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Diário da Região

14/09/2016 - 00h00min

Com as bênçãos de Oxalá

Nego Rocha & AfroKaoss lança Yangi, seu primeiro single

Com as bênçãos de Oxalá

Mona Luizon/Divulgação “É um projeto que não trata de religião. Até porque a fé é uma coisa muito individual. Busco evidenciar a mitologia presente na cultura africana”, diz Vinicius Rocha a respeito de seu novo projeto musical, desenvolvido em parceria com José Cássio Jaber, do Iaiá Me Sacode
“É um projeto que não trata de religião. Até porque a fé é uma coisa muito individual. Busco evidenciar a mitologia presente na cultura africana”, diz Vinicius Rocha a respeito de seu novo projeto musical, desenvolvido em parceria com José Cássio Jaber, do Iaiá Me Sacode

Na tradição sincrética de algumas religiões, é uma prática comum a criação de equivalências entre figuras de culturas distintas. No Brasil, terra de um povo mestiço por natureza, isso é bem exemplificado na relação entre o candomblé e o catolicismo. Muita gente já deve ter ouvido que Iemanjá é Nossa Senhora da Conceição. No entanto, essa capacidade de dar novos significados a figuras e símbolos também sinaliza a violência com que a matriz africana é referendada na cultura brasileira. Para ser legítimo, parece que é necessário a aprovação daqueles que devassaram culturas pelo mundo.

Um dos maiores descompassos forjados pelo sincretismo entre os orixás e os santos católicos pesa sobre Exú, ou Esu, cuja figura é relacionada ao diabo cristão em sua forma mais primitiva. Uma ideia inconcebível na teologia e na cosmovisão yourubá, em que não existe um ‘inferno’ e os homens não são punidos após a morte. Nesse contexto, a música tem um papel importante na reverência à tradição africana, tornando-se um ato de resistência em um País onde o racismo ainda se faz presente nas relações cotidianas.

É por meio da música que Vinicius Rocha - um filho de Oxalá na linha direta de Xangô - atua na desmistificação e na valorização das matrizes africanas que exercem influência na identidade cultural brasileira. Seu trabalho mais engajado nesse sentido começa a ganhar corpo com o lançamento de Yangi, o primeiro single de Nego Rocha & AfroKaoss, projeto musical encabeçado por ele e pelo músico José Cássio Jaber, do grupo Iaiá Me Sacode.

 

 

“É um projeto que não trata de religião. Até porque a fé é uma coisa muito individual. Busco evidenciar a mitologia presente na cultura africana. Yangi trata de Esu como um ser mitológico, assim como Netuno (deus do mar na mitologia romana), que, apesar de empunhar um tridente, não é relacionado a algo maléfico ou tenebroso”, comenta Rocha. O músico de Rio Preto vem pesquisando as tradições da cultura africana em diferentes lugares do Brasil. Ele também pretende fazer sua pesquisa na África e em Cuba, país onde Exú, por exemplo, é retratado como um menino brincalhão, bem diferente do sincretismo brasileiro.

Além das canções autorais, Nego Rocha & AfroKaoss também se dedica a novas leituras para as oito canções do álbum Os Afro-sambas, lançado por Vinícius de Moraes e Baden Powell em 1966. O disco antológico entrou para a história da MPB como sendo o primeiro trabalho de destaque em que se misturam instrumentos típicos do candomblé e da umbanda (atabaques, agogô e afoxé) a outros da música tradicional, como a flauta, o violão, o sax, a bateria e o contrabaixo. O trabalho do projeto se completa com pontos, poesias e cantigas.

Serviço

Fela Kuti é referência

A sonoridade que o projeto Nego Rocha & AfroKaoss pretende imprimir em suas canções divide-se entre a fidelidade à tradição africana e o diálogo com influências e vertentes da música atual. Fragmentos musicais, poéticos e ancestrais de matrizes afrobrasileiras estão em sinergia com arranjos contemporâneos. Uma das referências mais fortes é Fela Kuti (1938-1997), multi-instrumentista nigeriano que é considerado o pioneiro do afrobeat, um estilo que influencia o trabalho musical de inúmeros artistas brasileiros da atualidade. Ativista político e dos direitos humanos, Fela Kuti disse que a música é a arma do futuro.

E é nisso que o músico Vinicius Rocha aposta, uma música capaz de abrir às mentes e romper com estereótipos reforçados pelo preconceito racial. A gravação de Yangi, o primeiro single do projeto, realizada no REC Rocha Estúdio & Cultura, contou com a participação de um coro de vozes femininas formado por Juliana Rocha, Dandara Rocha, Mayara Isis, Inajara Rocha e Yanelis Abreu, além da cubana Susana Babi. Outro convidado é o sax tenor Marcos Dotti. A capa do primeiro single conta com ilustração criada pelo artista visual e tatuador Wilde Maurício, de Rio Preto. O próximo lançamento do projeto será uma releitura ‘afrocaótica’ de Lamento de Exú, uma das canções do álbum Os Afro-Sambas, de Vinícius de Moraes e Baden Powell.

 

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