SAÚDE MENTAL EM ALTA

Grupo de psicólogos oferece atendimento virtual

Grupos de especialistas em saúde mental ajudam a população e os profissionais de saúde a lidarem com a epidemia e com as incertezas sobre o futuro que ela traz


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Psicólogo Tomaz Alvarez Ciani diz que o maior desafio é ajudar a lidar com as incertezas
Psicólogo Tomaz Alvarez Ciani diz que o maior desafio é ajudar a lidar com as incertezas - Arquivo Pessoal

Insônia, alteração de apetite ou dificuldades com o relacionamento social estão entre os problemas relatados aos psicólogos que têm atendido pacientes voluntariamente durante a pandemia do coronavírus. Com o aumento de sintomas relacionados à ansiedade, causados pelo isolamento social e pela mudança de hábitos, o serviço torna-se essencial para auxiliar a população durante a quarentena. 

"O maior desafio é ajudar as pessoas a lidar com a incerteza sobre os rumos futuros da sociedade como um todo e de como ficarão suas vidas à medida que tudo for sendo normalizado. Um segundo ponto que tem aparecido bastante como tema dos atendimentos é a busca por uma forma de se organizar mentalmente para lidar com questões provocadas pelo isolamento, tais como dificuldades em se relacionar com familiares, aumento do consumo de álcool, ansiedade e irritabilidade", afirmou o psicólogo Tomaz Alvarez Ciani, um dos 27 profissionais do coletivo "Eu sou porque nós somos".  

Os principais problemas citados pelos pacientes envolvem transtornos causados pela ansiedade. "São relatados a dificuldade para dormir e para se relacionar, a mudança do apetite e o medo constante, que às vezes dão crise de pânico", explicou a historiadora e psicóloga Jéssica Oliveira. "Com o isolamento, as coisas ficam escancaradas, surgem os problemas da violência contra a mulher. Não temos visto tanto, mas já chegou. Com o prolongamento da quarentena e a possibilidade do Brasil ser um dos próximos epicentros, com certeza essas demandas vão chegar muito mais."

O coletivo iniciou os atendimentos virtuais há pouco mais de 40 dias e sentiu a necessidade de aumentar a quantidade de psicólogos prestadores do serviço. Atualmente são 70 pacientes espalhados pelo Brasil, mas com fila de espera de 25 pacientes.

A ideia é oferecer ajuda momentânea para quem precisa, diferente de um tratamento com acompanhamento tradicional e presencial. "No consultório é mais profundo e longo. O que procuramos agora é a psicoterapia de calamidade e emergência, atender as demandas por conta da pandemia. Não dá para buscar na infância, senão corremos o risco de mexer com conteúdos que não dariam para trabalhar", explicou Jéssica.

Menos ansiedade

Tomaz já sente o resultado positivo dos atendimentos específicos para a pandemia. "Logo na primeira semana três pessoas fizeram contato comigo para começarmos o trabalho. Passadas cinco semanas foi possível encerrar o processo de acompanhamento com dois clientes que já se sentiam menos ansiosos e com maior capacidade de enfrentar as dificuldades trazidas no começo do atendimento.".

Como profissional, o rapaz acredita ser uma experiência valiosa poder ajudar alguém neste difícil momento social. "Acho que ter um espaço de escuta e compreensão possa beneficiar pessoas que estão se sentindo solitárias, ansiosas e/ou deprimidas. Vivemos um momento em que temos restrições e não conseguimos realizar nossas atividades normalmente como antes, então precisamos nos reinventar e aprender soluções para que consigamos ter saúde mental e qualidade de vida", pontuou.

Agendamento

As sessões online são gratuitas, variando entre quatro e oito atendimentos durante o tratamento. Eles são voltados para três tipos de público: pessoas que trabalham na linha de frente do enfrentamento à doença e não puderam parar; as isoladas sozinhas dentro de casa e as em vulnerabilidade social e econômica.

