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Diário da Região

28/08/2015 - 08h30min

HOMEM IRRACIONAL

Risco da repetição aflige o 46º filme de Woody Allen

HOMEM IRRACIONAL

Woody Allen volta e meia experimenta em seu cinema a tentação do assassinato. "Homem Irracional" retoma essa vertente da obra do autor. É um Woody Allen mais grave, e ambicioso, do que o de diversos filmes recentes, mas não necessariamente melhor, ou muito melhor.

E aqui cabe uma pequena digressão. Mais do que qualquer outro diretor, ele tem mantido a regularidade de sua carreira - da trajetória, digamos assim. Um filme por ano, todos os anos.

No documentário de Robert B. Weide, Allen esclarece. Recolhe ideias que coloca em gavetas. Na hora de escrever o roteiro, abre as gavetas, cruza as informações e assim compõe personagens e situações. As gavetas são compartimentos da mente, e nem poderia ser diferente para um autor que se analisou, analisa, há tanto tempo.

Allen tem a tendência a psicologizar, e mais que isso, a psicanalisar. E, para ele, a regularidade é importante. A rotina de escrever, filmar, montar. Alguns filmes saem bons ("Blue Jasmine", "Meia-noite em Paris"), outros menos bons ("Vicky Cristina Barcelona"), alguns até ruins ("Era Uma Vez em Roma", "Magia ao Luar"). O importante é manter a frequência.

"Homem Irracional" é o 46º filme de Woody Allen e o 11.º exibido em Cannes - 12º, se for considerado o episódio de "Histórias de Nova York". Mas o filme não integrou a competição. "Quem vai garantir que 'O Poderoso Chefão' é melhor que 'Os Bons Companheiros', ou vice-versa?", perguntou-se mais de uma vez nas entrevistas que deu na Croisette. E por que filma tanto? "Tem gente que filma por dinheiro, ou por necessidade de expressão. Eu filmo porque gosto, porque me divirto." E sobre a sua fidelidade à película - "Vou ter de usar o digital, nem que seja para experimentar. O digital não é mais o futuro. É o presente do cinema, e eu estou ficando por fora." 

O novo filme dialoga com outros do próprio Woody Allen, especialmente com "Crimes e Pecados". Para Woody Allen, talvez valha o que Paulo Francis dizia de François Truffaut. A felicidade íntima, a satisfação no casamento com Fanny Ardant, de alguma forma apaziguou o artista. Domou-o? Existem críticos que contestam, vendo grandes méritos em um filme que o próprio Truffaut, na fase de jornalista, consideraria mediano. "A Mulher do Lado".

Allen vive hoje o que parece uma existência calma e feliz, mas o gênio criador ficou lá atrás, na fase conturbada com Mia Farrow, quando fez seus melhores filmes, e "Crimes e Pecados" era um deles. Existem elementos daquele filme, e de "Hannah e Suas Irmãs", e de "Manhattan", e "Tudo Pode Dar Certo", em "Homem Irracional".

Joaquin Phoenix é quem faz o papel. É um professor de filosofia que chega ao câmpus de uma universidade precedido por sua fama. Uma aluna, Emma Stone, se envolve com ele. Uma colega, Parker Posey, o persegue. Ele disserta sobre sua especialidade. Kirkegaard (Sickness into death, a doença da morte), Kant, Simone de Beauvoir. Discute a dificuldade de se adequar conceitos e ideais filosóficos ao mundo real. Analisa responsabilidade, moralidade, e livre-arbítrio. Dostoievski/Crime e Castigo, e Anne Frank, a cultura judaica e o nazismo. E, aí, quase por acaso, o professor ouve a história da mulher ameaçada de perder a guarda dos filhos por causa da inflexibilidade de um juiz. Resolve eliminá-lo. Planeja o crime perfeito. 

O tema de "Homem Irracional" não é o crime perfeito, que já estava em "Match Point", mas a tentação da irracionalidade. Allen é atraído por homens racionais (artistas, professores) que transigem com os próprios princípios e se confrontam com o terrível mundo real.

O plano de Joaquin Phoenix dá novo sentido à sua vida. Termina por consumi-lo. Rememorando - o cineasta de "Crimes e Pecados" planeja friamente a morte da amante, que passa a exigir demais dele. Allen filma o isolamento (moral), num mundo em que as pessoas são estimuladas a abandonar projetos coletivos e focar somente em seus desejos e necessidades.

A personagem de Parker Posey vai desaparecendo. Emma Stone, nova musa do diretor (substituindo Scarlett Johansson), decepciona-se com seu professor. "Havia algo de muito errado com ele, mas era fascinante." A frase poderia ser usada à maneira de epitáfio. Tudo bem, mas para quem?

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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