X
X

Diário da Região

28/08/2016 - 00h00min

Comportamento

Como fazer a relação durar

Comportamento

Stock Images/Divulgação NULL
NULL

No livro E Por Falar em Amor (ed. Rocco), de 1985, a escritora e jornalista ítalo-brasileira Marina Colasanti já dava uma ideia de como os novos tempos impactariam nos relacionamentos. “Pertencemos à geração do descartável, desinventamos o duradouro”, escreveu ela. 

Hoje em dia, a autora continua afirmando que as relações interpessoais estão em constante transformação. Queremos respostas, mas não há tantas respostas. “O que eu posso dizer é que o futuro amoroso e de amizade ficou parecendo mais fácil. Ficou parecendo mais fácil encontrar outras pessoas, ficou parecendo que 'amanhã a gente dá um jeito'. As relações se estabelecem num piscar de olhos, mas porque é tão fácil fazer, também é mais fácil desfazer.” 

No passado, conta, os amigos eram poucos, e havia esforço para a manutenção dos vínculos. Nos dias de hoje, a abundância dos contatos digitais cria a ilusão de que temos muitos amigos, e que é fácil fazer novos. Se um relacionamento começa a dar errado, esquentar a cabeça para quê? “Nós somos hoje uma cultura de substituição. Antes o dono do Fusca ficava orgulhoso porque mantinha o carro por muitos anos. Hoje, trocamos de celular, de carro, de roupas, jogamos o armário inteiro fora a cada estação. Toda a embocadura social conduz à troca e não à permanência”, argumenta.

Além da sensação de que nossos afetos podem ser substituídos, Marina chama atenção para uma questão de formação que atrapalha a estabilidade das relações. De acordo com os psicólogos, psicanalistas e outros estudiosos do comportamento humano que ela entrevistou e estudou, não fomos ensinados a negociar: “Os teóricos dizem que a minha geração cometeu um erro não ensinando os filhos a negociar, dando tudo sem que fosse necessária uma contrapartida. A minha geração foi educada negociando, o que levava essa troca para a vida, para as relações: cedo aqui e ganho ali. Não educamos os filhos para isso, e eles chegaram à vida adulta achando que tudo lhes era devido. Se não é como quero, então não serve”, resume. 

Querer encontrar alguém que se encaixe perfeitamente em um modelo ideal é cair numa armadilha, alerta Marina, porque os desejos não são estáveis, eles se modificam. “É complicado pretender que uma pessoa satisfaça para sempre seus desejos se eles mudam.”

Amor incondicional

Quem gosta de estabilidade nos relacionamentos tem de investir no amor incondicional pois, assim, não importa o que aconteça, a pessoa vai continuar amando. Mas isso é raro nos dias de hoje. Algumas vezes, é preciso preservar o amor próprio e romper mesmo amando. 

“O mais confortável é colocar o foco no amor por si e não no amor do outro. Amar esperando reciprocidade acaba gerando expectativas nem sempre realistas, pois a idealização pode aparecer e, com ela, as frustrações, decepções e sensação de insegurança”, diz a psicóloga Kátia Ricardi de Abreu. 

Quando colocamos no outro a responsabilidade de responder ao sentimento da forma como idealizamos, estamos gerando conflito interno e externo. “Toda relação é arriscada. A intimidade entre as pessoas, em qualquer papel, é a forma mais arriscada e mais compensadora de relacionamento, como dizia Eric Berne (médico e psiquiatra nascido no Canadá)”, diz. 

Se passarmos a nos proteger deste risco, vamos encontrar outro tipo de problema pela frente: a solidão, a escassez de carinho e possivelmente algumas doenças psicossomáticas. “Garantir o amor ágape, aquele que não faz barganhas, que existe e não cobra, não julga, não condena, é uma forma de se sentir seguro em qualquer relacionamento”, complementa.

Interesses momentâneos

Os seres humanos costumam estabelecer alguns nortes na vida: fama, dinheiro, trabalho. “Substituímos os deuses”, diz a psicóloga Karina Younan. Nesse panorama, as relações são mais frívolas, movidas por interesses momentâneos, desprovidas do vínculo profundo que envolve tempo, dedicação, cuidados prolongados. 

A questão é como desenvolver as virtudes que precisamos desenvolver para fugir desse mundo volátil, mergulhar profundamente nas relações e apertar os laços que nos unem. Como? “Estabelecendo relações duradouras, com entrega, intimidade, generosidade e disposição”, sugere Karina. 

“Os relacionamentos estão cada vez mais voláteis porque se apoiam em banalidade, superficialidade, comunicação virtual em excesso e, principalmente, no medo. Como as pessoas não estão abertas a se conhecerem, apoiam-se no outro para se sentirem completas”, explica a psicóloga Kátia Ricardi de Abreu. 

Este apoio no outro, que recusa o desenvolvimento da autonomia e da consciência das próprias potencialidades, acaba levando ao medo de perder o outro. E por medo de perder, acaba-se perdendo.

Relacionamentos não são inseguros, são arriscados. Pessoas seguras não têm medo de arriscar, porque se não der certo, elas continuarão inteiras. “No caso do trabalho, a pessoa tem empregabilidade, não emprego. O emprego pode deixar de existir, mas a empregabilidade é dela e ela vai encontrar outro emprego”, explica. 

Amizade não acaba nunca. O que acaba é a identificação de pontos comuns nos quais a amizade se apoiava. A vida segue com outras pessoas que possuem identificações atualizadas. Amizade volátil está fundamentada no interesse. Ocorre que a pessoa que investe de forma superficial em seus relacionamentos o faz por investir assim também em si - e isso vai refletir em todos os seus papéis. “A estabilidade nos relacionamentos pode ser mantida com um investimento em si de forma profunda a ponto de amar mesmo quando as condições não são favoráveis, de insistir, de alinhar a comunicação e buscar alternativas de entendimento.”

a o psicoterapeuta Renato Dias Martino, escritor e professor universitário, o narcisista é aquele que não tolera conviver com incertezas e as relações são naturalmente incertas, pois dependem de duas partes distintas, duas almas independentes, dois corpos que desejam coisas diferentes. “Portanto, o sujeito se envolve de maneira superficial pois assim se solta com muita facilidade frente a primeira dificuldade que ocorra. Por mais que exista um mundo que funcione deste modo, ainda assim, quando o que buscamos são vínculos saudáveis e duradouros (mesmo que sejam raros), não nos convenceremos com superficialidades, mesmo que pareçam atraentes e prazerosas”, aposta.

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha? Clique Aqui!
É assinante mais quer redefinir sua senha? Clique Aqui!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso