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Diário da Região

27/03/2016 - 00h00min

Rússia

Expresso Oriente

Rússia

Agência O Globo Imersão na paisagem e na cultura russas
Imersão na paisagem e na cultura russas

Vladivostok. Quem já jogou War - o lendário jogo de tabuleiro que transforma o mapa-múndi numa enorme batalha, onde dados definem invasões a países e continentes - nunca esquece este nome. No mapa meio amalucado do jogo, Vladivostok batiza uma área imensa, que engloba grande parte da Rússia e as duas Coreias inteiras, servindo de ponto estratégico para quem pretende "conquistar" a Ásia, vindo do Alasca. Na vida real, é só uma cidade. Mas não é uma cidade qualquer.

A poucos quilômetros da fronteira da Rússia com a China e com a Coreia do Norte - e de frente para o Mar do Japão -, Vladivostok abriga o quartel-general da frota de submarinos russos do Pacífico. É considerada a região militar mais protegida do país depois de Moscou. Mas é no turismo que Vladivostok tem sua fama mais recente, e muito mais admirável. É ali o ponto final (ou o começo, dependendo do itinerário) da Ferrovia Transiberiana, que liga a cidade até Moscou, pela estrada de ferro mais longa e famosa do mundo, de quase dez mil quilômetros de extensão.

Bares mais autênticos 

Por essa razão (e também com um tantinho de nostalgia do War), que escolhi passar três dias em Vladivostok, vindo de Hong Kong, depois de uma rápida estada no Japão, na continuação de minha volta ao mundo etílico-gastronômica. Dali, embarquei rumo a Moscou numa aventura inesquecível de 25 dias pelo interior da Rússia, cruzando a taiga siberiana e as pradarias do Tartaristão em pleno inverno, enfrentando temperaturas médias de menos 20°C.

Mas pude descortinar paisagens deslumbrantes, cidades singulares e uma cultura em muitos aspectos como a nossa, principalmente no gosto pelo comer, beber e festejar. Em Novosibirsk, a capital da Sibéria, e Kazan, às margens do Rio Volga, conheci alguns dos bares mais autênticos e originais de toda a minha vida. E entendi que a vodca, ao contrário do que pensamos, não é o único motor da boemia russa. A seguir, um pouco do que vi nessa aventura pela Sibéria profunda, de metrópoles sob a neve, arenque cru, muita vodca e uma cerveja surpreendentemente boa.

Todos a bordo

Atravessar a Rússia pelos trens da Ferrovia Transiberiana é sonho de quase todo viajante. Mas não precisa ficar só no sonho. A fama de percurso difícil, só para iniciados na língua e na cultura russas, aos poucos se dilui, graças a substanciais melhorias nos serviços da Russian Railways, a empresa privada que toma conta de todas as ferrovias do país, desde 2004. Hoje já é possível comprar passagens pela internet, com o processo quase todo em inglês e registro eletrônico à prova de mal-entendidos. Para embarcar, basta mostrar o passaporte na porta do trem. Ainda assim, há um caminho de pedras a ser percorrido para que o sonho de cruzar a Sibéria não azede como arenque molhado.

Para começar, é preciso saber que há inúmeros tipos de trens que fazem os mesmos percursos. No clássico, entre Moscou e Vladivostok, os trens mais rápidos e com o melhor serviço (e por isso mesmo o mais recomendável para turistas que não falam russo) são os de número 1 e 2, conhecidos como Rossiya. O número 1 sai de Moscou rumo a Vladivostok todo dia ímpar, e o 2 faz o sentido contrário todo dia par. A passagem direta, percorrendo os 9.298km entre as duas cidades, sem escalas, leva sete dias.

Sem parar, não tem graça

Mas essa não é a melhor opção para um marinheiro de primeira viagem. Além de ser extremamente monótono (para muita gente, beirando o desesperador), atravessar a Rússia inteira sem paradas não tem graça. O barato, especialmente no inverno, é poder descer e passar alguns dias nas cidades do caminho, principalmente as da Sibéria. A opções são inúmeras. Ao todo, o trem para em mais de 20 cidades pelo caminho, e ao menos dez delas valem visita mais longa.

