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Diário da Região

22/03/2015 - 03h01min

Artigo

Paixão, o mito da felicidade eterna

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Rubens Cardia/Arquivo Josinel B. Carmona é psicólogo, de Rio Preto
Josinel B. Carmona é psicólogo, de Rio Preto

"Não há diferença entre um sábio e um tolo quando estão apaixonados." Herbert Victor Prochnow

Sem querer me aprofundar em questões técnicas, mas vale a pena saber que a sensação é neurológica, enquanto a sensibilidade é psicológica. Tudo isso recheado com a afetividade, que representa a consciência do ser, da sensibilidade emocional diante da vida. Nesta consciência, repousam as bases do querer e do fazer, do desejo e da vontade. A paixão tem tudo a ver com sofrimento, com um sentimento exagerado, um movimento impetuoso de todo o ser, uma ânsia incontrolável que toma conta de tudo, que cega e transforma as sensações, a sensibilidade, a afetividade e então a consciência. Paixão se define como desgosto, mágoa, sofrimento prolongado. Um estado físico e psicológico, bem alterados.

Acredito que não haja dúvida a respeito de que paixão não é amor. Em média, a paixão tem um prazo de validade, mais ou menos quatro anos. Após esse período, o relacionamento tende a acabar se não houve uma evolução nesse vínculo. No caso dessa relação ter crescido e se desenvolvido, tornado-se madura e podido deslocar o foco do sexo e da reprodução, então esse vínculo terá grandes chances de experimentar o amor. É um pouco difícil de se aceitar, mas os apaixonados se ligam com tanta intensidade, se buscam com grande voracidade, se desejam a ponto de perderem o contato com valores, regras, normas sociais e pessoais de vida e conduta, justamente pelo fato de a energia envolvida nesse processo pertencer ao mundo dos instintos, à necessidade imperiosa de se unir e gerar descendentes. Olhando assim, a imagem fica nada romântica, a pílula deixa de ser dourada.

Os seres apaixonados são eternos incompletos, que atribuem ao objeto da paixão a solução dessa tão desconfortável dor. Todos somos vítimas de um bombardeio de estímulos e propaganda, a fim de gerar necessidades, desejo por objetos e pessoas, lugares, despertando sentimentos e pensamentos de estarmos incompletos, aleijados. Não existe diferença entre a paixão por algo ou por alguém. É uma experiência de falta, de desejo, muitas vezes incontrolável, de possuir aquilo ou alguém. Em muitos casos ultrapassando certos níveis da saúde emocional e psicológica e do controle, essa necessidade se torna uma obsessão, uma ideia fixa que domina tudo. Um vício, aliás, com as mesmas bases fisiológicas, psicológicas e neuroquímicas de certas dependências e do pensamento obsessivo.

Assim nasce um mito. Algo ou alguém que assume um papel central na mente e na vontade de alguém de maneira fabulosa, detentora de um poder a ele ou isso atribuído que lhe confere a possibilidade de transformar a vida do apaixonado, claro que para melhor, mesmo que não raro, contrariando a realidade e os fatos. Na paixão, perde-se parte da capacidade de julgamento, percebe-se apenas o que se pode perceber a fim de não despertar do delírio gerado pela paixão. A paixão cega, distorce, embeleza tudo e embriaga os sentidos. Cria-se uma idealização do objeto ou do ser 'amado'. A percepção psicológica é a de que sem isso ou esse não será possível existir ou ser feliz. A felicidade está em estar próximo do ser idealizado, de possuí-lo.

A paixão não é um mal, ao contrário, é uma fonte geradora de motivação, alegria e determinação, porém deve ser vivida dentro de certos limites. Aliás, como tudo. Toda paixão envolve um estado de consciência alterada, porém algumas delas assumem proporções exageradas que, não raro, estão no centro de grandes problemas pessoais e existenciais, profissionais e até legais. Alguns crimes ou suicídios acontecem sob esse estado mental afetado pelo mito da felicidade possível apenas a partir do outro ou daquilo.

Somos uma sociedade de apaixonados carentes e insatisfeitos. E isso não pertence apenas ao mundo dos adolescentes. Temos procurado os mais caros 'artigos' de nosso tempo, felicidade e paz, no lugar errado. As paixões são agonia e desespero. Tanto a paz quanto a felicidade são consequências de uma vida tranquila, financeiramente ajustada, equilibrada física, nutricional e espiritualmente. O que tanto desejamos está ligado ao amor que depende de um investimento a longo prazo, tempo que parece não nos pertencer. Uma dedicação consciente e calma, impossibilitada pela ansiedade cotidiana que nos apressa. Uma entrega que tememos pela desconfiança que nos cerca. Estamos todos aprendendo, sempre.

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