"O maior público até o momento são mulheres, dados desde antes da pandemia, já que homens costumam ter preconceitos na procura da ajuda psicológica. Não temos muita procura de idosos, gostaria de ter mais", comentou Jéssica. A faixa etária mais atendida pelo coletivo são de pessoas entre 20 e 38 anos.

Os contatos com o grupo podem ser feitos pelo (17) 99191-2983 (WhatsApp) ou pelo e-mail [email protected] Há também o site www.eusouporquenossomos.com.br para outras informações sobre o coletivo.

Brasileiros que moram fora do país também têm buscado ajuda profissional para tentar minimizar os efeitos psicológicos da pandemia. Com serviço de apoio feito por profissionais com especialidades diferentes, o grupo monitorado pela psicóloga Ana Monachesi já realizou pouco mais de 100 atendimentos até o começo da última semana. 

"Os atendimentos estão aumentando e somos procurados cada vez mais por um público que não imaginávamos: brasileiros fora do Brasil, crianças, adolescentes e pessoas internadas em hospitais. Pacientes têm relatado distúrbios de sono, fobias, irritabilidade, pensamentos suicidas, depressão e algumas alucinações", declarou a psicóloga.

Com ações sociais gratuitas de acolhimento online para ajudar as pessoas a lidarem com o medo causado pelo coronavírus os pacientes fora do país vivem realidades distintas. "Fora as queixas comuns, apresentam dificuldade de comunicação e hábitos alimentares diferentes dos nossos, o que também causa um estranhamento e muita angústia por estarem fora do Brasil", afirmou Ana.

O grupo abriu horários flexíveis e está trabalhando aos finais de semana para atenderem todo tipo de público. Ainda há horários disponíveis. "(Atendemos) brasileiros que já residem fora ou até aqueles que não conseguiram voltar de uma viagem ou porque estão em isolamento em algum cruzeiro ou hotel em quarentena. Muito triste e preocupante, porque a pessoa dentro de um navio pode inclusive perder noção de tempo e fazer confusão entre dia e noite", avaliou a profissional.

O contato para direcionar os atendimentos com os profissionais que estão fazendo o atendimento online e gratuito é (17) 99776-9958 (WhatsApp). (VS)

Além das questões de ansiedade intensificadas com o isolamento social, o medo da contaminação pela Covid-19 e a possível transmissão do vírus para familiares, somadas às condições de trabalho, são as principais questões levantadas pelos profissionais de saúde que têm buscado auxílio no Ciclo de Mutação de Rio Preto. Foram atendidas pelo menos 30 pessoas desde o início da prestação do serviço emergencial. 

"A queixa mais contundente é o fato de, por exemplo, plantonistas serem contratados para a emergência e não existir uma formação prévia de equipe. É diferente de ter equipes formadas e condutas estabelecidas", explicou a psicóloga Tina Zampieri. "Estão associadas também ao medo de contágio (para familiares principalmente) ou da recontaminação.

Especialista em EMDR, terapia desenvolvida nos Estados Unidos para tratamento de traumas de veteranos de guerra e indicada para casos de estresse pós-traumáticos e catástrofes, Tina destacou que os profissionais lidam com a morte, o que pode acarretar problemas psicológicos durante toda a situação pandêmica.

"Situações que já chegaram, por exemplo, de tentar fazer o procedimento de massagem cardíaca sem ter uma prancha rígida sob o paciente. Fica difícil fazer o procedimento e ver a pessoa ir a óbito na sua frente, sem ter as condições básicas para fazer tudo. Fica uma sensação de que talvez pudesse ter feito um pouco mais", comentou.

Com três profissionais atendendo, há vagas para pacientes interessados. "O objetivo é minimizar o desconforto com esta condição estressante, por viver situação de muitas mortes e por ficarem longe da família e o medo do contágio", disse Tina. Os profissionais de saúde interessados podem acessar o site www.ciclomuta.com.br. (VS)