CASA MAIS SEGURA

Medidas simples para evitar acidentes domésticos

Com medidas simples é possível evitar acidentes domésticos entre crianças e idosos neste período


Karla Tiago com os filhos Pedro Henrique e João Lucas: cuidado 24 horas
Karla Tiago com os filhos Pedro Henrique e João Lucas: cuidado 24 horas - Eloisa Mattos/Divulgação

Os acidentes domésticos são comuns, principalmente, com idosos e crianças. Um piso molhado, um tapete fora do lugar, um balde com água e tomadas sem protetores - que parecem situações simples e sem riscos em uma casa - podem representar uma ameaça para os mais velhos, com movimentos limitados, e para os pequenos curiosos. O fato é que, todos os dias, idosos e crianças sofrem algum tipo de acidente caseiro que poderia ter sido previsto e evitado.

Com o isolamento social em meio à pandemia de coronavírus para reduzir o ritmo de transmissão do vírus, os números de acidentes podem aumentar porque famílias inteiras estão dentro de casa o tempo todo. A lista inclui desde pequenos machucados e arranhões até fraturas, queimaduras, engasgos, afogamento, asfixia e intoxicação. Como a prevenção é o melhor de todos os remédios, especialistas afirmam que é preciso ficar atento aos idosos, que estão isolados, e às crianças, que estão ociosas em casa em quarentena.

De acordo com Mikael Flambertto, professor do curso de enfermagem da Estácio, estima-se que no Brasil ocorram cerca de 200 mil acidentes domésticos por ano com crianças, como queimaduras, quedas e afogamentos. A cozinha é um dos cômodos mais perigosos da casa. É lá que acontecem as queimaduras, cortes e intoxicações.

A empresária Karla Tiago, 31 anos, sabe do perigo e deixa longe dos filhos os objetos cortantes como facas e outros utensílios, como copos de vidro e espetos. Mãe dos gêmeos Pedro Henrique e João Lucas, de 4 anos, ela afirma que deixa os filhos na cozinha quando há a supervisão de um adulto ou quando eles vão fazer uma sobremesa em família. "Compro massa e fazemos pizza de brigadeiro. É um momento de distração dos meninos, que estão em casa durante a quarentena."

Karla afirma que os garotos estão na fase de desvendar a própria casa, principalmente agora que estão em casa 24 horas por dia. "Eles estão fazendo atividades escolares por distância, mas não é igual na escola. Por isso, tenho criado algumas atividades e resgatado algumas brincadeiras antigas, como amarelinha, para eles se distraírem e queimarem energia."

A empresária conta que eles estão na fase da disputa por brinquedos. Para evitar acidentes, ela deixa as peças em prateleiras baixas e caixas no chão em um quartinho de brinquedos para evitar quedas. "Fico de olho o tempo todo."

Por causa da quarentena, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) lançou um manual para prevenção de acidentes domésticos. A SBP alerta que os acidentes são a principal causa de morte de crianças de um a 14 anos de idade no Brasil. Todos os anos, cerca de 3,6 mil crianças desta faixa etária morrem, sendo os atropelamentos e afogamentos os maiores causas. Crianças de até quatro anos, por exemplo, costumam se intoxicar com medicamentos. Segundo o manual, os produtos devem ser armazenados em lugares inacessíveis pela criança.

Outra recomendação do manual é colocar telas nas janelas, sacadas e vãos desprotegidos, como laterais de escadas.

A mentora de alimentação saudável e lúdica Natália Prado de Souza Motta, 30 anos, que mora em um apartamento, segue a risca a dica da SBP e ainda não coloca objetos, cadeiras, sofás e outros apoios próximos desses lugares de risco. Mãe de Bernardo, de seis anos, de Vicente, de quatro, e de Teodoro, de dois, ela afirma que é melhor prevenir. Na casa dela, os remédios, facas e tesouras também ficam guardados onde as crianças não têm acesso.

Natália também fica atenta aos brinquedos, que desempenham um papel tão importante no desenvolvimento da criança, mas podem também ser muito perigosos. Assim como a SBP recomenda, Natália também testa os brinquedos e verifica que não soltem peças pequenas, que podem ser aspiradas e sufocar os filhos. "Eles brincam de Lego, por exemplo, mas sempre com a minha supervisão ou do meu marido, Gustavo."

