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Diário da Região

28/10/2015 - 12h00min

São Paulo

Retrospectiva do pintor paraense Ismael Nery traz 60 obras raras

São Paulo

Católico, Ismael Nery (1900-1934) resistia a tudo, menos ao apelo sensual dos corpos. Foi metrossexual quando o termo nem existia. Desenhava compulsivamente apenas para jogar ao lixo quase tudo o que fazia. Criou um sistema filosófico neotomista, o 'essencialismo' - nome cunhado pelo amigo e poeta Murilo Mendes - que concebia o ser humano como uma entidade espiritual, embora pintasse quase exclusivamente corpos. Alguns deles surgem em suas telas em pleno ato de sedução, como em Eva, em que duas mulheres (uma delas Adalgisa Nery, sua mulher) exercitam um jogo homoerótico. Ismael Nery tinha esse dom de profeta moderno, andrógino, que se pintou como um sedutor com cabelos de mulher e sobrancelhas arqueadas. Mas quem foi, afinal, Ismael Nery? A exposição Em Busca da Essência, a segunda montada pela curadora Denise Mattar, que será aberta nesta quarta-feira, 28, na galeria Almeida & Dale, está em busca dessa resposta, como indica o próprio título da mostra. Tem 60 pistas para o espectador seguir, todas elas cobertas por uma espessa camada de ambiguidade. São óleos, aquarelas e desenhos do único pintor moderno brasileiro que não mostrou interesse pelos temas consagrados pelo modernismo dos anos 1920 e 1930 - mitos afro-brasileiros, lendas indígenas, conflitos sociais. Para Nery, o embate não era com a sociedade, mas consigo. Tinha uma mãe cuja presença opressiva evocava uma Jocasta moderna, enlouquecida, que se vestia de freira e acreditava ter poderes mediúnicos. O filho nunca se livrou desse espectro. Morreu aos 33 anos, como previu - e registrou num desenho. Seguiu o caminho do pai, também morto com a mesma idade de Cristo. Foi enterrado com o hábito franciscano, para compensar os trajes luxuosos de dândi que usou em vida. Tuberculoso, fumou até no sanatório, entre uma oração e outra. O poeta Murilo Mendes, que preservou parte de sua obra, dizia dele que a pintura o salvou. De fato, vendo os autorretratos reunidos na mostra, todos de colecionadores particulares, é possível afirmar que, a exemplo de Rembrandt, Nery recorreu ao gênero como forma de autoconhecimento. Seu lado narcísico revela desconfiança de sua beleza exterior, indagando, à maneira de Pancetti, que também se pintava de meio perfil, olhando de soslaio, se a pintura seria capaz de decifrar o enigma de um espírito religioso encarcerado num corpo voluptuoso. O crítico Davi Arrigucci Jr., em ensaio sobre a proximidade entre Ismael Nery e seu amigo Chagall, nota que os personagens que flutuam em suas pinturas - e há mais de um exemplo na exposição - revelam um desejo de liberação, de se apresentar "fora dos eixos", como para desafiar a sociedade conservadora em que vivia. O surrealismo, além de servir ao propósito de livrar Nery da doentia relação simbiótica com a mãe, o distanciava do mundo concreto e o fazia ascender aos céus, perto do pai dos cristãos. A curadora Denise Mattar organizou a mostra de tal modo que, ao percorrê-la, o espectador poderá acompanhar os três períodos de criação do pintor: o expressionista (1922 a 1923); o cubista (1924 a 1927); e o surrealista (1927 a 1934), justamente o mais marcante. Também por isso, os criadores do modernismo brasileiro preferiram ignorá-lo, lembra a curadora. A passagem dele por Paris e seu vínculo com o cubismo picassiano e o surrealismo de Chagall seriam impróprios para um movimento nacionalista. Em contrapartida, a ressonância de Ismael Nery entre os contemporâneos evidencia sua importância. "Os desenhos eróticos de Tunga são o exemplo mais claro dessa influência", cita a curadora. Sobre a relação amorosa entre Nery e sua mulher, Mattar selecionou o docudrama Ismael e Adalgisa, realizado há 15 anos pela diretora Malu de Martino com argumento seu e Murilo Rosa e Christiane Torloni no elenco. O filme será exibido dia 12, às 19h30, na galeria. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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