COMPORTAMENTO

Mulheres contam como é ser mãe em tempos de Covid-19

Mulheres que celebram o Dia das Mães neste domingo, com filhos recém-nascidos, contam como estão lidando com o combo de situações inesperadas e muitas emoções neste momento de pandemia do coronavírus


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Carla Poliana 
Telles Manso com 
o filho Leonardo
Carla Poliana Telles Manso com o filho Leonardo - Johnny Torres

"Eu quero que tudo isso acabe logo para eu voltar à rotina e ter a liberdade de ir e vir com o meu pequeno, assim como continuar as atividades que fazia antes de tudo isso". Ainda que um sorriso tenha acompanhado a reflexão da auxiliar administrativa Carla Poliana Telles Manso, 29 anos, sobre ter dado à luz Leonardo no dia 20 de abril, ela traz uma situação que muitas mães estão vivenciando: a de viver o puerpério, também chamado de resguardo, em meio à pandemia de coronavírus.

Apesar de ser os dias mais felizes da vida, o pós-parto nem sempre é fácil. Nos primeiros dias com o bebê há privação de sono, cansaço extremo, rotina completamente nova e emoções à flor da pele. Em tempos de pandemia de Covid-19, este período fica ainda mais desafiador. Nenhuma mulher, por exemplo, imaginou que, ao engravidar, enfrentaria uma pandemia de um novo vírus e que teria de dar à luz quando o contágio do coronavírus estaria em alta.

Carla é uma das 887 mamães que tiveram filhos em abril deste ano em Rio Preto, no meio da pandemia, sendo 563 nascimentos no Hospital da Criança e Maternidade (HCM), 242 partos na Santa Casa e 82 nascimentos no hospital Austa. Em maio, até a última quarta-feira, 6, foram contabilizados 146 partos, sendo 94 no HCM, 39 na Santa Casa e 13 no Austa.

Apesar de apreensiva com a Covid-19, Carla, confessa que descobriu uma força muito maior que estava guardada dentro de si mesma. Ela, que tinha o sonho de ser mãe, conta que precisou lidar com todo esse combo de situações inesperadas por causa do coronavírus ainda durante a gestação. Quando estava com cerca de 30 semanas, ela precisou encarar o home office. "Nestes dias foram bem difíceis, pois estava insegura e com medo do que seria dali para frente. Mas fiz muitas orações. Tenho muita fé e Deus me mandou uma força e um poder que não conhecia."

Carla ainda teve que enfrentar outras batalhas. Seu bebê nasceu com apenas 35 semanas de gestação, após a bolsa estourar e ela perder muito líquido. A auxiliar administrativa enfrentou a emergência de um hospital local em meio da pandemia e sem acompanhante, uma medida para evitar aglomerações devido ao novo coronavírus. Após o parto, foi liberado o acompanhante no quarto, que garantiu seu bem-estar psicológico, e apenas uma visita por dia.

Desde a alta hospitalar, no dia seguinte ao parto, Carla optou por morar na casa dos pais para ter assistência e não ficar isolada em sua casa. "Minha mãe, pai e irmã estão tomando todos os cuidados necessários." Seguindo recomendação do seu médico, ela não tem recebido visitas, que é uma realidade de muitas famílias. "Estou sentindo muita falta do contato com outras pessoas, pois sempre fui muito envolvida com pessoas e adoro visitas e contato com as pessoas."

Por mais angustiante que seja, Carla está muito feliz em comemorar seu primeiro Dia das Mães. "A experiência de ser mãe, apesar de tudo, é incrível e maravilhosa, uma dádiva de Deus. Olho pra ele é agradeço todos dias."

Mais amor

Quem também está muito feliz é a pedagoga Bruna Dourado Pereira Custódio, de 24 anos. Mãe da bebê Ana Maria, de apenas 14 dias, ela afirma que, apesar de toda loucura, angústia e insegurança por causa da Covid-19, a vivência de ser mãe está sendo emocionante. "Está sendo uma experiência maravilhosa, única e especial."

Este período também está sendo solitário. Em tempos de pandemia e distanciamento social, a chamada rede de apoio, que conta, geralmente, com mães, sogras, irmã e madrinha, está reduzida.

A pedagoga, no entanto, conta que está se virando e mudando os planos que tinha para as primeiras semanas pós-nascimento de sua bebê. "Minha mãe me ajuda nos dias que não está trabalhando", revela. O seu esposo, quando não está trabalhando, também está de prontidão para dar todos os cuidados para a nova mãe e bebê.

