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Diário da Região

03/05/2016 - 14h42min

Entrevista

Artesanal

Entrevista

Divulgação O designer Sérgio J. Matos se destaca pela criação de peças artesanais com características regionais do Nordeste
O designer Sérgio J. Matos se destaca pela criação de peças artesanais com características regionais do Nordeste

Colheres de pau que mexem a fervura da culinária junina nordestina são a matéria-prima da cadeira Bodocongó. A arte do feito à mão toma assento na cadeira Trancelim. A explosão das cores, o gingado dos fios, a riqueza dos detalhes que ondulam entre mitos e a força da trama artesanal criam a cadeira Cobra Coral. A inspiração colhida na atmosfera dos festejos juninos, na regionalidade dos arraiais do Nordeste que celebram a terra, a fé, o fogo e o alimento formam a poltrona Balão. 

As descrições acima são dos produtos assinados por Sérgio J. Matos, designer mato-grossense que conquistou o mundo com produtos que se diferenciam pelos fios, tramas, formas e cores. Todas suas peças esbanjam regionalismo do Nordeste, característica em alta e que norteia o trabalho do profissional radicado em Campina Grande, na Paraíba. Segundo ele, saberes e ofícios artesanais atravessam gerações, contrastam com o tecnológico e expõem originalidade, tornando verdadeiros tesouros. 

Matos bateu um papo com a reportagem e falou sobre sua vida e carreira. Suas maiores inspirações são a cultura, as histórias de vida, as cores e as texturas da nossa brasilidade. Além de criar peças, ele é consultor. Uma das ações coordenadas por ele é o Projeto Brasil Original Artesanato Amazonas, cuja a inspiração no ecossistema soma-se à cultura ancestral de indígenas e ribeirinhos. Ele desenvolveu junto aos artesãos novos produtos e gerou mais valor para as peças. 

V&A - Quando este universo do desenvolvimento de produtos de mobiliário e decoração surgiu na sua vida?

Sérgio J. Matos - Eu estudava propaganda e marketing e trabalhava com a parte de criação e desenvolvimento de peças. No entanto, não me agradava porque eu estava trabalhando mais como vendedor de objetos e o que eu gostava era fazer criação de produtos e embalagens. Fui buscar outro curso, que me agradava mais e encontrei o que queria no desenho industrial, na Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba. O mobiliário entrou na minha vida por meio de um estágio em empresa de móveis, em que comecei a produzir as peças. A primeira vez que participei de uma feira foi do Salão Satélite e isso fez eu produzir e depois criar o meu estúdio, que foi lançado em 2010. A primeira peça fora da universidade foi criada em 2007, quando eu ganhei um prêmio de design do Sebrae com meu banco Yanomami.

V&A - Você um é apaixonado pela cultura brasileira, assinando peças de forte identidade. Quais são suas maiores influências?

Matos - De início foi o material que levou a ter essa particularidade. Eu consegui um fornecedor de cordas redes de dormir no Nordeste e meu trabalho começou a ser conhecido pela utilização desta corda. Mas, a parte cultural sempre me chamou muito a atenção. O Nordeste tem tanta coisa bonita em volta. No entanto, as pessoas valorizam mais as coisas que vem de fora, do exterior, e isso me intrigava. A cultura do Nordeste é a mais tradicional e a mais forte do Brasil. Aos poucos fui criando  as peças de acordo com a cultural do Nordeste, com o regional, com identidade indígena e hoje as pessoas nos procuram por isso. 

V&A - Apesar de ser mato-grossense, foi na Paraíba que você criou raízes para criação e comercialização de suas peças. O que tanto te atraiu na Paraíba?

Matos - São 15 anos no Estado. Foi nele que fiz muitas boas parcerias com pequenos grupos de artesões e hoje são eles que produzem as peças do estúdio. Optei em ficar pela qualidade de vida. Campina Grande não é uma cidade grande e não traz tantas preocupações. Gosto desta calmaria. 

