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Diário da Região

27/03/2016 - 00h00min

DE JOVEM PARA JOVEM

Marc Kirst largou a faculdade para buscar sua verdade pessoal

DE JOVEM PARA JOVEM

Johnny Torres Marc Kirst durante encontro com alunos de ensino médio do colégio Coeso, em Rio Preto: 'A inércia é o pilar da manutenção, ela não é o pilar da transformação.'
Marc Kirst durante encontro com alunos de ensino médio do colégio Coeso, em Rio Preto: 'A inércia é o pilar da manutenção, ela não é o pilar da transformação.'

“Quando você chega à sua verdade e consegue expressar isso para o mundo, a sensação é a melhor possível.” E foi assim, em busca de sua verdade, que Marc Kirst, de São José dos Campos, largou a faculdade pública aos 20 anos para criar o PROVE, uma plataforma que trabalha com liderança e orientação vocacional para jovens.

Hoje, aos 23 anos, ele já viajou por vários países estimulando os jovens a vivenciar experiências de questionamento sobre a vida na busca por suas verdades individuais. Em suas dinâmicas, trabalha questões como a pressão do vestibular, a escolha profissional e o relacionamento com os pais. Em Rio Preto na última semana, quando visitou alunos de ensino médio de cinco escolas, Kirst conversou com o Diário sobre empreendedorismo pessoal e social.

 

Quando você abandonou a faculdade e criou o PROVE, quais eram as questões que te inquietavam? O que achava que faltava em sua vida?

Marc Kirst - Quando você encontra um sonho, um propósito que faz muito sentido pra você, muitas vezes, na minha opinião, você não encontra esse sonho; é ele que te encontra. Mas, para isso, o que você precisa fazer é se encontrar. Muita gente sai procurando propósito, mas não se encontra; não sabe quem é, não se aprofunda no seu próprio senso de identidade. Então, eu não tenho o mérito de ter criado o PROVE; o PROVE quase que veio até mim.

Acho que o mérito que eu tive, que exigiu muito esforço, foi me encontrar primeiro. Foi encarar perguntas que são difíceis de serem respondidas. Perguntas que, muitas vezes, não têm respostas. A gente vive numa sociedade que está muito acostumada a ter resposta pra tudo. Eu, desde novo, tinha muito medo. Era um medo de não fazer diferença, de não alcançar nada. É esse medo que me fez aprofundar, me jogar em experiências que me tirassem da zona de conforto. E sempre foi fora da zona de conforto que eu encontrei os maiores aprendizados.

A gente está muito acostumado a ignorar os lados negativos da vida. A gente quer fingir que está tudo bem, e a gente deixa de lado a indignação, o medo e a dor. Mas é da dor que a gente percebe o que é importante. É do medo que a gente percebe o que nos dá coragem. É da frustração e da indignação que a gente encontra o que a gente realmente vê sentido em mudar. Se a gente der boas vindas para o negativo como um caminho para o positivo, esse caminho será muito mais verdadeiro, muito mais coerente do que a gente simplesmente ficar fingindo que a vida é só um arco-íris.

 

Quais são as principais reclamações dos jovens que você ouve em suas palestras?

Marc Kirst - Estou tendo o privilégio e a oportunidade de poder trabalhar, conhecer, conversar e trocar com jovens de muitas nacionalidades. É muito comum e convergente os anseios dos jovens, independentemente de contexto socioeconômico e de cultura. Uma das coisas é ‘eu não entendo nada sobre mim e sobre a vida’. Outra coisa é a pressão para escolher algo que vai determinar o resto da sua vida.

No entanto, como um jovem de 17 anos, que não teve nenhuma experiência prática e ficou sempre embaixo da asa dos pais, pode decidir sobre algo que não conhece? Essa falta de visão para a experimentação, em vez do determinismo definitivo, é uma grande reclamação. Muita gente se sente injustiçada. O que mais gera anseio, angústia, medo, conflito interno e falta de autoestima no jovem é o relacionamento com os pais. Ou a falta de um canal de comunicação. Cada um fica na sua paranoia, mas nunca abrem um canal de contato. O jovem fica sem saber como e o pai fica sem saber como.