A mãe, que estimula que os filhos sejam autônomos e independentes, afirma que orienta os pequenos sobre os perigos de acidentes de uma maneira geral.

Cuidados

João Baptista Gomes dos Santos, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCM), afirma que crianças, principalmente, as que engatinham ou estão dando os primeiros passos, têm mania de colocar a mão em tudo, inclusive em tomadas. "Por isso, é importante proteger as tomadas elétricas que estão fora de uso e garantir que a fiação esteja em bom estado e presa. E nunca, em hipótese alguma, deixe as crianças sozinhas na cozinha ou em qualquer outro ambiente".

Quanto ao uso do álcool em gel, a recomendação é que seja utilizado somente quando não houver água e sabão por perto. "Em casa, vale a mesma coisa do álcool 70% e de outros produtos inflamáveis e tóxicos: devem ser guardados em local seguro, onde as crianças não tenham acesso", afirma Santos.

Johnny Torres

Uma casa com pessoas acima de 65 anos requer ainda mais cuidados. Segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), a queda é a principal causa de morte acidental e da perda de funcionalidade dos idosos. Dados revelam que um terço dos idosos, a cada ano, sofre pelo menos uma queda, que pode trazer, além das consequências físicas e funcionais, muitos problemas emocionais, como depressão.

Este acidente, geralmente, é causado por superfícies escorregadias, tapetes soltos ou com dobras, degraus altos ou estreitos, obstáculos no caminho (móveis baixos), ausência de corrimãos em corredores e banheiros, prateleiras excessivamente baixas ou elevadas, roupas e sapatos inadequados e animais de estimação.

Algumas mudanças simples, como manter os ambientes livres para circulação e com boa iluminação podem diminuir os riscos. A artesã Lucia Helena Gerarduzzi, de 52 anos, segue as recomendações para evitar os acidentes com seus pais: Conceição, de 80 anos, e José, de 81. Ela, que mora com eles no bairro Eldorado, afirma que os pais não saem de casa desde o início da pandemia e mantêm uma rotina saudável, como alimentação balanceada com frutas, verduras e carnes magras. "Eles são lúcidos e entendem que o momento é de alerta e eles precisam ficar saudáveis."

Para evitar uma possível intoxicação com medicamento, Lucia fez uma lista com os horários da mãe e do pai e coordena a ingestão correta para que o tratamento também seja adequado. A artesã conta que o piso da casa é antiderrapante e sempre está seco para evitar as terríveis quedas. Para evitar os tropeços, Lucia tirou todos os tapetes de casa. Os móveis também são estáveis e facilitam a circulação. "Eles precisam ter firmeza para se movimentarem, principalmente a minha mãe que tem osteoporose e caminha mais lentamente."

A professora Silvia Inês Silvano, de 47 anos, também toma cuidados diários para garantir a segurança da mãe Júlia, que completou 91 anos no último dia 14. A idosa usa, por exemplo, sapatos adequados, confortáveis e em boas condições para evitar quedas. Mãe de 11 filhos, Julia é uma mulher ativa, apesar de seu corpo ter perdido um pouco da mobilidade por causa da idade. Ela ainda cozinha, lava e costura roupas, mas sempre com a supervisão de algum dos irmãos de Silvia. A alimentação dela é balanceada, com o objetivo de favorecer a manutenção da massa muscular, além de ajudar a prevenir doenças comuns da idade.

Ciente do risco de contrair a Covid-19, ela não sai de casa desde o início da quarentena. "Ela sabe que não pode ir por motivo algum ao hospital porque integra o grupo de risco. Neste cenário, redobramos os cuidados com ela", afirma Silvia. Como ela gosta de costurar tapetes, a filha reforçou a iluminação com um abajur, que consequentemente ajuda na circulação dela pelo cômodo onde está a máquina. A cama também tem altura ideal para que ela se levante e se deite com facilidade e sem riscos. Ela também tem um hobby, que a deixa muito feliz. A Dona Júlia coleciona bonecas.

