ENEM DA DESIGUALDADE

Alunos de Rio Preto e região vão tentar, em condições diferentes, uma vaga na faculdade

Com sua realização ainda mantida, Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) escancara as diferentes realidades de quem está na escola pública e na rede particular em busca de uma vaga no vestibular


Estudante de cursinho comunitário, Pedro tem que assistir aulas online, ajudar em casa e dividir o espaço com outros seis familiares
Estudante de cursinho comunitário, Pedro tem que assistir aulas online, ajudar em casa e dividir o espaço com outros seis familiares - Arquivo Pessoal

Sob o clima de incertezas e com pressão para o adiamento ou cancelamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a discrepância entre ensino público e privado no Brasil foi escancarada com a situação imposta pela pandemia do coronavírus.

Se de um lado alunos da rede particular contam com aulas virtuais, boa internet, local adequado de estudo e professores disponíveis em plantões de dúvidas, estudantes da rede pública têm que lidar com a falta de equipamentos em casa, dificuldades para tirar dúvidas com os professores ou dividir o tempo dos estudos com o trabalho como novas barreiras para disputarem as vagas por meio da prova.

"Meus pais são comerciantes, minha mãe tem uma loja de pequeno porte que não tem muita renda para apoio. Vivemos mais dos 'bicos' de costura que ela faz, porém não estão tendo muitos. Com isso ela teve a ideia de começar a produzir máscaras e estou ajudando a vender em alguns lugares. Muito complicado, mas infelizmente é necessário", contou a estudante Bárbara Gama, do 3º ano do ensino médio da escola estadual Alzira Valle Rolemberg, em Rio Preto.

Tendo que conciliar o trabalho em tempos de pandemia com o estudo para o Enem, a jovem pretende prestar odontologia e sonha com a vaga em uma universidade pública. Além da mudança na rotina, está difícil adaptar-se às aulas virtuais. "Estou extremamente abalada em relação aos estudos e isso está me deixando muito preocupada. Está sendo muito difícil, pela falta de atenção, não consigo me adaptar ao novo método. E também tem a questão das dúvidas, em não conseguir tirá-las. Se eu quiser me aprofundar mais no estudo tenho de pesquisar".

Daqui um mês, a estudante Tainara Camilly da Costa Fernandes, 17, do 3º ano do período noturno da escola Antônio de Barros Serra, terá que lidar com os cuidados do irmão recém-nascido, conciliando os estudos com o período em casa na pandemia. "No próximo mês a licença maternidade da minha mãe vai acabar e vou precisar cuidar dele o dia todo. Cuidar de uma criança exige minha total atenção. Vou ter que conciliar todas as atividades que os professores estão passando e estudar para prova do Enem no pouco tempo do dia que me sobrar".

Ela quer fazer curso de estética e, com a nota do Enem, tentaria alguma bolsa de estudo. "Tenho só meu celular, não tenho computador, nem na minha casa nem na de parentes, e só estudo pelo celular. Agora não tem mais opção de tirar dúvidas presencialmente e é como se estivéssemos por conta própria".

A jovem Agmys Fernandes trabalha até a fim da tarde e teve que adaptar sua rotina às aulas virtuais para não perder o ritmo na preparação para o Enem. "Eu trabalho até as 17h45, e esse é o horário que as aulas online começam. Dependendo do horário que chego nem sempre consigo assistir às aulas online. É bastante cansativo, muita vezes fica complicado até para me concentrar", disse ela. "Enquanto estou indo para o serviço vou lendo alguma matéria, fazendo revisão de algo que já aprendi. Geralmente faço meus trabalhos aos sábados, e quando não chego muito cansada, faço alguns à noite".

Nova rotina

Estudante do cursinho comunitário Atlas, em Rio Preto, Pedro Henrique Rodrigues, 18, passou a ajudar mais em casa, dividindo o teto com seis familiares e conciliando a nova rotina com as aulas virtuais. "Os desafios que enfrento são de ajudar mais em casa, já que aqui moram seis pessoas, ultimamente sete com a minha vó. Isso acaba tomando um certo tempo, fora a questão do trabalho", afirmou Pedro. "É muita gente, isso me atrapalha em alguns momentos, mas em outros consigo lidar bem. Mas, no geral, é um empecilho sim".