Assim como outras mulheres que acabaram de parir ou estão com filhos pequenos, ela conta que está atenta à sua saúde mental e procura ajuda, mesmo que, no momento, virtual. Bruna tem usado a internet para se conectar com a sua família e amigos, principalmente por meio do WhatsApp e chamadas de vídeo. A pedagoga também tem publicado fotos da pequena no Facebook para matar a curiosidade e ansiedade dos familiares e amigos que querem conhecer a pequena logo.

Por mais angustiante que seja o momento atual da sociedade, Bruna afirma que o que importa agora é a vida. Ela conta que descobriu uma força e um poder muito maior que estavam guardados dentro de si mesma. "Descobri que a minha fé é o que me mantém de pé, que me faz seguir com firmeza neste tempo difícil no qual estamos vivendo."

Bruna conta que preferiu ter apenas acompanhante no hospital, quando a bebê nasceu, e não ter visitas. "Achei que fosse o melhor a fazer no momento, por precaução." Em sua residência, os cuidados precisam ser redobrados. "A volta pra casa foi uma experiência diferente, pois agora eu tenho uma pessoa a mais comigo para cuidar e evitar a contaminação." O médico dela não fez nenhuma recomendação sobre evitar visitas, mas ela também está restringindo os encontros em seu lar e tem sentindo muita falta de conversar e abraçar as pessoas. Bruna reza para que tudo se resolva logo e ela possa comemorar, em paz e com saúde, muitas outras vezes o Dia das Mães.

Johnny Torres 15/5/2018

Com o objetivo de achatar a curva de contaminação pelo novo coronavírus, o ginecologista e obstetra Paulo Fasanelli afirma que não está sendo permitida as visitas no hospital após o nascimento do bebê. As visitas em casa também devem ser evitadas, ainda mais agora que as puérperas foram classificadas como grupo de risco para Covid-19 pelo Ministério do Saúde. Apesar de não haver estudos suficientes comprovando que elas seriam mais vulneráveis, o órgão decidiu redobrar a atenção como forma de precaução.

O distanciamento é necessário, mas a rede de apoio deve ser mantida. Para lidar com estas situações inesperadas neste momento, Fasanelli afirma que a rede de apoio precisa ser reforçada por meio do uso da tecnologia. "Graças a Deus, hoje, temos diversas formas de comunicação e interação que a paciente não precisa estar em contato físico com a outra pessoa, como WhatsApp, skype e até telemedicina. Hoje, estamos fazendo este tipo de consulta autorizada pelo convênio. A paciente tem que reforçar a rede e não se afastar ou entregar-se para o isolamento."

Para evitar uma depressão pós-parto, o médico afirma que é preciso conscientizar-se que logo isto vai passar. "É preciso o isolamento social pelo ponto de vista da saúde física. Mas não devem ser esquecidos os cuidados com a saúde no geral, com contato direto com seus médicos, enfermeiras, doulas, pediatras e pessoas que acompanharam o pré-natal para a criação de uma rede com informação para fortalecimento de conhecimento. Ficar em casa é importante, mas é preciso ainda ter uma alimentação saudável e uma atividade física orientada por profissionais de fisioterapia e educação física para cuidar do estilo de vida e saúde. Ficar em casa é algo bom no momento e evita que a Covid-19 se espalhe." (FM)

Arquivo

"Meu sonho de mãe era ter aquela cesária agendada", diz ela. "Aquela que você se programa, toma um banho e vai para o hospital com sua mala, como toda mulher. Mas eu nunca conseguia. Era sempre aquela frase 'quase cheguei lá, quase deu certo'".

Após três tentativas interrompidas de aumentar a família, o sonho de Grasiela Dias Medina de ser mãe parecia cada vez mais distante. Mas, em plena pandemia de coronavírus, ela conseguiu e hoje comemora em família.

Grasiela e o marido, Wellington Rodrigo Medina, funcionários públicos em Mendonça, pareciam viver dentro de um pesadelo interminável. Ela, diagnosticada com trombofilia; ele, com baixa produção de espermas. Mesmo após buscarem ajuda da medicina, parecia que tudo conspirava contra o casal.

Entre 2015 e 2018, Grasiela deu a luz a dois bebês prematuros, que não resistiram ao nascimento precoce, e sofreu um aborto espontâneo. As consecutivas decepções quase fizeram com que eles desistissem. Mas o sonho de formar uma família superou as frustrações e a persistência criou uma corrente de amizade formada por mais de 300 pessoas entre amigos, familiares, médicos e simpatizantes.

Todo esse incentivo somado à mobilização médica transformou a história de luta do casal em superação. E, no dia 17 de abril, o mundo recepcionava o bebê Miguel, que nascia no hospital Beneficência Portuguesa pesando 3,75 quilos e medindo 47 centímetros.