E fica aquela comunicação velada, que é só pra pedir dinheiro pra ir ao cinema e pra saber que horário vai voltar. Se os pais entenderem que seguir um caminho diferente será mais difícil, mas confiarem e munirem o filho com as ferramentas para se chegar lá, o processo natural é esse jovem gostar muito de uma coisa, ter motivação para praticar isso. O caminho natural é fazer algo que é verdadeiro; o dinheiro virá naturalmente. Mas isso é visto como idealismo, como utopia. Se pensarmos em toda a população do planeta, sim, é utopia. Mas, se pensarmos nas pessoas de sucesso, não é utopia.

 

As tecnologias que estão à disposição do jovem causaram uma certa automação em tudo. Hoje, temos tudo praticamente pronto. Como saber aproveitar o melhor disso sem se escravizar por isso?

Marc Kirst - A gente precisa entender que essas facilidades que temos hoje em dia são meios, são ferramentas, não são fins. A gente está muito acostumado a só ver fins porque a gente tem tudo pronto. A gente precisa entender que pode usar a internet para coisas realmente úteis, que não são fins, mas são uma ponte para algo, uma facilidade de acesso à informação e às pessoas. Se eu entender essas tecnologias como ferramentas, eu não me torno escravo delas porque eu passo a usá-las com um propósito. Tudo o que a gente faz sem propósito se torna uma prisão. Se a gente fizer faculdade sem propósito, a gente está sendo prisioneiro do sistema educacional.

A gente não está incluindo aquilo para nossa caixa de ferramentas. O que mais me despertou a força para o PROVE foi esse desespero pessoal de ver o piloto automático acontecendo ao meu redor e dentro de mim. A gente está vivendo uma inércia, e a inércia é o pilar da manutenção, ela não é o pilar da transformação. Então, percebi que eu queria mudar o mundo como qualquer jovem idealista. Como que eu vou fazer isso no piloto automático e na inércia? Se o jovem entender a sua responsabilidade, assumir a sua própria vida de uma forma mais empreendedora, de uma forma mais proativa e menos vitimizada, a vida desse jovem melhora e a sociedade como um todo se mobiliza.

 

A cultura do vestibular impera na educação brasileira. Desde que entramos na escola, somos preparados para o vestibular. E isso gera uma certa pressão sobre o jovem. Como reverter essa situação?

Marc Kirst - O vestibular é entendido, assim como o dinheiro, o carro do ano e o celular, como fim. Então, é quase uma educação inteira voltada para que o cara tenha sucesso nisso. Criou-se uma indústria de quem está conseguindo mais aprovações. E daí, fica bitolado. Se você entender o vestibular como oportunidade, como ponte para algo maior do que ele mesmo, será que ele não pode ser útil? Será que ele não pode te trazer credibilidade, não pode te garantir acesso à informação de primeira linha? É a mesma coisa que saber inglês.

Inglês como fim é para ter no currículo. Mas não é para ter no currículo, é pra você ter mais acesso ao mundo e à informação. Você não precisará ficar esperando tradução. Com relação ao vestibular, você pode ficar só reclamando ou você pode dar propósito para ele. Se o jovem entender, ou os pais entenderem, que o vestibular apenas como fim, como algo que é obrigatório e que é um dever em vez de um direito, vai ser pressão, ansiedade e conflito familiar, velado ou não. E isso é uma escolha. Você pode crer nisso até sem querer.

Tem outra forma de entender o vestibular: como oportunidade, direito, ponte para algo maior. É aí que entra aquelas perguntas essenciais: O que pode fazer sentido pra mim? O que eu posso encontrar? No fundo, os seus sonhos já estão dentro de você. É uma questão de olhar pra dentro e de lapidar isso. A gente tem uma sociedade muito voltada à padronização. Então, todo mundo tem que fazer a mesma coisa, a mesma profissão, o mesmo dinheiro.

Se você entender que você tem uma individualidade, e que nessa individualidade você consegue ter mais satisfação pessoal e, ao mesmo tempo, gerar mais diferença para os outros, aí o vestibular começa a mudar de perspectiva. Tudo bem, eu discordo com a prova, mas ela vai me ajudar? Então, eu tenho um propósito, e eu vou usá-lo em vez de ser usado por ele. A vida não é só ser feliz. Concordo. Não estou falando de fazer só o que você gosta e de só ser feliz o tempo inteiro. Eu estou falando de você usar como ferramenta até aquilo que você não gosta.

 

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