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Diário da Região

10/11/2014 - 09h30min

São Paulo

Juliette Binoche é grande em 'Mil Vezes Boa Noite'

São Paulo


É uma fala que vem de Shakespeare - que Julieta diz a seu Romeu. O último verso quando a ama a chama e ela se despede do recém-descoberto amor de sua vida. 'Mil Vezes Boa Noite.' Erik Poppe queria um título romântico e enigmático para seu longa (quase) autobiográfico. Ex-fotógrafo de guerra, antes de virar cinegrafista e diretor, ele queria refletir sobre questões que o atormentaram por anos. É ético buscar a beleza na destruição e na morte? E por que uma pessoa se sente tão atraída por seu trabalho - mesmo que seja documentar a guerra - que termina sacrificando tudo (amor, família, relações) em busca da imagem impactante?

Não deixa de ser significativo (revelador?) que ele tenha transferido essas interrogações/preocupações para a uma mulher, como se, sendo um homem, não tivesse direito de formulá-las. Homens têm de ser duros, mulheres são mais sensíveis. Isso talvez seja lenda. Homens enterneceram-se, mulheres endureceram. Mas permita-se a liberdade poética ao autor norueguês. Poppe começa seu filme de forma tão enigmática como seu título. Com sua câmera na mão, a fotógrafa Juliette Binoche, em plena zona de combate, é atraída pelo que parece um ritual. Mulheres pranteiam uma outra, que jaz numa cova, mas ela é retirada para se transformar num anjo exterminador. (As mulheres endureceram, sim.) Bombas são coladas a seu corpo.

Juliette flagrou a preparação de uma mulher-bomba e, agora, a segue. A mulher explode - uma sequência muito bem feita - e a própria Juliette quase morre. Ela volta para casa, e é um problema. Essa mulher tem marido, tem filha, mas vive por e para seu trabalho, que também é sua arte. No que não deixa de ser uma inversão de certos parâmetros familiares tradicionais, o marido se ocupa do lar e a filha cobra a ausência da mãe. Mil Vezes Boa Noite - são os telefonemas que Juliette dá de lugares distantes, em áreas de risco. Cada despedida poderá ser a derradeira. Por falar em risco, começar um filme por sua cena mais forte é... Suicídio?

Erik Poppe sabe disso e cria, bem mais adiante, outra cena forte. A filha pega a câmera e a dispara contra a mãe - shoot/filmar, fotografar é a mesma coisa que disparar (para matar), em inglês. É curioso assinalar que muita coisa da crise do casal de Mil Vezes Boa Noite também está em Mão na Luva, que José Joffily e Roberto Bomtempo adaptaram da peça de Oduvaldo Vianna Filho, e que as questões da guerra e das fotos fornecem momentos contundentes ao texto de Incêndios, a peça do libanês Wajdi Mouawad que Aderbal Freire Filho montou para a interpretação de Marieta Severo e que, com certeza, resulta melhor - a encenação na cidade - para a atriz que para seu marido diretor.

Volta e meia, Juliette Binoche surpreende com projetos mais comerciais, alguma comédia, mas quase sempre seu rosto belo - e tenso - serve a encontros privilegiados, com autores excepcionais. Krzystof Kieslowaki, Abbas Kiarostami, Bruno Dumont. Em sua curta carreira, Erik Poppe tornou-se um autor cultuado e teve o que definiu como 'a sorte' de interessar a Juliette.

Ele lhe enviou o roteiro, ela imediatamente disse sim. Para o papel do marido, ele tentou e conseguiu Nikolaj Coster-Waldau, da série Game of Thrones. Ele é Marcus, ela, Rebecca. Em 1967, Michelangelo Antonioni também filmou um fotógrafo e escolheu um ator, David Hemmings, cujos olhos pareciam a extensão da câmera em Blow-Up/Depois Daquele Beijo. Há um mistério do olhar de Juliette Binoche. É crucial em Mil Vezes Boa Noite. Rebecca é uma mulher dividida e, por causa dela, sofrem o marido, a filha. Vale a pena compartilhar essa experiência dilacerante.

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