Escolhi três: Irkutsk, porta de entrada para o belíssimo Lago Baikal, que pode ser visitado em um dia; Novosibirsk, a capital da Sibéria, dona de um dos zoológicos mais espetaculares do mundo e do impressionante Museu da Ferrovia Transiberiana, que exibe vagões e locomotivas de todas as épocas; e Kazan, na antiga República do Tartaristão, esta já fora do trajeto clássico da Transiberiana.

Para conhecer essa cidade na beira do Rio Volga que mescla elementos da Rússia ortodoxa com a cultura islâmica e tem a maior e mais bela mesquita da Europa, peguei um desvio de algumas centenas de quilômetros na ferrovia. De Kazan, segui finalmente para Moscou e, posteriormente, para São Petersburgo, num trajeto que ficará para o próximo capítulo dessa série de reportagens. 

Compre os tíquetes antes

Apesar das melhorias do serviço, há uma dificuldade que persiste na Transiberiana: a Russian Railways não vende passagens com conexões. Para cada quebra no trajeto é preciso um bilhete diferente. Por isso, o mais recomendável é adquirir todas as pernas com antecedência via internet ou numa agência especializada, que oferece uma boa dose de tranquilidade aos turistas. Comprar passagens nas estações exige saber falar russo, ter pós-graduação em mímica ou dar a sorte suprema de encontrar um bilheteiro que fale inglês...

Atenção também à variação dos fusos horários. De Moscou a Vladivostok, ela é de sete horas. Para evitar confundir quem faz múltiplas paradas, o horário dentro dos trens é sempre o de Moscou. Melhor viajar com dois relógios, um marcando a hora na capital, e outro a das cidades que serão visitadas. Vale lembrar que os trens russos são mais pontuais que os ingleses. A precisão é notável, e um minuto pode significar o fim prematuro da viagem. Mesmo nos dias de hoje, a ideia de perder um trem na Sibéria não é nada agradável.. 

É preciso ser forte

Depois de um dia inteiro visitando monumentos militares, um antigo submarino soviético, algumas estátuas de Lênin e um parque de diversão com os brinquedos congelados, decidi dedicar minha primeira noite em Vladivostok e na Rússia para pôr em prática o sonho de conhecer os bares dessa mítica cidade. Alguém havia me contado sobre o Ozzy Bar, o botequim mais "selvagem" do lugar. Descobri que ficava a cinco quarteirões do hotel. Já eram cinco da tarde, a noite já tinha caído, ventava e nevava esparsamente. Mesmo assim, decidi ir andando.

Não foi uma boa ideia. No meio do caminho, a neve começou a engrossar e jogou a temperatura lá para quase 20°C negativos. Era minha primeira noite no inverno russo, e apesar do casaco poderoso, nem os sapatos nem as luvas eram os mais adequados. Neófito que era, sabia que arriscava uma pneumonia. Mas eu perseverei. Mesmo tremendo, consegui chegar. Agora, tudo o que queria estava ali, na minha frente: uma típica taberna russa, no subsolo dos fundos de um prédio público qualquer. Lá dentro, haveria de haver muita fumaça, gente virando vodca em átimos, comendo arenque cru e ouvindo rock pesado nas vitrolas, pensei.

'O que esse ET faz ali?'

Lá dentro, nem era assim tão assustador. Os cerca de 20 homens que se espalhavam pelo salão escuro eram até mais jovens do que eu, em média. Bebiam vodca, muita, e comiam arenque, mas não era cru. Eram canapés até bastante sofisticados, enroladinhos sobre pão preto. Além de outros acepipes muito palatáveis, como batatas com alecrim e bolinhas de carne de porco. Mas os pescoços que deglutiam e sacudiam ao balanço do rock que saía de uma poderosa jukebox logo se viraram, curiosos, em direção ao coroa que não falava russo nem sabia direito onde colocar o casaco, as luvas e a touca de lã.

