PROTEÇÃO INCLUSIVA

Rio-pretenses criam máscara acessível para deficientes auditivos ou com surdez total

Estilista e intérprete de Libras criaram máscara adaptada, com transparência na região da boca, para facilitar a comunicação de pessoas com deficiência auditiva, sem diminuir a proteção contra a Covid-19


Igor Tremura, estilista, e Emily Nycole, intérprete de Libras, mostram as máscaras adaptadas
Igor Tremura, estilista, e Emily Nycole, intérprete de Libras, mostram as máscaras adaptadas - Johnny Torres 12/5/2020

Equipamento importante no combate da Covid-19, a máscara traz dificuldades para a comunicação e compreensão de conversas, principalmente com os deficientes auditivos e surdos. Pensando nisso, a dupla de amigos rio-pretenses Emily Nycole e Igor Tremura criou uma versão adaptada, que mostra os lábios e também protege contra o vírus, a fim de facilitar a compreensão e inclusão dos surdos durante a pandemia, já que conseguem fazer a leitura labial.

"Fui pesquisar se existia alguma possibilidade de deixar a máscara mais inclusiva e vi que tinham feito nos Estados Unidos uma adaptação da máscara cirúrgica para surdo. Então faço com tecido 100% algodão, igual as que usamos, mas no meio dela tem uma transparência de plástico que permite a leitura labial. Assim, ajuda a comunicação entre ouvintes e surdos", disse Igor, estilista e responsável por produzir o equipamento.

O jovem já estava produzindo máscaras convencionais e teve que estudar a modelagem do estilo adaptado. "Na produção delas pensei mesmo na inclusão, a partir dos relatos sobre as dificuldades dos surdos em se comunicarem de máscara. Vi que poderia ajudar de alguma forma essa comunidade e passei a ver que a máscara é muito útil para todas as pessoas, facilitando a comunicação entre todos", comentou Igor, que usa acetato como material transparente.

Já foram produzidas 20 máscaras, das quais 15 foram vendidas. A ideia é que a cada duas vendas uma seja doada. O valor do acessório é R$ 10 e é feito sob encomenda. "Leva entorno de uns 20 minutos para fazer uma máscara. Tenho uma pronta como modelo, mas tem o corte, a costura, a higienização e o embalo", disse Tremura.

Parceira de rapaz na criação, a estudante de Letras do Ibilce Emily Nycole Ribeiro de Oliveira, 21, tem um perfil na rede social Instagram (@maosquerompemosilenciopara) para dar informações pertinentes aos interessados por Libras. Da rede social surgiu a informação sobre a dificuldade da comunidade surda durante a pandemia.

No início, os vídeos da página eram voltados apenas aos interessados no assunto, porém, com o tempo, voltaram-se também aos próprios surdos. "Comecei a legendar os vídeos, fazer adaptação do que falava e eles interagiam comigo. Conheci uma surda de Pernambuco e ela relatou dificuldades que não percebemos. Uma vez disse que com a pandemia estava difícil se comunicar, por conta das máscaras tamparem os lábios", contou a jovem. "Ela não consegue mais escutar nada, todo mundo está protegido, mas ela está com zero comunicação. Desde o começo da pandemia foi o que me deixou mais apavorada. Não tem data para terminar e não podemos deixar o outro sem comunicação", acrescentou.

Emily postou um vídeo legendado com o primeiro modelo da máscara, explicando sua utilidade, e foi sucesso entre os seguidores, com quase 500 curtidas e 200 compartilhamentos.

Falta consciência

A presidente da Associação Brasileira dos Surdos em Rio Preto, Cláudia Regina Domingues Gouveia, que tem surdez, teve dificuldades para entender o valor de uma compra que fez na última semana, por conta da máscara que a funcionária utilizava. Ela aprovou a criação da dupla e pretende ajudar na divulgação do acessório. "O grande diferencial é a tela transparente na área da boca, que permite a leitura labial", disse Cláudia. "Falta muita consciência. São detalhes que fazem falta. Por exemplo, muitos não vão à padaria porque não conseguem se comunicar e, às vezes, isso causa constrangimentos", acrescentou.

 

Arquivo Pessoal

Principal grupo beneficiado pela nova máscara disponível para os usuários, os deficientes auditivos, surdos e intérpretes de libras acreditam que o acessório facilitará atividades simples do dia a dia, mas que para isso as pessoas que estão em contato com eles devem ter empatia para utilizá-la.

"Não vou pedir para usarem. As pessoas, sejam meus amigos ou familiares, precisam ter a consciência e empatia deles mesmos para usarem essa máscara a favor das pessoas surdas", afirmou Marcella Garcia, que tem surdez, em entrevista via WhatsApp.

As dificuldades vão desde as conversas com familiares até atividades básicas diárias, como ir às lotéricas. "Tenho encontrado muita dificuldade em me comunicar com as pessoas nos lugares, porque elas usam máscaras e não podemos tirar para conversar. Na última semana tive essa dificuldade ao ir numa casa lotérica. A atendente me falou algo sobre o troco e eu não pude entender. Apenas peguei o troco e saí. Não podia nem pedir para ela tirar a máscara", comentou a moça.

Outra dificuldade que existe há tempos e intensificou com a pandemia é o desconhecimento das pessoas em relação às Libras. "Tenho surdez profunda e meu idioma primário é a Libras. Seria ótimo se as pessoas soubessem pelo menos o básico para nos atender. Mas, na falta de conhecimento, seria ótimo se tivessem no mínimo essa máscara transparente, para facilitar que pessoas surdas, como eu, façam uma leitura labial", torce Marcella. (VS)

Além da máscara cobrir a boca dos falantes que estão em contato com o surdo, elas cobrem também grande parte do rosto, dificultando a compreensão da expressão facial, tão importante quanto a leitura labial para o entendimento da mensagem por parte dos surdos.

"Com essa nova confecção de máscaras com transparência, pode-se facilitar a comunicação entre surdos e ouvintes. A sociedade, ou ao menos atendentes de supermercados, bancos e farmácias, deveriam se conscientizar em usar essas máscaras para que não haja um bloqueio de comunicação, o que causa constrangimentos e dificuldades para os surdos", afirmou Sara Bueno Goulart, intérprete de libras.

A leitura labial dos deficientes auditivos é realizada com a interpretação de palavras-chave e palavras articuladas. "Não é como as pessoas pensam. Com o pessoal falando rápido e de forma detalhada. Eles pegam as palavras principais de uma frase. A pessoa não precisa gritar, mas articular bem as palavras das frases. Por exemplo, no supermercado, quando for perguntar se é para colocar o CPF na nota, basta dizer CPF de maneira clara que o surdo vai entender", explicou.

As dificuldades não são apenas para os surdos, mas também para aqueles que apresentam qualquer tipo de deficiência auditiva, em seus diferentes níveis. "Quem ouve pouco ou tem baixa audição também faz muita leitura labial, e a máscara atrapalha, com certeza", avaliou Sara. (VS)