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Diário da Região

13/07/2015 - 08h05min

São Paulo

Questão social é importante no cinema de Perceval e Klotz

São Paulo

Por mais que a questão social seja importante no cinema de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval - e o título da retrospectiva que começa quinta-feira, 16, no Cinesesc deixa isso claro: A França dos Excluídos -, o próprio Klotz, numa entrevista por telefone, de Paris, lembra o filme mais famoso da dupla, A Questão Humana, para ressaltar. "O social nos interessa, e muito, mas só em função do humano, que, no limite, é o que nos move." Há, portanto, uma questão humana no cinema de Klotz & Perceval. Percorre os longas e os experimentos que, nos últimos anos, eles têm a partir de oficinas de trabalho que ministram em dupla. No Brasil, fala-se muito na invisibilidade social. Existe um contingente muito grande de gente que pede nas esquinas, nos faróis. A maioria do público nem olha, e se olha, não vê. O que motiva Klotz a mostrar o que as pessoas talvez não queiram ver, numa França polarizada pelo desencanto com a esquerda e o avanço da direita? "Poderia dizer que é uma questão de consciência, mas é mais que isso. Elisabeth e eu estamos juntos há mais de 30 anos. Tem a ver com a família dela. Elisabeth vem de um meio proletário, muito humilde. O pai era operário. A família não passava fome e certamente não vivia na rua, mas ela não teve nenhum dos confortos de uma educação burguesa. Cresceu confrontada com a dificuldade da sobrevivência e a necessidade de solidariedade entre excluídos." A França dos pobres, dos imigrantes, dos afro-franceses. Todos os filmes da dupla têm alcançado seu público, mas A Questão Humana, de 2007, foi um acontecimento. "Fizemos mais público do que com qualquer outro de nossos filmes e o alcance midiático foi grande. Até hoje, muita gente nos reconhece por A Condição Humana." A própria filha de Klotz e Elizabeth Perceval, Helène, fez Les Amants Cinéma, sobre o processo de criação de A Questão Humana. "Estamos fazendo cinema em família", ele brinca. O Cinema de Klotz & Perceval, A França dos Excluídos vai exibir dez longas e três curtas. Os diretores estarão presentes na abertura, na quinta-feira, e depois, no sábado, vão ministrar uma master class. Só para lembrar - Klotz e Perceval foram descobertos no Brasil pela Mostra e já estiveram aqui para participar do evento. Ele foi dos primeiros a ganhar o troféu Humanidades, instituído por Leon Cakoff. Klotz sabe que a velha polarização esquerda/direita, aparentemente, não faz mais sentido num mundo em que as ideologias têm sido confrontadas pela realidade. Aparentemente. Na França, no Brasil, na prática da própria política, a velha dicotomia permanece. Os franceses estão decepcionados com o governo do socialista François Hollande e a direita de Marina Le Pen, encastelada na Frente Popular, avança como um trator contra os imigrantes - árabes e africanos - que viraram o íncubo dos 'vraie' (verdadeiros) franceses. Klotz avalia que o problema é anterior ao desencanto com Hollande. "A França mudou muito em pouco mais de 20 anos. O mundo todo mudou. Tem a ver com a nova remodelação da economia e da geopolítica a partir da queda do Muro de Berlim e da ruptura da União Soviética. Seria fácil ver a situação dos excluídos como um problema atual. Na verdade, se agravou, mas essa é uma situação que tem se deteriorado muito. Não ocorreu de repente. A radicalização do Estado Islâmico não ajuda em nada a despertar compaixão pelos que sofrem." Para a abertura da retrospectiva, na quinta-feira, foi selecionado Coragem. O documentário de 20 minutos foi feito no Rio, durante uma pesquisa para teste de elenco na Favela do Vidigal. Será acompanhado pelo longa (70 min) de Leonardo Luiz Ferreira Lucile, sobre uma jovem atriz do grupo Nós do Morro. Os demais programas incluem A Ferida, Mademoiselle Julie (versão bastante pessoal sobre uma montagem da peça de August Strindberg), Low Life, Pária, A Questão Humana, e Zumbis. Esse último, em estreia mundial, é definido por Klotz como um grito de revolta com base na dramatização de textos de Allen Ginsberg, Marguerite Duras, Elio Vittorini, Pier-Paolo Pasolini e muitos outros autores 'engajados'. Mais que político, o engajamento é social e humano. Uma arte que dá visibilidade e voz aos excluídos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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