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Diário da Região

12/09/2016 - 19h07min

Turismo

ARAGUAIA MUTANTE

Turismo

Agência O Globo Pôr do sol com bote a motor descendo o rio é uma imagem típica
Pôr do sol com bote a motor descendo o rio é uma imagem típica

Seu Carrijo tinha 11 anos quando ia com o pai para o garimpo, atividade que exigia mergulhos com escafandro no Rio Araguaia, a 30 metros de profundidade. Os anos se passaram, o nível da água baixou, as pedras preciosas escassearam, mas o rio nunca o deixou. Hoje, aos 60 anos, Valdemar Carrijo acompanha grupos de viajantes que seguem Araguaia abaixo, em expedições de quatro dias.
Com mais de 2.000 quilômetros, esse curso d'água do oeste goiano é protagonista de um roteiro turístico conhecido como Vale do Araguaia. Por ali, o rio é mutante e abriga experiências como corredeiras em cânions estreitos (em Baliza), praias urbanas de rio e águas termais (Aragarças), acampamentos de charme (Aruanã) e uma cidade exclusiva para prática da pesca esportiva (Luiz Alves), num dos rios já considerado dos mais piscosos do mundo.

E a cada curva sinuosa, nunca se sabe o que vem pela frente. Faixas de areia que brotam do fundo do rio, dando origem a praias minúsculas; cachoeiras a desaguar; cascatas, naturalmente quentes, que escorrem por veios rochosos; trilhas curtas que levam a poços que viram piscinas naturais; e corredeiras vencidas numa espécie de rafting para principiantes. Em Goiás, o Araguaia é uma espécie de divisor natural entre o Cerrado, o Pantanal e a vegetação amazônica, passando por estados como Mato Grosso, Tocantins e Pará. A viagem pelo rio, que na cheia chega a se alargar até 60 quilômetros, começa em Mineiros, no extremo sudoeste de Goiás, a 420 quilômetros da capital, Goiânia. Ali ele nasce: na Reserva Particular do Patrimônio Natural Nascentes do Rio Araguaia.

Localizada no interior da Fazenda Jacuba, a principal nascente pode ser visitada a partir de uma trilha curta por mata fechada que dá acesso a um poço escondido, de onde saem águas de correnteza apressada, em direção ao norte de Goiás. A visita faz parte do roteiro de quem vai ao Parque Nacional das Emas, Patrimônio Mundial da Unesco, onde se veem animais como ema, veado-campeiro e lobo-guará. A reserva funciona como um corredor natural que conecta o Cerrado e a Amazônia. Assim, a fauna se deixa ser vista, facilmente. Em área urbana de Mineiros, não é raro ver casais de araras sobrevoando nossas cabeças.

A 220 quilômetros ao norte, em Baliza, o viajante percebe melhor por que aquele rio é orgulho goiano. O que era uma nascente discreta se transforma num longo corredor estreito que rasga rochas talhadas, dando origem a um cânion natural, em meio ao Cerrado. Nada por ali lembra as praias urbanas de outras áreas do Araguaia. Com acesso pela Barra do Ribeirãozinho, a 15 quilômetros de Ribeirãozinho, no Mato Grosso, limite com Goiás, essa versão do Alto Araguaia pode ser explorada em expedições turísticas que descem 70 quilômetros, rio abaixo. De julho a outubro, na época da vazão, o Jangadão Ecológico reúne, por quatro dias, visitantes que não se contentam com as facilidades ribeirinhas de outras paragens do Araguaia e acampam ali, em cenários pouco explorados.

Em funcionamento desde 2008, a experiência reúne 25 botes, acompanhados de canoas para travessias. As responsabilidades do turista são remar, transportar bens pessoais e armar sua barraca. De resto, pode deixar que o Araguaia e a equipe de apoio se encarregam, inclusive da refeição preparada ali, na beira do rio. "É viagem para quem está disposto a remar todo o dia e viver em meio à natureza", descreve o organizador Nélio Silva Carrijo, sobrinho de Valdemar, que vem de uma família criada na beira do rio e que sempre se encantou com o mistério do Araguaia. Um luxo ter aquele rio na porta de casa e, já nas primeiras horas do dia, ser praticamente o único a vê-lo seguir viagem, rumo ao Tocantins. Definitivamente, tem muito mais Araguaia do que se pode imaginar.