Nem mesmo ter o primeiro filho em meio a uma pandemia ofuscou a felicidade do casal. "A gente até queria sair para dar uma volta e poder mostrar o nosso presentinho na rua. Mas isso é o de menos", diz Wellington. "Ser pai te renova as energias. A família é tudo o que você precisa para ter garra e não desistir".

A quarentena permite que os pais possam curtir cada instante perto do Miguel. "Simplesmente não existe amor maior", reforça Grasiela.

Antes de Miguel chegar para alegrar a casa, o casal passou por uma série de situações complicadas. Em 2015 engravidaram do Otávio. A notícia surpreendeu até a equipe médica, que acreditava que a única chance de Grasiela engravidar seria por inseminação artificial. 

A gestação correu bem até a 23ª semana, quando Grasiela passou a sentir algumas contrações e procurou atendimento na UPA de Mendonça. Ela chegou no HCM de Rio Preto de Samu e teve um parto normal. Otávio sobreviveu por dez minutos antes de falecer.

Em 2017 Grasiela engravidou pela segunda vez, mas sofreu um aborto espontâneo com nove semanas de gestação. Foi então que os médicos descobriram a trombofilia.

Em 2018, Wellington passou por uma cirurgia de varicocele e passou a tomar medicamentos para fortalecer o esperma. Com apenas dois meses, engravidaram de Davi. Por causa da trombofilia, para continuar com a gestação, Grasiela começou um tratamento diário com anticoagulantes, por meio de uma injeção subcutânea. Com 13 semanas de gestação, fez o procedimento de cerclagem uterina e permaneceu em repouso absoluto.

Ainda assim, Davi nasceu prematuro, na 24ª semana, e precisou ser internado na UTI neonatal. Depois de sete dias, o casal recebeu a informação de que o bebê não tinha resistido. "No dia que ele nasceu meu marido foi ao cartório para fazer a certidão de nascimento. Sete dias depois, voltou para fazer o atestado de óbito", lamentou a mãe.

Desistência

Por conta do sofrimento, naquele momento, eles já haviam desistido de tentar de novo. Mas, devido aos procedimentos cirúrgicos necessários durante a terceira gestação, Grasiela foi proibida de tomar anticoncepcionais. Cerca de um ano e meio depois, sem esperar, descobriu estar grávida pela quarta vez.

"Foi uma semana de choro por conta do medo de perder de novo", recorda Grasiela. Eles procuraram o médico e descobriram que a gestação estava na sexta semana. Na 14ª semana, a paciente passou por uma cerclagem dupla e colocou uma borracha no colo do útero chamada de pessário.

A gestação foi assistida de perto pelos médicos, já que a gestante passou três meses internada. "Eu não consegui curtir minha gestação. Não é bobeira para quem sonha engravidar fazer chá de bebê, fazer festa. Eu não tive nada disso. Eu levantei da cama para ir para o hospital internar", recorda.

Com o quadro controlado, ela pôde passar as últimas semanas da gestação em casa até a data marcada para o parto. "A chegada do Miguel foi de muita festa e emoção. As médicas, enfermeiras e funcionários foram lá para acompanhar. No WhatsApp tinha muita gente torcendo, acho que ainda não consegui responder todo mundo", brinca.

Céu de estrelas

Neste dia das mães, Miguel chegou para colorir a casa da família que já era iluminada por um céu de estrelas. "Agora, posso dizer que tenho quatro filhos. São três anjos e o Miguel, meu bebê arco-íris," diz a mãe. O termo é usado como referência ao filho que nasce depois que a mãe passou por um aborto ou teve um filho morto prematuramente.

"Minha mãe dizia que um dos sons mais emocionantes era o barulho da maçaneta, de quando um filho chegava em casa. Hoje eu entendo isso", reflete Wellington.

Arquivo pessoal

Com a quarentena implantada em todo o Estado para ajudar a reduzir a disseminação da Covid-19, muitas mães estão trabalhando em casa e tentando conciliar o home office com os filhos pequenos. Manter os negócios a todo vapor enquanto passa um tempo de qualidade com as crianças de maneira produtiva e agradável não está sendo uma tarefa fácil. Muitos especialistas afirmam que é preciso criar uma rotina, estabelecer limites, organizar previamente algumas atividades para os pequenos, preparar refeições com antecedência, assim como estimular a independência e utilizar a tecnologia como uma parceira para criar um ambiente prazeroso.

