SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SÁBADO, 04 DE DEZEMBRO DE 2021
DESIGUALDADE NA EDUCAÇÃO

Alunos sem acesso à internet encontram dificuldades para acompanhar as aulas online

Falta de computador, de internet e até analfabetismo dos pais e avós: ensino das crianças em casa impõe desafios às famílias carentes

Rone Carvalho
Publicado em 14/05/2020 às 20:59Atualizado em 07/06/2021 às 02:19
Linda Slomp, 25 anos, relata desafio de ensinar aos filhos sem computador, no chão de casa, na favela da Vila Itália

Linda Slomp, 25 anos, relata desafio de ensinar aos filhos sem computador, no chão de casa, na favela da Vila Itália

Marta nunca tinha ouvido falar de pandemia. Não sabia sequer escrever a palavra, pois foi impedida de estudar quando criança. Quando teve o seu primeiro filho, há cinco anos, uma de suas primeiras promessas foi a de que faria de tudo para que ele pudesse aprender a ler e a escrever. Nas primeiras aulas de alfabetização deste ano, a palavra pandemia apareceu antes mesmo que a criança conseguisse unir as letras e escrevesse a palavra. Marta, cujo nome é fictício, teve que aprender junto do filho a escrevê-la.

A história de Marta é uma entre a de inúmeras outras mães brasileiras que não sabem ler e escrever e que estão tendo que "ensinar" os filhos em aulas em casa durante a pandemia do novo coronavírus. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que no Brasil existem pelo menos 11,3 milhões de pessoas analfabetas. Além do desafio da alfabetização, essas mães e pais em muitos casos também precisam lidar com a falta de internet para as crianças estudarem em casa através das aulas remotas fornecidas por escolas durante a pandemia.

É o caso da dona de casa Maria Aparecida Martins, de 51 anos. Sem saber ler e escrever, ela cuida durante o dia dos sete netos que vivem com ela na favela da Vila Itália, em Rio Preto. Sem poder ensinar as crianças, por não saber ler, o que resta à idosa é a esperança da volta às aulas presenciais. "Quem sabe escrever ensina, e quem não sabe? Como morava no sítio e trabalhava desde criança, não pude ir para a escola", contou.

"É muito triste você querer saber o que está escrito e não saber. Nem meu nome eu sei escrever. Eu não quero que aconteça com eles o mesmo que aconteceu comigo", disse a dona de casa que, com pressão alta, também lida com o receio de contrair o coronavírus. Na favela da Vila Itália, até o momento nenhum morador foi diagnosticado com a doença.

Na periferia, há também dificuldade pela falta de internet. Com um celular em casa, Linda Slomp, de 25 anos, que estudou até a 6° série do ensino fundamental, tenta ensinar as duas filhas no chão do barraco que reside na favela.

Mesmo sem aula, a filha mais nova, de seis anos, usa o uniforme da rede municipal de ensino de Rio Preto, na esperança pela volta às aulas. "É difícil porque todo dia ela pergunta quando a aula vai voltar e mesmo se voltar eu tenho medo de levar, porque não posso colocar a vida dela risco por conta dessa doença. Uma delas tem asma e isso me preocupa", falou.

A Prefeitura de Rio Preto está disponibilizando apostilas para as crianças sem acesso à internet, mas muitas famílias ainda não sabem. No caso de Yngrid Lopes de Melo, de 22 anos, que tem dois filhos, de 2 e 4 anos, as crianças chegam a ter acesso à internet na favela, mas a família pouco sabia sobre as aulas na plataforma lançada pela rede municipal de ensino. "O Enzo, de 4 anos, estava na primeira etapa, aprendendo a escrever. Então é complicado e a gente fica preocupado", disse.

Dificuldade de acesso ao conteúdo remoto que não é restrito apenas à favela da Vila Itália. No bairro Solidariedade, a família de Juliana Bertoni Almeida, 36 anos, fez um esforço para colocar internet em casa. Ela é mãe de uma menina de 3 anos e de um menino de 7. "Eu não tinha internet, mas eu dei uma apertada em algumas coisas e coloquei por causa deles. Para poderem estudar durante a quarentena", contou.

Para a professora do Departamento de Educação da Unesp de Rio Preto Ana Maria Klein, a pandemia escancarou a desigualdade educacional do país. "A educação sempre foi desigual, a gente tem um abismo que separa as possibilidades de um aluno da rede particular do aluno de escola pública. Existe uma desigualdade nas oportunidades desses jovens", pontuou.

O Diário procurou a Secretaria da Educação de Rio Preto para saber sobre as políticas públicas que estão sendo desenvolvidas para mães com dificuldades em acompanhar a rotina de educação dos filhos durante a pandemia do coronavírus. A pasta informou que o programa Rio Preto Educ Ação, lançado em 9 de abril, já previa a entrega de material impresso às famílias sem acesso à internet. "Agora, com a publicação do novo calendário e a possibilidade de contar atividades remotas como horas de aula, estão sendo definidas novas estratégias para que o conteúdo chegue a todos os alunos, inclusive com a utilização de vídeo-aulas, transmitidas em rede aberta de televisão", disse em nota.

