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Diário da Região

04/03/2015 - 06h45min

São Paulo

Trupe Chá de Boldo lança o disco 'Presente'

São Paulo


Gustavo Galo gosta de comparar discos com fotografias. Um álbum funciona como um clique de determinado momento, o registro de um passado eternizado em ondas sonoras. O presente temporal é escancarado em Presente, o disco. O título do terceiro álbum da Trupe Chá de Boldo, banda de 13 integrantes da qual Galo é um dos vocalistas e principal compositor, expõe um momento muito atual do grupo que, mesmo em grande número, foi capaz de encontrar uma identidade única e singular.

A unidade diante de um coletivo enorme é extrapolada em Presente, embora já ganhasse contornos em Nave Manha (2012), principalmente, e Bárbaro (2010). A Trupe entendeu que não precisa ser festeira o tempo todo, ou mesmo ser referente à vanguarda paulistana obrigatoriamente. E, principalmente, pode se permitir brincar consigo própria. Uma Banda, faixa que encerra os 46 minutos de Presente, é um retrato de uma banda com mais integrantes do que o normal. "Uma banda grande é demais, não cabe no elevador, não cabe no camarim, não cabe no estúdio, não cabe nos jardins, não cabe no mercado", cantam vários deles. "Se a gente se levar a sério demais, ferrou", brinca Guto Nogueira, um dos percussionistas do grupo. "Para nós, isso é saudável."

Presente é, para o percussionista, um álbum "estranho, mas pop". "Experimental e estranho", arrisca mais Guto. Muito desse estranhamento - e deleite - está em Jovem Tirano Príncipe Besta, música mantra de Negro Léo, maranhense com sotaque carioca, escolhida para abrir o Presente. Se o desapego da raiz paulistana é citado em um texto de apresentação do álbum como um dos motivos para prestar atenção à faixa - e com razão -, a estética sombria da canção inaugura a liberdade sonora de Presente. A banda se permite ir longe, descer até notas mais graves em níveis apocalípticos que a canção merece. "Nosso universo foi se expandindo", diz Marcos Grinspum Ferraz, sax tenor do grupo. É uma expansão geográfica e sonora, diga-se de passagem. "Colocar uma música como essa para abrir o disco, de alguma forma, já indica esse caminho", completa. "Nós nos arriscamos, é uma faixa originalmente quase só voz e baixo. Fizemos um arranjo grande, de banda. É bem pesada."

A coletividade e a percepção do que a Trupe se tornou fez com que a banda fechasse e deixasse a tradição de contar com participações especiais, como de praxe nos álbuns anteriores, e se voltasse para os próprios integrantes. Se Galo ainda ocupa o posto de principal compositor do grupo, ele não o faz sozinho. Das 13 faixas, ele assina duas sozinho e outras seis com outros compositores, como Meu Tesão É Outro (criada ao lado de Ciça Góes, Felipe Botelho e Marcelo Segreto), O Fim É Só o Começo (com Ciça Góes), Smex Smov (no qual a banda toda assina autoria), Fogo Fogo (com Marcelo Segreto), Moremáximo (com Paloma Mecozzi) e a já citada Uma Banda (com Guto Nogueira e Rafael Werblowsky).

O crescimento do trabalho coletivo na Trupe, segundo Galo, é reflexo da experimentação maior de todos os integrantes da banda, entre os períodos de gravação de Presente e o disco anterior, lançado em 2012. "Também começamos a fazer o (EP) o Tribunal do Feicebuque, com Tom Zé, que foi um momento importante de abertura para a banda", explica o vocalista. Ele lembra que foi importante promover um novo encontro entre os 13 integrantes do grupo - algo raro, segundo eles -, e decidir se a Trupe faria, mesmo, um novo disco. A partir disso, em encontros e viagens nas quais participavam todos os integrantes, nasceu Presente. "Começamos a pensar juntos neste disco, compusemos juntos", lembra Galo, que entre os discos da Trupe lançou o álbum Asa, o primeiro solo. "Seria ótimo chamar mais gente, mas estamos neste momento de afirmar quem é a Trupe Chá de Boldo. Redescobrimos que somos forte juntos."

De fora, mesmo, só a presença de Gustavo Ruiz, irmão de Tulipa Ruiz e produtor de mão cheia. Ele trabalhou com a Trupe em Nave Manha, como produtor e uma espécie de psicólogo de um grupo que, como eles mesmos cantam na faixa que encerra o disco, "não cabe no camarim". "Brincamos que ele é uma das poucas unanimidades da banda", diz Grinspum. "O que é raro." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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