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Política

'Ministro da saúde não é despachante de decisão de Anvisa', diz Queiroga

Estadão Conteúdo
Publicado em 15/01/2022 às 17:24Atualizado em 15/01/2022 às 17:33

Em meio ao atrito entre o Palácio do Planalto e a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a imunização das crianças de 5 a 11 anos, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou neste sábado, 15, em João Pessoa, que não é "despachante" do órgão regulador. A declaração ocorreu após um embate travado nos últimos dias entre o presidente Jair Bolsonaro, crítico da vacinação infantil contra a covid-19, e o diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres.

O ministro da Saúde tem sido criticado pela demora no início da vacinação das crianças. A Anvisa autorizou a aplicação das doses pediátricas em 16 de dezembro. O Ministério liberou a imunização em 5 de janeiro, e o primeiro lote com vacinas da Pfizer chegou ao País na última quinta-feira, 13.

"Quantos medicamentos, dispositivos ou produtos têm registro na Anvisa e não fazem parte das políticas públicas? O ministro da Saúde não é um despachante de decisão de Anvisa nem de agência nenhuma", afirmou Queiroga. "O Ministério da Saúde é quem conduz a política pública e o ministro da Saúde é a principal autoridade do sistema de saúde no Brasil."

Queiroga esteve na capital paraibana hoje para um ato de imunização e testagem contra a covid no Hospital Universitário Lauro Wanderley. O ministro afirmou, durante entrevista, que a história julgará seu trabalho à frente da pasta.

"A história vai julgar, vai me julgar. Eu trabalho todos os dias para que eu tenha um bom julgamento da história", disse. "Eu faço o melhor que eu posso."

Reação

Durante um evento no Palácio do Planalto na quarta-feira, 12, Bolsonaro tentou minimizar o atrito com a agência. Depois de ter rebatido uma carta de Barra Torres dirigida a ele, o presidente disse que não "brigou" com o contra-almirante, mas apenas o questionou sobre a recomendação para que crianças de 5 a 11 anos fossem vacinadas.

"Aqui não é um quartel, mas devemos ao máximo zelar pela hierarquia e disciplina, senão não funciona. Não briguei com o presidente da Anvisa, apenas questionei sobre um assunto que tinha que ser questionado. Somente eu e ele. De repente está na imprensa", afirmou o chefe do Executivo.

Na segunda-feira, 10, dois dias após ser cobrado publicamente para que se retratasse dos ataques à Anvisa, Bolsonaro havia dito ter ficado surpreso com o que chamou de "carta agressiva" de Barra Torres. O presidente afirmou não ter acusado o almirante de corrupção e mudou o tom das insinuações, mas voltou a levantar dúvidas sobre as "intenções" da agência ao recomendar a vacinação infantil.

"Me surpreendi com a carta dele. Carta agressiva, não tinha motivo para aquilo. Eu falei: 'O que está por trás do que a Anvisa vem fazendo?' Ninguém acusou ninguém de corrupção. Por enquanto, não tenho o que fazer no tocante a isso aí", disse Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan.

No sábado passado, 8, Barra Torres havia cobrado uma retratação pública de Bolsonaro, dois dias após o presidente questionar os "interesses" de integrantes da Anvisa, ao reclamar do aval à vacinação infantil. "Se o senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate", escreveu o militar da reserva da Marinha, ao desafiar o presidente a apontar indícios de corrupção contra ele.

Vacinação infantil

Depois de tentar dificultar a vacinação de crianças, o Ministério da Saúde autorizou em 5 de janeiro a aplicação do imunizante contra a covid-19 na faixa etária de 5 a 11 anos, sem exigência de prescrição médica, como havia sido considerado por Queiroga. O intervalo da aplicação das duas doses pediátricas será de oito semanas.

Na sexta-feira, 14, no dia em que o Governo de São Paulo realizou cerimônia de início da vacinação infantil contra covid-19 no Estado, Queiroga usou as redes sociais para acusar o governador paulista, João Doria (PSDB), escolhido como pré-candidato do PSDB à Presidência, de fazer "palanque" com os imunizantes. Quase um ano depois de vacinar a primeira pessoa contra o coronavírus no País, antes do Governo Federal, o tucano repetiu o jogo político na imunização de crianças.

"O político @jdoriajr subestima a população. Está com as vacinas do @govbr e do povo brasileiro em mãos fazendo palanque. Acha que isso vai tirá-lo dos 3%", escreveu Queiroga no Twitter, numa referência ao porcentual de intenções de voto de Doria em algumas pesquisas eleitorais. "Desista! Seu marketing não vai mudar a face da sua gestão. Os paulistas merecem alguém melhor", acrescentou o ministro, que também é cotado para disputar cargo público nas eleições deste ano pela Paraíba.

O ministro ressaltou ainda que as vacinas para as crianças chegaram ao Brasil "em tempo recorde". "Logo após autorização da agência reguladora a farmacêutica começou a produzir as doses e garantiu que esse era o melhor cronograma possível. O @minsaude garante que todos os pais que quiserem vacinar terão vacinas!", disse Queiroga.

Em cerimônia no Hospital das Clínicas ontem, 14, Doria imunizou a primeira criança entre 5 e 11 anos contra a covid-19 no País: o menino indígena Davi, de 8 anos, da etnia Xavante. A vacina pediátrica usada foi a da Pfizer, cujo primeiro lote chegou ao País naquela madrugada.

O local do evento foi o mesmo onde a enfermeira Mônica Calazans recebeu, em 17 de janeiro de 2021, a primeira dose de vacina contra o coronavírus no Brasil. Ela foi imunizada com a Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan, do Governo de São Paulo, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac.

Durante a cerimônia, Doria aproveitou para cobrar da Anvisa a liberação do uso pediátrico da Coronavac. O governador também elogiou o órgão, que tem sido atacado por Bolsonaro. Para o tucano, a Anvisa realiza um trabalho "extraordinário" em defesa da ciência, da medicina e da vida.

 
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