ao longo de anos, de treinamento com profissionais de saúde - médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais - para acolher e confortar os familiares e somente então questionar sobre a possibilidade de doação.

Outro possível motivo é a solidariedade das pessoas, possivelmente mais aflorada durante os tristes tempos de pandemia. "A gente vê pelas outras ações que as pessoas ajudam, as pessoas estão mais solidárias."

O número de recusas para doação também caiu nos hospitais da Fundação Padre Albino, de Catanduva. Comparando-se o período de 1º de janeiro a 15 de maio de 2019 com o mesmo deste ano, as recusas caíram de 30% para 14%. (MG)