A lenda do anu-preto
Esta ave é encontrada aos bandos por pastos e invernadas. E também em capoeiras

Dia desses, recebi ligação do meu querido amigo Jessé Fernandes, jornalista dos bons. Depois dos cumprimentos, foi direto ao assunto, perguntando se eu conhecia a lenda do anu-preto, já que eu havia falado de tantas lendas. Depois de perguntar, enviou vídeo pela rede social de um casal de anus namorando. Confesso, meu amigo, disse, esqueci completamente a lenda deste pássaro.
Esta ave é encontrada aos bandos por pastos e invernadas. E também em capoeiras. Muito comum em nossa região. O preto de suas penas é tão intenso que ao sol ganhava tom azulado. Era possível vê-los junto a animais pastando. Os insetos voavam com a aproximação de reses. Ou, quando não, sentavam no lombo delas e lá permaneciam, se refestelando com carrapatos. Existe também seu primo, anu-branco, que na verdade é meio amarelado e com topete arrepiado. Os meninos com topetes eram chamados de anu-branco.
O anu-preto é extremamente sociável. Raramente são vistos sozinhos. Barulhentos por natureza, quando o líder voa, todos o acompanham ao mesmo tempo, fazendo a maior algazarra. Todos ajudam na construção do ninho que, ao final, fica em forma de picuá. As fêmeas põem ovos de coloração azulada no mesmo ninho.
Comem insetos, minhocas, cobra-cega, pequenos frutos, e até são capazes de pilhar ninhos de outros pássaros em busca de filhotes.
O gavião carcará era seu maior inimigo. Quando ele se aproximava de seu ninho, os anus davam rasantes sobre ele, para intimidá-lo.
Em nossas caçadas de estilingue, saíamos com os bolsos cheios de pelotas de saibro, não tenho lembrança de que algum menino tenha atirado pedra n’algum anu-preto. Rezava a lenda que matar um deles dava azar por sete anos. Vai que…
Ele era de alguma forma sagrado entre os rapazes em busca de casamento. Eram os únicos a matar a pobre ave. Em torno dela, girava a lenda de que dava certo se a gente matasse um anu-preto, retirasse o coração e o assasse até que virasse carvão e, depois, esfarelasse até virar pó. A seguir, era colocado no rastro da moça a qual se estava enamorado.
Diziam que era tiro e queda. A moça que antes nem notava o moço, após a simpatia, se encantava e desejava a todo custo se casar com ele.
Tinha que ter muito cuidado para colocar a poção mágica no rastro da pretendente. O rapaz, na euforia, podia pôr em rastro errado, daí o tiro sair pela culatra.
Na colônia, morava o seu “Quica”. Nunca soube seu nome verdadeiro. Arrastava o espanhol. Dizia que tinha vindo da Andaluzia, Espanha.
Seu Quica dizia, quando o assunto no terreiro de conversa girava em torno da lenda, que ele tinha feito a tal simpatia. Era apaixonado por uma brasileira. Matou o pássaro, assou e colocou as cinzas no rastro da pretendente. Isso durante a semana. Quando foi no sábado, no baile, ela o chamou para dançar e se declarou a ele. Estavam casados havia mais de dez anos.
Jessé, penso que a ave foi responsável por grande parte dos casamentos na roça. A lenda do anu-preto fez milagres.
Jocelino Soares, Artista plástico, diretor da Casa de Cultura Dinorath do Valle e membro da Academia Rio-pretense de Letas e Cultura