Alerta

Idosos que cozinham precisam tomar cuidados. Entre os acidentes domésticos mais comuns neste período estão as queimaduras, pois as pessoas estão utilizando com mais frequência o álcool, tanto em gel quanto líquido, que é altamente inflamável. Uma forma de prevenir esse tipo de acidente é proibir o uso de álcool na cozinha. "A limpeza das mãos na cozinha pode ser feita com água e detergente. Já para limpar o ambiente prefira produtos desengordurantes", afirma a cirurgiã plástica Beatriz Lassance. (FM)

O confinamento traz algumas questões para o paciente idoso. A primeira, segundo a médica Lucia Buffulin, membro da Sociedade Brasileira de Reumatologia, é o emocional. Com o isolamento, a sensação de finitude e todo o bombardeio de informações acabam deixando o indivíduo deprimido. Por isso, a atenção precisa ser redobrada, por exemplo, com a qualidade da alimentação dos idosos, pois a quarentena está perpetuando bastante e é necessário, portanto, ter muita disciplina para a alimentação, que pode acarretar em perda ou ganho de peso.

Outro fator é que devido à alta permanência dentro do ambiente doméstico, eles acabam tendo várias mudanças como fazer exercícios extenuantes, criar tarefas para aumentar a rotina, sendo algumas positivas, como cuidar de um jardim. "O grande risco é quando o idoso passa a fazer faxinas extenuantes, como subir em escadas para ter acesso ao guarda-roupa, limpar um lustre. Por isso, é preciso muita ponderação e sequência de rotina", afirma Lucia Buffulin.

A médica afirma que os idosos que tinham uma rotina de exercícios externos, como hidroterapia, pilates, grupos em comunidades, e que neste momento não estão praticando, devem ficar atentos. "Parar com os exercícios físicos em poucas semanas vai perdendo fibra muscular e qualidade de movimento. Então é de suma importância manter dentro do domicílio uma rotina mínima de tomar sol pela manhã e se possível uma caminhada dentro do domicílio", afirma.

Muitos idosos usam os aplicativos de celular. A reumatologista afirma que vale utilizar o aplicativo que conta os passos do dia a dia, agindo como um estimulante para o idoso andar pela casa, se exercitar mentalmente por meio de vídeos com amigos. (FM)

Quedas

  • Algumas medidas simples são suficientes para prevenir esta situação. Evite tapetes ou dê preferência aos antiderrapantes. Coloque corrimão nas escadas e barras no banheiro (principalmente em casas com idosos) e nunca deixe uma criança sem supervisão no momento do banho. Uma boa iluminação também pode fazer diferença, pois ajuda a enxergar objetos que estejam no caminho

Queimaduras no fogão

  • A maioria dos acidentes deste tipo envolve crianças pequenas. Uma forma de evitar é colocar um portão para evitar o acesso da criança à cozinha. Na hora de cozinhar, prefira as bocas da parte de trás do fogão e sempre mantenha os cabos das panelas virados para dentro

Brinquedos

  • Observe sempre a indicação da faixa etária dos produtos, pois alguns podem conter peças pequenas que crianças menores e bebês podem vir a se engasgar, caso as leve à boca. Também preste atenção à presença do selo do Inmetro nas embalagens

Intoxicação

  • Procure armazenar os materiais em prateleiras altas ou instale travas nas portas em que eles estão guardados. Evite também deixar baldes com água com acesso fácil, a fim de evitar afogamentos

Tomadas

  • Para evitar acidentes que envolvam choque elétrico, instale protetores em todas as tomadas da casa, evite conectar mais de um equipamento elétrico na mesma tomada e mantenha os fios fora do alcance das crianças

Alertas

  • Algumas outras precauções possíveis são utilizar telas ou grades de proteção em janelas e piscinas. Também é boa prática fixar protetores de quinas nas mesas e em móveis pontiagudos. Além de evitar posicionar camas, cadeiras ou qualquer outro móvel perto da janela, pois eles podem ser usados para a criança escalar

Fonte: Mikael Flambertto, professor do curso de enfermagem da Estácio