Com o sonho de conseguir vaga em psicologia, o jovem de José Bonifácio acredita que o adiamento seria o mais justo. "Na medida em que o governo proporcionar um Enem mais justo, ele pode continuar. Do jeito que está indo, com a preocupação em investir em propagandas para dizer 'estude!', sem dar o apoio devido, não tem como manter as provas", avaliou.

Dúvidas

Tirar dúvidas sobre a matéria nas aulas virtuais também é uma barreira para o jovem João Carlos Fermino de Moraes, 18, aluno do 3º colegial da escola estadual Adahir Guimarães Fogaça. "Com aulas EaD é muito complicado para estudar, porque querendo ou não, não tem como você tirar as dúvidas sobre a matéria com o professor, pois são muitos alunos. E querendo ou não, nós da rede pública vamos ser prejudicados com isso", comentou.

Na rede estadual as aulas são oferecidas pela Central de Mídias, criada pela Secretaria Estadual de Educação, em horários pré-determinados e diferentes dos horários tradicionais de aula convencional em que o aluno estuda.

Revisão dos prazos

Em conversa com o Diário, a Secretaria Estadual de Educação disse que os prazos do exame devem ser revistos por conta da pandemia. "As inscrições deveriam ser prorrogadas, porque o engajamento dos estudantes para a inscrição é feita pelas escolas, com os professores e diretores fazendo o movimento. E isso é muito mais difícil no remoto", afirmou Henrique Pimentel Filho, subsecretário de articulação regional do órgão.

"Como as escolas não tiveram essa oportunidade, essa é nossa defesa pensando no estudante mais vulnerável. Não achamos que o Enem deva ser cancelado, porque é importante para o ingresso na universidade. Mas os prazos devem ser revistos", comentou Henrique.

Em relação às dificuldades dos estudantes com dúvidas, o subsecretário disse que hoje o aluno consegue fazer interação com os professores dentro do aplicativo utilizado para as aulas. "Não acho que estamos em desvantagem com a rede privada. Obviamente tem mais recursos e agilidades para fazer algumas coisas, mas acho que, considerando as restrições que a gente tem, conseguimos dar uma resposta rápida."

Com o mundo da educação virado de pernas para o ar, estudantes secundaristas de Rio Preto têm feito campanhas nas redes sociais para pedir o adiamento desta edição do Enem.

"Não dá para pensar em fazer a prova sabendo que todos os estudantes do ensino médio não estão indo à escola. Vamos trabalhar a campanha nas redes sociais, com vídeos, lives e abaixo-assinado, além de conscientizar o pessoal para pressionar", comentou Arthur Grigolin, 19 anos, presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Rio Preto (UMES).

A realidade social de cada aluno da rede pública que está em casa, segundo Arthur, deve ser levando em conta antes da realização do exame. "Teve um caso que chegou até a gente, um estudante que divide a casa com os avós e não tem onde estudar, não tem uma mesa para ele ler o livro. Está no mesmo espaço com crianças, família e é difícil focar nos estudos. Na campanha do MEC é lindo, jovens com mesas, lápis, mas não é a realidade", afirmou o jovem.

Segundo levantamento do jornal Estado de São Paulo, feito com base nos resultados de 2019, um a cada quatro estudantes de classe média está em 5% de melhores notas no Enem, enquanto nas classes mais baixas, um aluno a cada 600 consegue nota alta no principal exame de acesso ao ensino superior do país.

"A desigualdade sempre existiu no Enem, mas agora está na nossa cara, porque é visível. Se conversar com estudante de uma escola privada de Rio Preto e um de periferia você vai ver a realidade totalmente diferente. Teve escola que teve 'drive thru' de livros, enquanto em outras públicas 'malemá' conseguiram pegar o livro, cada escola tem sua realidade", disse Arthur. (VS)

Os estudantes relataram à reportagem diversas realidades dos amigos, como a falta de internet ou problemas com material visando a preparação para o exame em novembro. "Na minha sala tem um aluno que não tem aparelho celular para poder assistir à videoaula. Para ele deve ser muito complicado ficar por fora do conteúdo que estão passando", contou João Carlos Fermino.

