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Diário da Região

22/03/2015 - 00h12min

Cidades criativas

Ana Carla Fonseca fala sobre inovação no mundo contemporâneo

Cidades criativas

Lézio Júnior Economista Ana Carla Fonseca
Economista Ana Carla Fonseca

Com o objetivo de oferecer soluções criativas para o desenvolvimento de cidades e negócios, Ana Carla Fonseca se tornou uma referência no assunto. O tema ainda é pouco explorado no Brasil, por isso ela viaja o mundo em busca de novos aprendizados, assim como compartilha os conhecimentos. Neste cenário, já foi para 30 países com o objetivo de ampliar horizontes e garimpar o que há de mais inspirador dentro de assuntos como economia criativa, cidades criativas, turismo, inteligência urbana, tendências socioeconômicas, empreendedorismo e sustentabilidade. 

Com este mesmo objetivo, ela desembarca em Rio Preto na próxima terça-feira para ministrar um bate-papo com o tema "Arte, Criatividade e Cidades - Transformando Contextos". No encontro, que acontece às 19h30, no teatro do Sesc, ela vai falar sobre como transformar nossas cidades em locais mais acolhedores, inovadores e inspiradores, assim como vai dar dicas de como estimular a criatividade de cada cidadão, para que a soma do que todos sabem se transforme em inteligência coletiva. 

Para discutir essas e outras questões, Ana Carla vai explicar o que é uma cidade criativa e qual é o processo pelo qual ela se reinventa a cada dia e a importância da cultura, das conexões e das inovações nesse contexto. Para isso, ela revela exemplos de cidades de diferentes tamanhos no Brasil e no mundo, trazendo casos e experiências de planejamento, arte pública, preservação patrimonial, turismo e muito mais. A entrada para participar do bate-papo é gratuita, mas é preciso retirar os ingressos gratuitos na central de atendimento com uma hora de antecedência. 

Vanessa Helena Machado, técnica de programação do Sesc, afirma que a palestra integra o projeto Ideias do Sesc, que realiza encontros mensais entre os artistas da cidade, curadores, críticos de arte e outros artistas convidados para discutir a arte contemporânea e sua interface com outras linguagens. 
"O grupo está em um momento de pensar a dinâmica da cidade como expressão da sociedade, e ao encontro deste propósito a convidada do mês de março é uma referência internacional quando o assunto é cidades criativas. 

Ana Carla Fonseca, nos últimos 15 anos, escreveu livros sobre economia criativa, contribuiu com projetos para empresas, governos e instituições, além de participar da publicação do relatório da ONU que avalia o impacto da criatividade e da inovação no desenvolvimento dos países. Com o tempo, sua atuação passou a envolver também a questão do espaço urbano e suas potencialidades no campo de criatividade. Tratam-se de locais onde há uma eficiente articulação entre atividades sociais e artísticas, o que possibilita uma eferverscência cultural que atrai e retém talentos - além, claro, de criar um ambiente propício ao seu desenvolvimento. 

Ana Carla defende ainda o envolvimento da comunidade com os espaços públicos, como forma de promover a diversidade e a convivência, gerando engajamento das pessoas com o território. Pensamos que esta é uma grande oportunidade de enriquecimento e aprofundamento das questões sobre o espaço público urbano enquanto cenário de possibilidades criativas para nosso grupo de artistas e demais interessados", explica Vanessa. Ana Carla é administradora pública, economista, mestre em administração, doutora em urbanismo e professora. O acúmulo de funções faz com que ela fale com facilidade e propriedade sobre os assuntos citados acima e seus desdobramentos. 

Além de liderar projetos em multinacionais por 15 anos na América Latina, em Londres e Milão, ela também é assessora para a ONU, consultora e conferencista em cinco línguas e países, como Argentina, Canadá, Chile, China, Colômbia, Cuba, Dinamarca, Equador, Espanha, Estados Unidos, Estônia, França, Holanda, Índia, Inglaterra, Itália, Jamaica, Jordânia, Letônia, Marrocos, México, Peru, Portugal, Ruanda, Rússia, Suíça, Taiwan e Uruguai. A especialista lançou livros como "Marketing Cultural e Financiamento da Cultura" (2002), "Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável" (Prêmio Jabuti 2007) e "Cidades Criativas" (primeiro livro brasileiro sobre o tema e finalista do Prêmio Jabuti 2013). 

