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Diário da Região

09/05/2016 - 19h11min

Entrevista

Psicologia do dinheiro

Entrevista

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Com a crise econômica sendo noticiada diariamente em todos os programas de televisão, jornais e revistas, fica difícil até para os profissionais da saúde não se contaminarem pelo desânimo. É preciso ter controle da vida financeira e reduzir despesas para diminuir as dívidas a fim de não deixar a conta bancária no vermelho. No entanto, se você não está conseguindo ter controle financeiro na sua empresa, a psicóloga autora do livro Uso do dinheiro na vida adulta, Valéria Meirelles, afirma que é preciso deixar o pessimismo de lado porque existem soluções práticas. 

A psicóloga criou uma oficina para psicoterapeutas e profissionais liberais da área de saúde, na qual fala desde questões de ordem prática envolvendo captação de clientes, precificação de consultas, formas de pagamento e até de aspectos administrativos e financeiros. Ela desembarca em Rio Preto no dia 14, onde ministra o curso Lado a lado: prática clínica e sucesso financeiro, sobre temas como a história do dinheiro na família e a administração clínica. A atividade será no anfiteatro da Unorp. 

Valéria fala com propriedade no assunto porque já se frustou na administração do dinheiro na prática clínica e transformou a experiência negativa em algo positivo. "Há mais de uma década, embora capacitada profissionalmente e na época atuando principalmente como psicoterapeuta há 15 anos, comecei a perder clientes e me dei conta de que pouco ou quase nada sabia a respeito do funcionamento de um consultório. Pior, embora fosse profissional liberal, atuava no automático.

Estudava muito, fazia supervisão, tecnicamente dava meu melhor aos clientes, mas não sabia nada de administração financeira e muito menos de educação financeira. Pior, achava que sabia." A psicóloga trabalhou muito tempo com seu consultório dando prejuízo e usando um dinheiro que havia recebido como herança do pai, o que gerou desespero e depressão. "Eu perguntava para meus colegas como eles faziam para cuidar do consultório e do dinheiro, e tudo que eu obtinha eram informações incipientes. Na verdade, quase ninguém sabia como administrá-lo, o que me deixou perplexa. Foi quando passei a pesquisar sobre o tema, em 2005." 

 

Valéria Meirelles - 08052016 Existe uma confusão em relação a cuidar e cobrar, que muitas vezes paralisa o profissional, afinal, como falar de dinheiro com alguém que sofre? Mas isso é um equívoco - Valéria Meirelles

Revista Bem-Estar - Como foi mergulhar neste universo? 

Valéria Meirelles - Constatei que não havia sequer literatura sobre o assunto. Sobre dinheiro. Eram livros mais na linha autoajuda, pois não se falava nele como se fala nos últimos cinco anos. E sobre administração de consultório, menos ainda. Assim fui construindo meu conhecimento, sempre correlacionando com a prática, pois eu precisava arrumar minha vida profissional, reorganizar minhas condutas e ter lucro com meu trabalho. Foi uma longa e profunda caminhada que envolveu estudos, psicoterapia e supervisão. Além, claro, de foco e disciplina.

E neste processo várias colegas foram me acompanhando e pedindo dicas, informações e comecei a identificar a possibilidade de um nicho de mercado. Em 2007, fui apresentada à psicologia econômica, que se tornou o grande divisor de águas em meus conhecimentos. Daí para o doutorado foi um passo, iniciado em 2008, com foco na psicologia do dinheiro. Pesquisei como homens e mulheres lidam com o dinheiro ao longo da vida adulta, o que me esclareceu muitos de nossos comportamentos relacionados ao dinheiro.

Embasada na psicologia do dinheiro, teoria que trouxe para o Brasil e que estuda como as pessoas se relacionam com o dinheiro nas várias esferas da vida, incluindo o trabalho, retomei a parte de administração financeira voltada à prática clínica, aos profissionais liberais. Hoje meu trabalho é o resultado disso tudo: de pesquisas acadêmicas em psicologia econômica, psicologia do dinheiro, administração de carreira, financeira e de educação financeira, juntamente com minha experiência em recursos humanos e coaching.