A fisioterapeuta Marita Siscão afirma que o home office está sendo uma fase de autoconhecimento. Mãe do Benício, de dois anos, ela conta que está redescobrindo muitas possibilidades. "Achei que seria difícil, mas não foi bem assim. Desde o começo conversamos com o Benício que ficaríamos em casa e que seria um momento nosso, explicamos de forma bem tranquila o motivo e de forma que consideramos ideal pra idade dele. Organizamos períodos de home office diferentes para mim e para o meu marido, alternando quem está presente com o Benício e tivemos muitos momentos com os três juntos. O momento que estava com o Benício realmente aproveitava com ele e acho que facilitou ele respeitar quando falava que ia trabalhar e encostava a porta do quarto."

Marita Siscão confessa, no entanto, que o início não foi fácil. "O home office foi desafiador. Tive que aprender a fazer tudo remotamente, por videoconferência e através de reuniões online. Achei que não acostumaria, mas hoje vejo o quanto facilita e ajuda o trabalho. Essa é uma ferramenta que realmente pretendo manter em minha rotina sempre. Aprendi que os cuidados com a casa podem ser feitos em vários dias e que também é gostoso cuidar da casa."

Além de organizar o armário do filho, Marita e a família fizeram algumas receitas neste período, voltaram a ouvir música em casa, agradecer pelo alimento e houve muita aproximação. "Acho que nunca tinha organizado tanto meus dias, que parecem passar mais devagar, o que facilitou o trabalho ser mais produtivo e efetivo. Houve momentos que o Benício precisou de mais atenção e ficou no meu colo durante o trabalho ou parei pra brincar com ele por uns minutinhos que fizeram grande diferença." (FM)

Hospital da Criança e Maternidade (HCM)

  • Abril - 563
  • Maio - 94

Santa Casa

  • Abril - 242
  • Maio - 39

Austa

  • Abril - 82
  • Maio - 13
Divulgação

A saudade dos momentos fora de casa, como simplesmente passear pelo condomínio, ainda que mais restritos por ser no puerpério, acertou em cheio a dona de casa Maria (nome fictício). Ela e os pequenos João e José (também nomes fictícios), de três meses e três anos, já tinham experimentado o que era apreciar passear juntos. No entanto, a situação mudou. Com a solidão do isolamento, a mulher de 36 anos conheceu de perto sintomas como tristeza, acompanhadas de alterações de humor e crises de choro, e foi diagnosticada com depressão pós-parto.

Com vergonha de admitir problema, apesar de especialistas afirmarem que a doença não é uma falha ou fraqueza, a dona de casa está sendo acompanhada por psicóloga e pela obstetra/ginecologista. Para ela, o período de isolamento é ainda mais delicado porque teve uma gestação de risco e precisou ficar em repouso. "A quarentena só piorou o quadro que já estava instável. Além disso, estou com muito medo das crianças contraírem a Covid-19 e também estou triste por estar longe dos meus pais, que estão no grupo de risco. Com o tratamento, no entanto, já estou melhorando."

A psicóloga Vanilda L. Souza Tanios afirma que o processo do puerpério está ainda mais desafiador durante a quarentena. Principalmente porque o distanciamento, sem abraço, convívio e contato, é necessário para evitar a contaminação. O puerpério, que é um momento muito delicado, também está sendo feito com uma rede de apoio reduzida.

Vanilda explica que os avós devem apoiar a nova mãe, mesmo a distância, por meio da internet, assim como o pai da criança deve estar presente. "Tudo o que se faz ao vivo, deve ser feito a distância por meio dos vídeos, por exemplo. Isto vai servir de nutrição para a mãe afastar a tristeza por causa das mudanças hormonais e da rotina, como o aumento das tarefas, da privação do sono e adaptação do bebê, que traz uma sobrecarga natural."

A especialista afirma que a gravidez costuma ser associada, no imaginário social, a um período de felicidade. "Esse sentimento não pode ser visto como uma obrigatoriedade, mesmo que a gestação tenha sido planejada. Este sentimento não é um dever. É natural que a chegada do bebê traga momentos de apreensão, entristecimento e insegurança. A questão é que estes momentos antes eram diluídos com ajuda da mãe, de uma amiga, e agora não. Por isto, no momento de pandemia, deve haver este apoio, mesmo que virtual."

A psicóloga Bruna Tanios afirma que o isolamento pode contribuir para uma depressão pós-parto porque a mãe está muito cansada e com estresse muito grande. No entanto, cada mãe vai reagir de uma forma. "É importante considerar que ela está passando por um momento de mudança interna e social, e este período deve ser respeitado e com apoio dentro do limite". Essa nova mãe precisa de um olhar generoso. "Cada vez mais tem se falado de maternidade real para trazer um olhar de que existe o lado maravilhoso e também difícil, e que neste momento de pandemia fica mais evidente." (FM)