A recepção não foi hostil, mas não propriamente amigável. O Ozzy não era um bar turístico. "O que estaria esse ET fazendo ali?", pensava eu que pensavam eles. Mas era minha primeira experiência numa taberna russa, era preciso ser forte. "English menu?". Não. Mas pensei rápido. Pedi duas vodcas. Uma para virar, outra para saborear. Não é bem o costume local (aqui as duas doses seriam viradas simultaneamente), mas impôs algum respeito. Pelo menos eu não era um ianque que bebericava com bico de passarinho.

Um sujeito que estava comemorando seu aniversário e já entortava a ponta da orelha esquerda se aproximou. Às perguntas ininteligíveis, respondi com a expressão mágica que já haviam me ensinado: "Não falo russo. Sou brasileiro". Deu certo. Os russos nos amam. Queriam saber de tudo. Da Dilma ao Neymar. Alguém citou Jorge Amado, veja você. Credite isso às raízes comunistas do velho escritor baiano, que teve todas as suas obras publicadas em russo, ainda nos tempos de União Soviética.

Lá pelas tantas, um deles pediu para ver meu passaporte. Me assustei. Mas era só curiosidade. Era militar e nunca vira um passaporte brasileiro. Mostrei. Perguntou pelo visto, que eu não tinha. Expliquei que nós, brasileiros, somos um dos poucos povos do mundo que não precisam de visto para entrar na Rússia. Ao homem, caiu-lhe o queixo. Além de tudo, éramos aliados! E desce vodca! E a noite foi passando no Ozzy Bar, meu primeiro bar na Rússia. A cada nova pergunta respondida, uma vodca virada.

Senti que não seria boa ideia ficar muito tempo por ali. Mas lá fora, a essa altura, já fazia menos 20°C. Não dava mais para voltar andando até o hotel. Discretamente, pedi ao barman que me chamasse um táxi. Tentei sair sem ser notado, mas fui flagrado. Protestos. Alguém me puxou pelo casaco. Me assustei de novo. Mas era só brincadeira. Bruta, russa, mas gentil.
Deixaram-me ir, sob aplausos e assovios. Não sem antes me fazerem virar mais duas.

Kazan: convivência entre cristãos e muçulmanos

Kazan não fica na Sibéria. Já fica na Rússia europeia, na margem leste do Rio Volga. Até o século 16, era a capital do Tartaristão, território independente de tradição muçulmana. Conquistada pelo czar Ivan, o Terrível, em 1552, toda a população tártara foi forçada a converter-se ao cristianismo ortodoxo russo.

A mesquita da cidade foi destruída e, em seu lugar, o czar construiu a atual Catedral da Anunciação. Mas hoje também, depois de séculos de intolerância religiosa, a Mesquita de Qol Sharif está de pé novamente. Foi reconstruída em 1996, em frente à catedral. O conjunto arquitetônico de ambas é símbolo da cidade. E ajudam a perpetuar a fama da bela Kazan, uma das cidades mais deslumbrantes da Rússia.

Cuba libre

Caminhar por suas s ruas, com o casario que remonta diferentes épocas e tendências arquitetônicas, políticas e religiosas, é uma experiência fantástica. Quase tão interessante quanto garimpar lembranças da era comunista. A cidade abriga, por exemplo, o interessante Museu da Cultura Soviética, que guarda objetos, roupas, brinquedos, discos, livros e filmes dos tempos de Cortina de Ferro.

Perto dali, na rua principal da cidade, uma foto de Havana sob sol escaldante atordoa quem passa apressado em meio à neve. É a porta de entrada do bar Cuba Libre - Cocina Revolucionaria, uma embaixada de Cuba em plena Rússia. A ideia, claro, é reviver os tempos de amizade entre Moscou e Havana. Claramente inspirado na Bodeguita del Medio, o Cuba Libre oferece uma inusitada combinação de pratos, bebidas e música latina, servidos por uma equipe que nunca colocou os pés na América nem fala palavra de espanhol. 

 

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