Bem-Estar - Como você orienta o autônomo a lidar com o dinheiro?

Valéria - São várias etapas em um processo de orientação psicológica. Primeiro, foco na psicologia do dinheiro, buscando entender a relação que o autônomo tem com o dinheiro, tendo como ponto de partida sua família. É um trabalho de base, pois sem este entendimento pouco se caminha em termos de sucesso profissional e financeiro. Exploro significados, valores, crenças, modelos familiares e, claro, emoções no uso do dinheiro, e identificamos quais as influências disso tudo na prática autônoma.

É surpreendente ouvir as histórias. Segundo, vou para a parte material. Os custos da vida, os projetos e como o profissional pretende realizá-los. No terceiro, a parte prática da vida do autônomo, como o que fazer e como fazer, desde a montagem da clínica até precificação de consultas, negociações, etc. Montamos um plano de ação com foco nos objetivos a serem atingidos e vamos trabalhando passo a passo. No quarto, sugiro muita leitura em educação financeira e, se for o caso, buscar um planejador financeiro para orientá-lo em relação a investimentos, já que esta não é minha especialidade.

Bem-Estar - Qual a influência da formação familiar na relação com o dinheiro?

Valéria - Diria que quase que total interferência. A família é responsável pela socialização econômica do indivíduo, ou seja, é ela quem ensina conscientemente ou não os modelos que as pessoas usarão ao longo da vida. E nas relações familiares o dinheiro tem muita influência, poder mesmo, atuando como intermediário ou metáfora para inúmeras situações. Portanto, não consigo pensar em uso do dinheiro sem entendê-lo no âmbito familiar. Ele nos mostrará muito a respeito das relações e da hierarquia.

Bem-Estar - Qual é o perfil de profissionais que precisam de orientação financeira?

Valéria - Principalmente meus colegas da área de saúde, que lidam com dor humana, seja ela física ou emocional. Existe uma confusão em relação a cuidar e cobrar, que muitas vezes paralisa o profissional, afinal, como falar de dinheiro com alguém que sofre? E isso é um equívoco. Na verdade, nossas faculdades nos preparam para sermos ótimos profissionais, mas pouco ou quase nada nos orientam a respeito da condução de nossa carreira, e menos ainda do uso do dinheiro.

Bem-Estar - Como é possível identificar se somos compulsivos por gastos ou outro comportamento negativo qualquer envolvendo o consumo exacerbado ou a avareza extrema? 

Valéria - Se você gasta mais do que recebe, não tem controle sobre seus impulsos na hora da compra e está negativo no banco, já está na hora de pedir ajuda, pois há um sério problema. E se não está negativo, mas não consegue economizar, gastando sem pensar, também é sério. Tanto compulsão quanto avareza são patologias financeiras que devem ser cuidadas.

A primeira não controla impulso, pois precisa ter um bem para suprir algo que assim que adquirir provavelmente perderá o sentido. A segunda, ao contrário, precisa da segurança material e acumula bens de maneira nunca suficiente, a fim também de suprir algo que nem sabe direito o que é. O avarento se priva do prazer imediato para ficar olhando e contabilizando os bens ou o dinheiro que possui e se sentir seguro.

O gastador precisa de algo na hora e não possui a capacidade de espera ou de postergar desejo. Costuma ser o melhor amigo do vendedor da loja, o cliente especial e sequer se preocupa com o futuro, pois o prazer do presente é o que importa. Raramente faz controle de suas contas para não sofrer e comumente usa cheque especial, crédito consignado e afins. Ambos estão fora do equilíbrio e mascaram dificuldades afetivas imensas, disfarçadas pelo uso disfuncional do dinheiro.
 
Serviço

  • Curso Lado a lado: prática clínica e sucesso financeiro, com Valéria Meirelles. Dia 14 de maio, das 8 às 12 horas, no anfiteatro da Unorp. Realização da Clínica CDH - Rio Preto. Inscrições e informações: (17) 3227-0556 e 3012-3576

 

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