Ela também concebeu e editou livros digitais globais, como "Economia Criativa como Estratégia de Desenvolvimento" (2008) e "Cidades Criativas - Perspectivas" (2009). Criou projetos de impacto em economia e cidades, a exemplo de Criaticidades e Sampa CriAtiva e foi consultora do Creative Economy Report (ONU), em 2008 e 2013. Ana ainda venceu o prêmio Claudia 2013, em negócios, e foi apontada pelo jornal El País (2013) como uma das oito personalidades brasileiras que impressionam o mundo. Em entrevista ao Diário da Região, ela falou um pouco sobre sua experiência e carreira. Leia a entrevista com Ana Carla. 
 

Diário da Região - Como surgiu o convite do Sesc para você vir fazer a palestra em Rio Preto?

Ana Carla Fonseca - A gente trabalha com palestras e projetos mais robustos, inclusive. Não costuma fazer com Sesc. É a primeira vez. Mas a gente tem muita visibilidade no mercado. Trabalha em diferentes países. Acredito que, por isso, o Sesc tenha se interessado. 
 
Diário - Você é referência internacional quando se fala em economia, cidades e negócios criativos. Quando e por que decidiu se especializar nesta área?

Ana Carla - Eu sou formada em economia. Eu me formei muito nova, com 20 anos, na FGV e depois na USP. Fiz as duas faculdades em paralelo. Na faculdade de economia, na verdade, uma das falhas e um dos entraves do desenvolvimento da sistemática é que a gente termina a faculdade sem saber que existem abordagens talvez mais diferenciadas da economia, como economia da cultura, do entretenimento, dos esportes, por exemplo. Agora, isso já começa a ser levado mais a sério como matérias letivas. Na época, a gente não tinha isso e estou falando do final dos anos 80. 

Eu sempre tive interesse em paralelos, mamãe tinha galeria de artes, eu sempre fiz cursos de escultura, de línguas, de esportes, enfim. De algum modo, eu sentia falta de tudo isso e entendi que em algum momento eu resolveria. No final da década de 80, era muito difícil vislumbrar esta abordagem mais vinculada à cultura e depois acabou evoluindo ou derivando para uma abordagem que no Brasil é mais conhecida como economia criativa. Trabalhei 15 anos com multinacionais e trabalhei fora do país, em países como Inglaterra e Itália, onde estes temas são muito mais desenvolvidos do que aqui, e travei um contato mais intenso com a economia da cultura criativa no exterior, por meio de livros e vivência. 

A economia criativa eclodiu no Reino Unido, e eu morava em Londes, no final da década 90. Em seguida, morando em Milão, eu segui e acompanhei os impactos econômicos do setores criativos, como moda, gastronomia, fotografia e design, de forma íntima. Aí resolvi pedir demissão, transferi minhas tarefas e responsabilidades para aqui e abri a Garimpo para lidar com as sistemáticas que são ponta de inovação e que no Brasil ainda não eram desenvolvidos. Escrevi o primeiro livro, chamado "Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável", que ganhou Prêmio Jabuti em 2007, que ajudou a dar visibilidade ao tema para especialistas e pesquisadores. 

E desde então, a gente vem trabalhando neste universo de forma muita acelerada por meio de consultoria, assessoria, palestras, livros, e dando sequência a essa abordagem no país como o nosso, onde a economia está ligada às bolsas de investimento, taxas de juros, ou seja, mais financeiro. Hoje ainda é, mas há 10 ou 15 anos era pior. Decidimos falar de economia sem entender ela como algo mais duro, como apenas aplicações financeiras. Falar de aspectos mais humanos e de uma forma mais arejada. Principalmente porque a economia é uma ciência humana originada da filosofia. E para fazer com que as pessoas se sentissem mais próxima da temática, eu cheguei a conclusão que era por meio da cidade. 