Novo calendário em Rio Preto

Sem previsão de retorno das aulas presenciais na rede municipal, a Secretaria da Educação de Rio Preto publicou um decreto nesta quarta-feira, 13, permitindo a continuação do semestre letivo de forma remota. As aulas fornecidas a distância durante a pandemia serão contabilizadas como carga horária do ano letivo.

Segundo o decreto, o encerramento das atividades do 1º semestre será em 31 de julho, e o início do 2º semestre em 3 de agosto, ou seja, sem recesso escolar, visto que ele foi adiantado e aconteceu entre 23 de março a 12 de abril. Ainda não há previsão de quando as aulas presenciais voltarão, enquanto isso, as aulas de forma remota continuarão acontecendo.

Em Rio Preto, a Prefeitura lançou em abril uma plataforma online que disponibiliza atividades educativas a serem desenvolvidas com as crianças em casa. A Secretaria de Educação de Rio Preto também informou que trabalha para a transmissão de aulas no canal da TV Câmara. "Estabelecemos uma parceria com a TV Câmara, nós teremos as videoaulas que poderão ser acessadas pela internet e serão transmitidas pela manhã e no período da tarde", disse a secretária de Educação, Sueli Costa.

Ainda segundo a secretária, na volta às aulas, projetos serão desenvolvidos para ajudar estudantes com dificuldades. "Nós faremos projetos de aprofundamento de estudos e de reforço de aprendizado, por meio de atividades na escola. Faremos esses grupos de estudos de acordo com as dificuldades dos alunos, o que precisamos deixar bem claro é que na volta às aulas terá um extenso trabalho de recuperação para todos os alunos que precisarem", afirmou Sueli.

Para a especialista em educação infantil da UnB, Edileuza Fernandes da Silva, as escolas precisam se planejar para esse retorno. "É muito importante um acolhimento desses alunos, porque muitos passaram por situações difíceis na família; em seguida, fazer uma avaliação diagnóstica dos estudantes, qual são os problemas que as escolas vão ter que potencializar, com atividades que possam complementar."

A professora defende uma integração deste ano letivo com o próximo, com o objetivo de não prejudicar ainda mais os estudantes que estão tendo dificuldades de acompanhar as aulas remotas. (RC)

Professores se adaptam para ensinar

É através de um celular e dos grupos de WhatsApp que a professora de educação básica Gislaine Luiz Fontes tem se comunicado com suas duas turmas de ensino infantil. A professora que dá aulas em duas cidades - Tabapuã e Novais - teve que se reinventar para poder ensinar durante a pandemia. O distanciamento dos alunos fez com que ela precisasse ensinar as letras do alfabeto através de vídeos, com ajuda das mães. "Orientei as mães dos meus alunos. Neste momento, mais do que nunca, necessitamos de parcerias. Esta parceria se faz imprescindível, pois através do celular de um parente ou amigo - para uso do WhatsApp - as aulas chegam até nossas crianças. Os pais ou responsáveis pelo menor são os intermediários deste processo", contou a professora.

Diferente de cidades maiores onde prefeituras desenvolveram plataformas para disponibilizar o conteúdo, em cidades com menos de 15 mil habitantes, é através de gravações caseiras que professores dão as aulas, repassando as atividades e vídeos através de grupos no WhatsApp. "Todos estamos enfrentando dificuldades, professores sentem-se limitados ao expor as aulas, pois basta um olhar de nossos alunos para que entendamos que daquela forma não foi suficiente a compreensão do aluno", destacou Gislaine.

Situação que, segundo a professora do Departamento de Educação do Ibilce, Ana Maria Klein, mostra uma outra dificuldade de ensinar durante a pandemia, principalmente para crianças da primeira etapa do ensino fundamental. "Aprender não é só ter aula. Então, eu sentar na frente da televisão e assistir não quer dizer que eu vou aprender, isso depende de uma disposição interna do aluno. O ambiente escolar é estimulador, então com a condição remota não tem o mesmo estímulo, em casa tem vários dispositivos que fazem o aluno dispersar", afirmou.

Uma pesquisa coordenada pela especialista em educação infantil da Universidade de Brasília (UnB), Edileuza Fernandes da Silva, mostrou que na grande maioria das vezes, quem auxilia os estudantes nas atividades durante a pandemia são as mães, avós e tias. "Isso tem gerado uma sobrecarga nas mulheres", diz Ana Maria. (RC)

Yngrid Lopes de Melo, 22 anos, faz atividade com os filhos: família não sabia sobre a plataforma criada pela rede municipal de Educação (Fotos: Guilherme Baffi 13/5/2020)
 
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