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Diário da Região

01/06/2015 - 08h45min

Rio de Janeiro

Cursinhos apostam em 'rotina militar'

Rio de Janeiro

A rotina é pesada e envolve oito horas diárias de aulas, além de pelo menos outras seis de estudos complementares. Sem acesso a computador. A televisão nunca é ligada. Nos quartos, paredes são cobertas por quadros escolares, rabiscados com fórmulas e expressões matemáticas. De longe, parece uma república de estudantes. Trata-se na verdade de um alojamento aberto por um curso preparatório para os institutos militares. Ali vivem os 44 estudantes mais promissores da instituição. Para ingressar no Centro de Desenvolvimento de Alunos de Alta Performance, criado pelo Sistema Elite, é preciso fazer uma prova de seleção ou ter se destacado em outros concursos. Os alunos vivem dentro de regras rígidas. Têm horários para as refeições. As luzes dos quartos são apagadas às 22 horas, mas muitos vão para as áreas comuns e estudam madrugada adentro. Não são liberados para sair - a não ser para fazer inglês, com autorização dos pais. Não fazem academia. "Eles enxergam como perda de tempo", diz o coordenador de turmas militares do Elite, Carlos Eduardo Felício da Silva, o Cadu. A mensalidade sai por R$ 750. O alojamento tem três quartos para 34 garotos e um para as dez meninas, mobiliados com beliches. O único conforto é o ar-condicionado - nada de videogame, computador ou tevê. Eles ficam no segundo andar; elas no térreo. Não pode haver visitas do sexo oposto nos quartos. Câmeras e um segurança noturno se certificam de que a regra será cumprida. Caveirão Jane Augusta de Oliveira é a administradora da casa. Durante o dia, é quem põe ordem ali, manda os meninos pendurar as toalhas, garante que todos estão se alimentando. Ganhou o apelido de Caveirão, referência ao carro blindado da Polícia Militar. "Não estou aqui para dar uma de amiga. Alguém tem de fazer o papel da bruxa", afirma. Se para muitos esse ambiente dá pesadelos, para esse grupo de jovens é a chance de enfrentar dois dos vestibulares mais difíceis e concorridos do País - o do Instituto Militar de Engenharia (IME), no Rio, e o do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, no interior paulista. Hugo Concolato, de 17 anos, quer estudar Engenharia Mecânica no ITA. Ele não gostava muito de Matemática, até decidir o que queria fazer e passar a se esforçar. "O começo aqui foi difícil. Sentia falta de casa, tive de aprender a administrar meu tempo, a manter minhas coisas organizadas. Acordo muito cedo, durmo muito tarde. Muitas vezes tenho vontade de desistir, mas aí penso que aqui é um investimento no futuro", diz o garoto. No teto de seu quarto do, alguém escreveu a hidrocor a fórmula da Lei de Gauss (de fluxo de campo elétrico). Hugo não fez prova para o alojamento. Foi convidado pelos resultados após ser aprovado para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (primeiro lugar), para a Escola de Especialistas da Aeronáutica e para a Academia da Força Aérea. Não quis cursar nenhuma. "Quero o ITA." Zero um Os alunos do Elite são ranqueados. Como no jargão dos institutos militares, o primeiro da turma é chamado de zero um. Na outra ponta, fica o "zero último". "Eles são estimulados a competir", diz o professor Cadu. "O Elite é voltado para as classes B e C. A maioria tem bolsa ou na mensalidade ou no alojamento. Eles não estudaram em colégios de ponta. Temos de fazer um trabalho muito forte para que sejam aprovados." Dos que estão na casa, todos saem matriculados em instituição de ensino superior, mesmo que não sejam o IME ou o ITA. "Eles colecionam aprovações." Nem todos aguentam a rotina de estudos e a distância de casa. "Já teve aluno que chorou a noite inteira. Fui chamada de madrugada. Pela manhã, os pais vieram buscar", conta Jane. Uma psicóloga atende os estudantes. Pôsteres motivacionais estão espalhados nos murais - as frases vão do escritor alemão Johann Goethe ao dr. House, personagem de seriado americano. Os jovens ficam ali de segunda a sábado, quando assistem às aulas pela manhã e têm monitoria à tarde. A orientação para o domingo é que eles se distraiam em casa. "É o dia em que dá para acordar tarde", diz Hugo. A que horas? "Umas nove, nove e meia..." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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