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Diário da Região

23/02/2015 - 08h00min

São Paulo

Leilão marcado para março vai dizer se a arte supera a onda recessiva

São Paulo


O primeiro grande leilão de arte do ano só será realizado daqui a um mês, mas o mercado já dá sinais de ansiedade em função da onda recessiva. Em tempos de inflação crescente, a migração de valores para obras de arte parece uma alternativa razoável, como foi há sete anos, quando o mundo enfrentou um grande tsunami econômico. No primeiro de seus quatro leilões anuais, que será realizado nos dias 23 e 24 de março, o leiloeiro James Lisboa vai reunir um conjunto expressivo para grandes e pequenos investidores, 263 obras de 141 artistas, dos barrocos aos contemporâneos, de Aleijadinho a Tomie Ohtake, falecida no dia 12, aos 101 anos.

Ainda é cedo para definir a posição dos contemporâneos frente aos modernos e antigos, mas uma das três telas de Tomie Ohtake no leilão, uma pintura de 1996, terá lance inicial de R$ 420 mil, mesmo valor de uma imagem de santa Luzia esculpida por Aleijadinho no século 18. Do escultor mineiro, o leilão terá ainda uma escultura menor, de São Sebastião, com lance mínimo de R$ 200 mil. Ambas integram o catálogo do artista.

Atuante há mais de 30 anos no mercado, o leiloeiro James Lisboa não acredita que a crise econômica possa afetar de modo significativo as vendas, embora algumas galerias já sintam os efeitos de uma retração no mercado, motivada possivelmente pela extrema cautela de colecionadores, que preferem esperar para voltar a investir em arte.

Ainda assim, alguns nomes - especialmente os internacionais - já atraem os compradores antes mesmo da realização do primeiro leilão do ano. É o caso do colombiano Botero, que teve uma tela vendida antes de entrar no catálogo.

Botero tem outra pintura no leilão, a aquarela Cesto de Uvas (1980), com lance mínimo de R$ 200 mil. Ao lado do pintor estão outros conhecidos artistas latino-americanos. O uruguaio Pedro Figari (1861-1938) está representado por quatro óleos que exploram aspectos cotidianos da vida rio-platense. Outro contemporâneo uruguaio de Figari, o construtivista Joaquim Torres García (1874-1949), comparece com dois desenhos de 1937. Há também entre os estrangeiros um pintor excepcional, o argentino Emilio Pettorutti (1892-1971), que provocou polêmica em Buenos Aires com sua exposição cubista, em 1924.
Pettorutti seria posteriormente identificado como protótipo do rigor geométrico.

Entre os modernos brasileiros a curiosidade maior é um guardanapo com uma bandeirinha pintada por Volpi (1896-1988) presenteada em abril de 1978 à então diretora do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), Dinorah Lopes Coelho. A obra traz um poema do pintor no verso, em que ele relaciona as coisas que mais importam na vida: um pedaço de pão feito em casa, um gole de vinho e a conversa de um amigo. Outra curiosidade é um autorretrato de Di Cavalcanti (1897-1978) em meio a mulatas que se tornaram sua marca registrada (lance mínimo de R$ 257 mil). É uma obra rara pela presença do artista ao lado de suas modelos e foi pintada em 1972, um ano depois que o MAM de São Paulo dedicou a ele uma retrospectiva.

O filho do leiloeiro James Lisboa, James Acácio, aponta outro highlight do leilão, uma escultura de grandes dimensões (lance mínimo de R$ 600 mil) de Frans Kracjberg, que completa 94 anos em abril. O artista de origem polonesa, naturalizado brasileiro, ganhou com essa escultura (de 2010) o Enku Grand Award, o mais importante prêmio para as artes no Japão, tornando-se o primeiro estrangeiro a receber a premiação.

Entre os estrangeiros há ainda artistas como o inglês David Hockney (um desenho de 1970 com lance mínimo de R$ 200 mil) e cinéticos como Vassarely e Julio Le Parc, dois nomes ligados à galerista Denise Renée. Entre os contemporâneos brasileiros destaca-se Mira Schendel (1919-1988), que recentemente ganhou uma retrospectiva na Pinacoteca do Estado. "Queremos oferecer peças para todos os perfis de público", diz o leiloeiro James Acácio, revelando que a participação online de compradores cresceu muito nas últimas edições. "Por ser o primeiro deste ano, o leilão de março vai funcionar como uma espécie de termômetro do mercado, mas posso adiantar que o interesse dos investidores parece afastar a ideia de crise."

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