Todo mundo se sente como morador de um espaço urbano, ou grande parte da população. E para falar sobre cidade eu fui fazer doutorado em urbanismo e a minha tese foi em cidade criativa, que foi a primeira sobre o tema no Brasil. Estas atividades todas acabaram se complementado e com isso tudo a gente trabalha muito na Garimpo. Hoje, na verdade, não existe especificamente um mercado sobre isso. A gente está fazendo um mercado. Como tudo é muito novo, a gente acaba tateando os caminhos, com livros editados pela Garimpo, por exemplo, que são obras que a gente edita e coordena para dar uma sistematização do conceito e fazer com que esta agenda ande, avance. 

Nossa grande preocupação é lidar com um público destinto como governo, empresas, cidade cível, Sesc e Sebrae. Mas volta e meia a gente recebe solicitações de estágio e pessoas curiosas em saber como entrar neste mercado. É bom ver gente interessada. Cada um vem trazendo contribuições para esta trilha. Quanto mais tijolinhos, mais a gente abre caminhos para os outros. Isso movimenta e instiga cada vez mais. 
 
Diário - Você acumula várias funções. É administradora pública, economista, mestre em administração e doutora em urbanismo?

Ana Carla - Isso mesmo, e tem que ser. Para você ter uma ideia, quando eu trabalhava na Unilever, por exemplo, tinha um ritmo de trabalho intenso e puxado porque lidava com projetos internacionais e de inovação. O livro que escrevi, "Marketing Cultural e Financiamento da Cultura", que virou referência no Brasil, por exemplo, eu produzi da meia-noite às 6 horas da manhã. Hoje, a gente acaba participando também pela Garimpo, eu ou meu sócio, de vários conselhos, instituições, que fazemos com maior carinho. São coisas que se somam. Pelo ponto de vista pessoal é um desafio, mas dá para conciliar tudo, trazer novos ingredientes para receitas e desafios para atender de fato os clientes e parceiros, e criar possibilidades. 
 
Diário - Você organizou o livro "Cidades Criativas - Perspectivas", reunindo 18 autores de 13 países com diferentes visões sobre como tornar nossas cidades lugares melhores para se viver. Como foi essa experiência? O que mais tirou de mais positivo?

Ana Carla - Ele é um irmão caçula de um outro livro que a gente tinha organizado com uma lógica muito parecida, o "Economia Criativa como Estratégia de Desenvolvimento". Mas esse segundo foi um desafio maior. A minha ideia foi trazer um pouco de sistematização para a proposta da economia criativa. Já que a gente ouvia muito falar dela sob um olhar de países desenvolvidos, como Espanha e Reino Unido, e não tinha um olhar de países em desenvolvimento. E dá para entender isto, porque a economia criativa surge numa lógica de países mais preocupados com inovação. 

Mas, de qualquer forma, a grande dúvida era saber se a lógica era a mesma, se a gente conseguiria desenvolver uma agenda específica, pensando só não em crescimento, mas em sustentabilidade e em desenvolvimento do país. Eu tinha para mim que sim, mas queria saber se estava me baseando sozinha. Pelas minha atividades paralelas, eu conhecia muita gente de fora e compartilhei essa minha inquietação e propus que a gente desenvolvesse um livro voluntário e gratuito com esse conjunto de colegas de países de abrangia Índia, Jamaica, China, México, Argentina, entre outros. 

Enfim, um conjunto diversificado de pessoas cuja opinião eu valorizava muito e para que dissesse se a economia criativa podia ser uma estratégia de desenvolvimento e de que forma poderia ser feito isso. Todo mundo adotou a ideia e cada um enviou seu texto. Foi um trabalho colaborativo muito importante que trouxe mais estruturação e permitiu um debate que de outra forma poderia ser muito artificial. 
 
Diário - No Sesc você vai participar do bate-papo "Arte, Criatividade e Cidades - Transformando Contextos". O que pretende com esses encontros? Alertar e orientar?