Prainhas, cascatas e trilhas

Não muito longe da região dos cânions, a uns 60 quilômetros deles, a calmaria dá lugar a um agito que nem sempre agrada a quem procura cenários inexplorados. Localizada no limite com Barra do Garças, no Mato Grosso, Aragarças é endereço das únicas praias urbanas do Araguaia, na margem direita do rio. Erguida como povoado de garimpeiros de diamantes e ponto estratégico para a passagem de soldados durante a Guerra do Paraguai, a 420 quilômetros de Goiânia, a cidade se orgulha da bem estruturada avenida beira-rio com bares e restaurantes, que têm mesas e cadeiras fincadas nas águas da praia Quarto Crescente.

O caos típico de destinos fronteiriços, embalado pela música de qualidade duvidosa, contudo, desagrada a quem busca tranquilidade. Mas a 22 quilômetros dali o Araguaia volta a assumir seu ritmo natural (e sereno). A região de Aragarças tem se destacado por suas propriedades medicinais, como o Complexo Ecothermal Água Santa, onde uma mina de água quente termal abastece as banheiras dos chalés e o Poço do Tomás, uma piscina natural a temperatura de 35 a 40 graus. O local abriga ainda acesso exclusivo para uma das praias isoladas do Araguaia, a pouco mais de 100 metros da sede da fazenda que, informa o Iphan, fora uma antiga área de disputa indígena, devido à fonte termal "de poderes curativos e rejuvenescedores".

Não é raro avistar, pela manhã, botos cor-de-rosa nesse trecho mais estreito de rio. Se Aragarças é o centro nervoso do Araguaia, Aruanã é o coração. Principal porta de entrada da região, a cidade a 314 quilômetros da capital é um dos mais bem estruturados destinos ribeirinhos do oeste goiano, onde a população de 22 mil habitantes vê chegar 300 mil visitantes só em julho. Goiano é um brasileiro muito apegado às raízes e talvez por isso em Aruanã não dê para escapar de uma das experiências mais tradicionais do estado. Se Goiás não deu sorte de contar com praias, eles trataram de inventar uma. Uma, não. Muitas.

É na temporada de vazão que acampamentos são montados na beira do rio, sobre bancos de areia que surgem com o nível mais baixo das águas. Subindo o Araguaia, os veranistas encontram as opções mais populares de acampamentos. Conhecidos como ranchos, os quartos sob estrutura de palha contam com camas, banheiro e alguns até com ar-condicionado. "Tudo depende da baixa do rio. Não existe local fixo para acampamento de uma temporada para outra", explica Bibiane Venâncio de Paiva Correa, secretária de Turismo da cidade. De agosto a outubro, fora da época das férias, mas com o rio ainda baixo, a região fica por conta da pesca. E o tempo todo é possível alugar canoas para passeios e praticar esportes náuticos, na movimentada Praia do Cavalo, a 1,5 quilômetro do porto da cidade.

É em Aruanã também que deságua o Vermelho - o rio de águas mansas sobre o qual a poetisa Cora Coralina escrevera poemas inspiradores sobre sua Casa Velha da Ponte, em Goiás Velho, onde ele nasce. Aliás, o agito de motos aquáticas e barcos que congestionam o Araguaia dá lugar a outros ritmos no Rio Vermelho, onde as praias são tranquilas áreas de refúgio. No Recanto do Pescador, restaurante na margem esquerda do Rio Vermelho, a 5 quilômetros de Aruanã, funciona assim: você escolhe uma das porções de peixes, em um cardápio que inclui opções como costela ou filé de tilápia, caranha, barbado, piau, filhote e pintado (de R$ 25 a R$ 40), e vai até a beira do rio, enquanto espera as iguarias chegarem à mesa. Aliás, prepare-se para ter o rio como principal via de acesso aos atrativos da região.

A diária de um barqueiro exclusivo para até quatro pessoas (ou duas para quem sai para pescar) custa R$ 250 e vai das 7h às 17h. Os valores para saídas avulsas, também para quatro passageiros, variam de R$ 40 (até a Praia do Cavalo) a R$ 120 (para acampamentos mais distantes). Para refeições em terra firme, não perca o Panelinha Vale, concorrido restaurante de Aruanã, conhecido pelos pratos servidos na panela que vai para a mesa, com opções de arroz e ingredientes como carne de sol, linguiça de pernil, camarão, pequi, guariroba e manteiga de garrafa (a partir de R$ 39,90 para duas pessoas).