A preocupação com os estudos acaba ficando de lado para Bárbara Gama, já que a crise sanitária e econômica no Brasil sobrepõe-se à necessidade de prestar a prova. "Tenho dificuldade em relação ao horário, se eu não estiver disponível no momento, pelo fato de precisar ajudar os meus pais que trabalham, perco as aulas e não consigo retomá-las", afirmou a estudante.

Os desafios tecnológicos também são uma barreira para os alunos da rede estadual superarem. Segundo um estudante da Etec de Rio Preto, que não quis se identificar, dos 39 alunos da sala apenas entre 25 e 30 estão presentes nas aulas.

"Tem alunos que realmente não têm internet, moram em cidades menores, como Mirassol, Orindiúva, Cedral e estão com problemas com conexão e não aparecem nas aulas. Tem quem mora em chácara e não chega internet", contou o estudante.

As dificuldades engrossam o coro dos alunos nos pedidos para o adiamento desta edição até que tudo se normalize. "Se for ver em questão social a maioria prejudicada nessa situação são pessoas de baixa renda. Quem estuda em escola particular tem condição de comprar computador e ter internet. Eu, por exemplo, não tenho computador, vejo as aulas pelo celular e consigo resolver as coisas, mas às vezes tenho que ir para a casa de um amigo fazer trabalho", comentou o estudante. "Vejo quem estuda em escola pública falar que parou de pagar internet porque faltou dinheiro", acrescentou. (VS)

Realizar o Enem este ano, em meio à pandemia e com aulas virtuais, escancara as desigualdades sociais do país?

Não só escancara as desigualdades sociais do país, como as acentua. Se considerarmos que, segundo o IBGE 2018, um em cada quatro brasileiros com mais de 10 anos de idade não tem acesso à internet, temos um número de 46 milhões de habitantes que não usam essa tecnologia, por razões diversas: por não saber usá-la, por ser um serviço caro ou por exigir um equipamento igualmente caro para se ter acesso (os que o usam têm rendimento quase duas vezes maior do que os que não o utilizam), fatores que, consequentemente, desencadeiam, ainda, desinteresse pelo recurso. Aliás, muito diferente do cenário apresentado no vídeo institucional criado para divulgação do exame, em âmbito nacional.

Na região Norte do país, o problema é mais específico, já que é o serviço que não está disponível na maior parte da área, algo que não representa tanta complexidade na região Sudeste. Ou seja, a desigualdade é bem marcante entre esses dois pontos do Brasil, quanto a esse aspecto. Se considerarmos, ainda, o acesso à internet na zona urbana e na zona rural, embora o percentual de uso tenha aumentado em ambos os ambientes, veremos que ainda não chega a 50% na zona rural, enquanto que, dos que o usam, 84% estão na zona urbana, ou seja, há um abismo também nesse âmbito.

Isso significa que, em relação aos estudantes, o acesso à base curricular está comprometido e desigual. O Enem é genuinamente um mecanismo de avaliação democrático dos alunos do ensino médio, sobretudo os oriundos do ensino público, para ingresso às universidades, especialmente as públicas. Se ponderarmos que, no momento pandêmico em que vivemos, alunos de famílias de baixa renda estão passando por sérias dificuldades financeiras, aliadas aos fatores acima citados, mais a ausência de ambiente propício ao estudo em suas casas, concluímos que o exame precisa ser adiado e repensado, sob o grave risco de se tornar, ao contrário do que se destina a ser, mais um mecanismo de exclusão social.

Marta Lúcia Cabrera Kfouri, doutora em Estudos Linguísticos e professora do Departamento de Educação do Ibilce/Unesp

 

As inscrições para o Enem vão até as 23h59 do próximo dia 22 de maio.

As provas serão realizadas em novembro e a taxa de inscrição é de R$ 85.

Até o momento, o Ministério da Educação confirma a realização das provas digitais em 11 e 18 de outubro e a versão presencial em 1º e 8 de novembro.

Em seu perfil no Twitter, o ministro da Educação Abraham Weintraub disse que "vai ter Enem".

Ainda não há definição sobre o possível adiamento do exame.