Ana Carla - A gente recebeu o convite por parte do Sesc para trazer algo que fosse mais adequedo, claro, para a cidade. Rio Preto é uma cidade que não conheço com profundidade, mas fui várias vezes, tenho amigos e colegas, mas nunca morei. Então, a ideia é levar alguns conceitos, fazer com que as pessoas identifiquem alguns termos muitos charmosos e ilustrá-los na prática por meios de fatos e casos concretos. 

A ideia de fato é primeiro propiciar uma convergência de olhares, mesmo que algumas pessoas possam discordar e ter uma base para criticar, e a partir disso inspirar novas possibilidades e aplicar esses conceitos no contexto de Rio Preto, trazendo exemplos de diversos pontos do mundo, como orçamentos pequenos e grandes, com dificuldade mais variadas, e naturalmente inspirar ou atiçar as pessoas a trazer aquilo para a própria realidade. O objetivo é deixar uma sementinha de inspiração para que cada um repense o próprio contexto. 
 
Diário - De uma forma prática, como você definiria a economia criativa dentro de uma cidade?

Ana Carla - A economia criativa da forma como a gente trabalha é o reconhecimento de que a gente está num momento econômico mundial no qual as coisas estão muito parecidas, como produtos e serviços. Você vai ao mercado, pega duas etiquetas diferentes de produto e as coisas são muito próximas, o que muda é cor, preço, sabor ou marca. É o reconhecimento de quando você está insatisfeito com o celular ou cartão de crédito e você invariavelmente muda quando tem uma promoção. 

Ou seja, os produtos e serviços são padronizados e as informações circulam de uma forma alucinadamente rápida no mundo, devido à globalização e às mídias digitais, e faz produtos e serviços cadas vez mais parecidos em todas as partes do planeta. Isso exige que os empreendedores e empresários adotem uma de duas estradas. Uma delas é brigar em cima de preço, em que seus produtos e serviços, sendo tão pouco diferenciados, consigam o nível de preço tão baixo que façam com que as pessoas fiquem tentadas a comprar, que é caminho negativo no ponto de vista de resultados. 

Ou a alternativa é brigar em cima de diferenciação e inovação, e para isso precisa investir na criatividade das pessoas e na inovação, procedendo dentro do mercado que vive. Então, é o reconhecimento necessário para criar um paradigma econômico dentro de um mundo que mudou muito, em especial nas últimas duas décadas. Sendo assim, você precisa de um novo contexto, e isso precisa de uma nova política pública, orientado para a valorização da criatividade, e uma nova política de educação para manter acesa essa criatividade principalmente na formação técnica. 

Você precisa fazer com que as pessoas percebam esse novo momento de mundo, incentivar o empreendedorismo e formar um ecossistema mais propício à criatividade, porque quando você mora num local mais propício, você tem novas cores e tons para fazer diferentes figuras, e se tiver sempre a mesma paleta tende a fazer sempre o mais do mesmo. Quando você tem diferentes estímulos, tem maiores possibilidades de criar coisas novas, e isso é o que a cidade criativa acaba oferecendo. Uma temática que eles pediram para incluir na palestra é a de ver a cultura como ampliação de horizontes, informação, raciocínio crítico, análise e comparações. 

Então, como a cultura pode agregar mais a esse novo repertório para conseguir fazer isso de forma perfeita? A ideia é mostrar exemplos pontuais de empreendedores que transformam problemas em soluções, tiveram grandes sacadas a partir do nada, até cidades que estão se reinventando, pequenas e grandes. Rio Preto é uma cidade metropolitana já. Porque além de ser uma potência, tem cidades da região que acabam mirando nela para conseguir trilhar seu caminho. 
 
Diário - E qual é a importância de discutir o assunto? Qual é sua expectativa com a palestra em Rio Preto?

Ana Carla - Uma palestra tem ação limitada. Mas você não consegue pensar num novo método se não tiver informação. Uma palestra assim pode trabalhar na atenção e no interesse, e atiçar os desejos para que alguma coisa seja feita, que cada pessoa traga para seu contexto e implemente isto de forma concreta. 

Serviço

"Arte, Criatividade e Cidades - Transformando Contextos", com Ana Carla Fonseca. Terça-feira, às 19h30, no teatro do Sesc. Gratuito. Informações: (17) 3216-9300

 

 


 

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