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Diário da Região

22/11/2015 - 00h00min

Entrevista

Criança precisa brincar

Entrevista

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Há duas décadas a educadora Renata Meirelles, ao lado do marido, David Reeks, viaja pelo Brasil visitando comunidades rurais, indígenas e quilombolas para retratar as brincadeiras das crianças. Enquanto Reeks filma, Renata fotografa e conversa com as pessoas. Dessa aventura surgiu o documentário "Território de Brincar". "O projeto é um trabalho de escuta, intercâmbio de saberes, registro e difusão da cultura infantil. O filme foi lançado em maio desse ano e já foi exibido em todas as regiões brasileiras", explica Renata. "Percorremos o Brasil com o pé na estrada e uma câmera nas mãos.

O projeto trabalha com o modo de olhar para a criança e seu jeito de brincar, focando no que há de mais belo e potente na infância", diz. Segundo a educadora, o documentário fez uma opção de traduzir as vertentes mais fortes da infância, em vez de permanecer discutindo e analisando os seus problemas e dificuldades. "Observar o brincar profundamente nos ensina não só sobre a infância, mas sobre o ser humano de maneira geral. No filme, estamos falando de todos nós por meio do brincar infantil, como se pudéssemos fazer um retrato humano através dessas brincadeiras que dizem respeito a arquétipos e a um inconsciente coletivo do homem", relata. 

Revista Bem-Estar - Você acha que as crianças estão brincando menos?

Renata Meirelles - Primeiramente, é preciso comunicar ao mundo que, ao contrário do que diz a maioria dos adultos, as crianças brincam, sim. Esse mantra do adulto de que "a criança de hoje em dia não sabe mais brincar" é um reflexo claro de que não sabemos mais olhar a criança. Em última instância, quanto mais acreditarmos que as crianças não brincam, mais teremos que ocupar seu tempo ocioso com serviços, cursos ou instituições, e consumir brinquedos e aparelhos eletrônicos. E isso nos leva a consolidar o fator de redução de tempo e espaços do brincar infantil. Quem vive cerceado de tempo livre não saberá usufruir dele.

Da mesma forma com o espaço. Isso, porém, não significa que crianças de grandes metrópoles não estejam tendo a chance de viver relações profundas com o uso de seu tempo, e que vivam apenas cerceadas de espaços significativos para o brincar. Os valores de cada família são definidores de espaços e tempos internos, que se sobressaem aos tempos e espaços reais. Quem oferece tempo semeia isso nas crianças, e essas, por sua vez, retribuem na mesma moeda. Ou seja, de modo geral, crianças que não estão recebendo uma carga intensa de propostas e deveres, sejam institucionais ou não, e usufruem da liberdade do ócio, tendem a viver tempos alongados e estão mais conectadas com seus próprios desejos e buscas pessoais. 

 

Renata Meirelles - 24112015 Renata Meirelles é educadora e há 19 anos vem viajando por todos os cantos do Brasil pesquisando, escrevendo e registrando a infância brasileira

Bem-Estar - Como é para você viajar pelo País e conhecer as diversas brincadeiras das crianças?

Renata - Desde 1996, vivo esse encontro com crianças das mais diversas regiões brasileiras, em um intenso intercâmbio de brinquedos e brincadeiras. Em 2000, conheci David Reeks e, juntos, criamos o projeto BIRA - Brincadeiras Infantis da Região Amazônica. Em 2001, partimos para a Amazônia e percorremos 16 comunidades indígenas e ribeirinhas do Amapá, Pará, Amazonas, Roraima e Acre. Com os registros do BIRA, produzimos diversos filmes de curta-metragem, premiados em vários festivais de cinema, e o livro "Giramundo", pela Editora Terceiro Nome, vencedor do Prêmio Jabuti em 2008. Em 2012, nasceu o Projeto Território do Brincar, no qual viajamos por 21 meses consecutivos, visitando nove estados brasileiros e nos aproximando ainda mais do cotidiano infantil.

Com essas experiências, estamos percebendo que as brincadeiras se repetem, como se existissem certos "temas" que precisam ser vividos pelas crianças, e a elas cabe tentar achar a melhor forma de experimentá-los. Brincar de casinha, usar arminhas, brincar com carrinhos e barcos, se esconder e ser achado, pular corda, amarelinha, jogos simbólicos, etc, representam um repertório que espelha a criança para além de regionalismos. São brincadeiras universais que representam a todos nós, independentemente da cultura que estamos inseridos.

Bem-Estar - Há muitas crianças brincando e inventando seus brinquedos?

Renata - O Brasil é um país da diversidade, das inúmeras possibilidades de se viver, e isso podemos sentir no brincar das crianças. Há milhares de crianças inventando as mais diversas formas do brincar. Crianças que constroem carrinhos, barquinhos, ou inventam formas de brincar com restos, sucatas e objetos da natureza. Criam casinhas, esconderijos, engenhocas, caçam insetos, calangos, tatu bolinhas, têm um imaginário rico, vasto, potente. E isso é possível de se ver em todos os contextos e classes sociais. Há formas diversificadas de fazer coisas semelhantes.

Um bom exemplo disso são os meninos das mais diversas regiões brincando com seus carrinhos. Algo óbvio, simples e de conhecimento geral de todos. Construídos pelos meninos, montados com peças industrializadas ou comprados prontos em lojas, o desejo por esses brinquedos é absolutamente intrínseco ao menino, muito mais do que às meninas. O gesto recorrente de empurrar, puxar ou dar vida aos carros, barcos, aviões, trens, etc. não é de uma região específica ou de uma época datada. Por isso, para além do carro em si, nossa opção é por mostrar o desejo coletivo do menino de ir, seguir, transitar.

Bem-Estar - O que acham dos brinquedos prontos?

Renata - O brinquedo pronto reflete o olhar de um adulto, de uma indústria, de um saber específico. Existem brinquedos incríveis que ampliam e potencializam o imaginário infantil, assim como existem brinquedos com restrições de uso e respostas limitadas, que estão muito aquém das capacidades infantis. Ter em casa apenas o pronto, o brinquedo industrializado, pode restringir o intenso diálogo com o mundo proposto pela própria criança.

 

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