V&A - Você também desenvolve projetos para a indústria moveleira e de decoração e presta consultorias em design e gestão de design, além de ministrar workshops com foco no design de produto. Você gosta de compartilhar suas experiências?

Matos - Eu era professor até dois anos atrás na Federal da Paraíba. Gosto de trocar informações e incentivar este olhar para o local. Muitas pessoas não notam a beleza que têm em volta. Incentivo os alunos, visito feiras, tento extrair novos produtos nas minhas andanças e gosto de aprender também, principalmente com a consultoria em comunidade indígenas. Eu levo, mas aprendo muito. 

V&A - Você gosta de desenvolver projetos exclusivos para clientes, com peças únicas ou em produção de série limitada, com fios e tramas diferenciadas e ousadas. Este é seu diferencial?

Matos - Acredito que sim. Quem procura produtos do estúdio ou uma peça única, vem por causa da identidade. Alguns dizem assim: quero que seja feito com esta corda, que seja feita bem colorido como suas peças, sempre levando em consideração a parte regional. Neste cenário, tento fazer algo único para não ficar parecido com tudo o que já existe no mercado e o Nordeste me ajudou muito com tudo isso. 

V&A - Neste cenário, como você se autodefine e como define seu trabalho?

Matos - Bom, eu não sei. Mas, uma palavra para definir o meu trabalho é o local. Sempre que vou desenvolver um produto, eu penso no entorno onde está peça vai ser produzida, com o tipo de técnica, o material, a mão de obra, do grupo e o tema do lugar.

V&A - Atualmente quais matérias-primas você tem utilizado em suas peças? Fibras naturais, como os fios de rede, o algodão colorido e nylon?

Matos - Nos produtos do estúdio nós estamos usando mais cordas náuticas. Nós utilizamos muito o algodão colorido, mas o problema é que ele é sazonal. Tem ano que não dá e hoje faço estoque. Já nos produtos do Projeto Brasil Original Artesanato Amazonas, nós usamos só fibra natural.

V&A - Suas peças também esbanjam regionalismo. Neste cenário, qual é a sua relação com as mulheres artesãs ou as de comunidades indígenas? Existe uma parceria social?

Matos - São dois tipos de relações. Tem o artesão que trabalha no estúdio e produz. No início, ele trabalhava no grupo dele e hoje atua no estúdio, que conta hoje com seis pessoas fixas. Nós também terceirizamos algumas peças fora, como em Olinda, por exemplo, que tem um pequeno grupo que faz cestas e fruteiras. E a gente tem também a parte da consultoria, em que eu apenas desenvolvo os produtos que são da comunidade, em que as artesãs comercializam da forma que elas querem. 

V&A - Existe alguma peça que goste mais? Qual é a mais famosa, na sua opinião? 

Matos - O banco Carambola é o que rendeu mais divulgação e prêmios no Brasil, Itália e Alemanha. É um cartão de visita. O catálogo, hoje, conta com 55 peças, mas muitas coisas já tiramos de linha. Outras peças são produzidas por indústria e não estão contabilizadas, fora as peças feitas para as comunidades. 

V&A - Seu trabalho conquistou reconhecimento nacional e internacional, incluindo premiações por trabalho específico. Como é levar o nome do Brasil para fora do País? Ser um representante do Brasil lá fora?

Matos - É algo que deu muito trabalho, não foi sorte. Encarar participação em feiras fora do Brasil é complicado. Não tem ajuda nenhuma do governo. É só você e sua raça. Desde 2010, aconteceu realmente muita coisa e estou sempre buscando crescer e mostrar meu trabalho em outros lugares. Tenho uma grande equipe que ajudou neste resultado. Sou privilegiado por ter acesso a tantas comunidades artesãs que enriqueceram meus trabalhos. As pessoas compram minhas peças porque sabem que elas têm uma história. 

V&A - Quais são seus planos para o restante de 2016? E os planos futuros?

Matos - Estou abrindo um show room no estúdio. A ideia é cada vez mais ter contato com o cliente final. Criamos um site para comercializar as peças. Outro plano é levar um estúdio para São Paulo. 

 

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