Assim como o curso do rio, as opções de hospedagem também são variáveis, e quanto mais você descer o Araguaia, maiores serão as chances de encontrar praias isoladas com acampamentos de charme. Naquelas águas, luxo pode significar tendas com ar-condicionado, área social decorada com peças artesanais e jardins montados no interior de velhas canoas de madeira. Mais? Cozinheiro particular e trilha sonora que vai do jazz ao indie rock (um alento para um lugar que às vezes exagera nos shows da praça, na altíssima temporada de julho).

Esse é o clima ribeirinho no Acampamento de Charme Lua Cheia, onde o proprietário Ricardo Trick oferece um serviço exclusivo de quem carrega, no currículo, a experiência de organizador de edições dos festivais gastronômico e de cerveja artesanal de Pirenópolis; e o festival de jazz da capital. Uma vez em terra firme, não deixe de visitar parte da Aldeia dos Carajás, grupo indígena das margens do Rio Araguaia que mantém uma casinha com objetos à venda, no centro de Aruanã.

"Aqui não é uma loja comercial, é um projeto de resgate da nossa cultura", avisa Raul, cacique de 60 anos e voz mansa que cuida da comercialização das peças. Hoje, segundo dados da Funasa, são 3.198 índios carajás no país, dos quais 210 estão em Aruanã. Alguns deles ainda vivem da produção de cestaria, artesanato em madeira e das bonecas ritxòkò. Feito de argila e pintado com grafismo, esse tradicional brinquedo carajá é considerado Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Iphan.

Hotel e pesca num pacote só

Por conta da alta concentração de peixes, o Araguaia volta e meia entra nas listas de rios mais piscosos do mundo. A extensa lista de espécies inclui matrinxã, pacu, piau e traíra, além do pirarucu (cujo pesca é proibida) e a corvina, que traz uma ou mais pedrinhas na cabeça, muito usadas em adornos, como cordões. Ainda entre as espécies, estão peixes de couro como filhote, cachara, barbado, surubim chicote, jaú, bico de pato e mandi. São tantos que o Araguaia conta até com um destino preparado, exclusivamente, para praticantes da pesca esportiva.

A 530 quilômetros de Goiânia, Luiz Alves é o distrito de São Miguel do Araguaia que faz turismo com varas, linhas e molinetes. Ali o rio apresenta alguns de seus melhores pontos de pesca. A temporada vai dos meses de março a outubro. Ou seja, fora da época da piracema, que vai de novembro a fevereiro. Tudo naquele trecho gira em torno da pesca. A começar pelas opções de hospedagem, que vão desde os tradicionais acampamentos na beira do rio até os barcos-hotéis, que fazem longos roteiros, Araguaia adentro.

Luiz Alves fez do rio seu melhor negócio e, durante a temporada de pesca, conta com dez opções de hotéis flutuantes. Como o Arara Azul, uma embarcação imponente de três andares - dessas que a gente costuma ver subir e descer rios amazônicos -, que está equipada com dez cabines para até três pessoas em cada uma delas. Todas as saídas têm duração de seis dias, em roteiros que são definidos por quem contrata os serviços. As viagens, disponíveis apenas para grupos fechados que fretam todo o barco, incluem refeições, equipe de funcionários e também o combustível para todo o trajeto.

Para quem prefere passar a noite em terra firme, pousadas bem estruturadas também estão disponíveis em todo o distrito. Um exemplo é a Rei das Piraíbas, administrada por um carioca que carrega no currículo de pescador o título que dá nome a seu estabelecimento. Heraldo já pescou 83 piraíbas, um gigante de águas doces que chega a 160 quilos e até três metros de comprimento. Na pousada, são 11 quartos em dimensões exageradas, comparadas a outras opções de hospedagem no Araguaia, que estão equipados com ar-condicionado, frigobar e uma internet decente - que satisfaz viciados no mundo on-line.

O destaque aí, entretanto, são os pacotes de cinco dias para quem está ali porque escolheu a pesca. Além da hospedagem, estão incluídos os gastos com o barco a motor, guia, iscas e refeições. Embora ainda não conte com roteiros turísticos definidos e nem tenha a mesma infraestrutura de Aruanã, esse distrito de 1,5 mil habitantes, a 45 quilômetros de São Miguel do Araguaia, vive da pesca esportiva. E o cenário por ali é tão cenográfico que, por vezes, a gente esquece dos peixes e se descobre paralisado pela paisagem que corre do lado de fora do barco. Daí a facilidade de ver animais que se refugiam em canais estreitos, onde um impressionante corredor espelhado reflete a vegetação do Cerrado.

Uma das atrações mais impactantes na região é a Área de Proteção Ambiental (APA) Meandros do Araguaia, habitat, entre outros, de jacarés, iguanas, lontras, tartarugas-da-amazônia, cervos-do-pantanal, botos, bugios e felinos como a jaguatirica e a onça-preta, nas várzeas dos rios Araguaia, Crixás-Açu, Verde e Cristalino. Essa área de proteção é uma planície de inundação, espécie de Pantanal goiano, que facilita a alimentação e reprodução de animais, numa área de mais de 350 mil hectares que ocupa Goiás, Mato Grosso e Tocantins. Estar acompanhado por um guia nesta região é fundamental, uma vez que se trata de uma área protegida que nem sempre permite a entrada de turistas.

Sim, porque os visitantes sempre se animam em parar a embarcação em algum pedaço de terra para dar início a trilhas curtas. Sejam elas no meio da mata ou mesmo entre as lagoas que se formam ao redor dos rios Araguaia e Crixás. Constituída por diversos lagos isolados pela baixa dos rios locais, a região proíbe pesca, acampamento e circulação de embarcações motorizadas. Por ali, a única opção de turismo é a observação de um dos mais impressionantes endereços de todo o Araguaia. O distrito de Luiz Alves é um dos últimos destinos ribeirinhos antes de o Araguaia se bifurcar para dar origem à Ilha do Bananal. Reserva da Biosfera pela Unesco (ecossistemas que conjugam conservação da biodiversidade e seu uso sustentável), Bananal é considerada a maior ilha fluvial do mundo. Mas essa já é outra história para pescador contar.

SERVIÇO

Como Chegar

  • Avião. A Gol tem voo direto a Brasília, ida e volta, a partir de R$ 449,27; e a Latam, R$ 434,51. Para Goiânia, sai a partir de R$ 449,24 pela Gol; e de R$ 464,34 pela Latam.
  • Carro. A distância de Aruanã a Goiânia é de 314 quilômetros, e de Aruanã a Brasília, 480 quilômetros. A diária do aluguel de carro, com quilometragem livre, varia entre valores a partir de R$ 50, entre as diferentes empresas de locação. Tarifas cotadas para o início de outubro.

Onde Ficar

  • Luiz Alves. Pousada Rei das Piraíbas. Pacote de pesca, hospedagem e refeições: R$ 1.450 por pessoa (3 dias), R$ 1.850 (4 dias) e R$ 2.250 (cinco). Diárias simples R$ 120 (c/café da manhã) ou R$ 200 (pensão completa). pousadareidaspiraibas.com.br
  • Pousada Canoeiros. Diárias a R$ 173 (por pessoa, pensão completa, apartamento duplo). pousadacanoeiros.com.br
  • Aruanã. Acampamento de Charme Lua Cheia. Diária a R$ 200 (pensão completa). Reservas: (62) 98422-0297.
  • Aragarças. Complexo Ecothermal Água Santa. Diárias a R$ 350 (casal, pensão completa). O day use custa R$ 45 (com almoço). complexothermalaguasanta.com.br
  • Barco-hotel Arara Azul. O pacote (seis dias) custa R$ 25 mil (com piloto e três tripulantes) ou R$ 74 mil para 24 passageiros e todos os serviços, inclusive refeições. barcohotelararaazul.com.br

Passeios

  • Jangadão Ecológico. A travessia de 4 dias custa R$ 500 por pessoa e inclui as refeições e equipe de apoio (trilhasdocerrado.com.br).
  • Guia em Luiz Alves. O guia João Neto conduz barcos pelo Araguaia, com vistas à pesca. Diária, das 7h às 19h, que inclui preparação de refeição na beira do rio, sai a R$ 250 mais combustível. Dá dicas para hospedagem. Telefone: (62) 99618-2387

 

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