Diário da Região

Divulgação Em 2012, quando ainda tentava publicar o primeiro livro, Rafael Gallo ia às livrarias e anotava os nomes de todas as editoras que encontrava para enviar seu manuscrito. “Nunca recebi uma resposta positiva. Nos concursos, nem uma honra ao mérito”, lembra o jovem escritor
Em 2012, quando ainda tentava publicar o primeiro livro, Rafael Gallo ia às livrarias e anotava os nomes de todas as editoras que encontrava para enviar seu manuscrito. “Nunca recebi uma resposta positiva. Nos concursos, nem uma honra ao mérito”, lembra o jovem escritor

Rafael Gallo é a prova de que a persistência recompensa. O escritor paulistano de 35 anos, que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2016 na categoria melhor livro de romance para um autor estreante com menos de 40 anos, com a obra Rebentar, enfrentou a rejeição de todas as editoras que consegue se lembrar quando começou a escrever.

Na época, em 2012, Rafael estava preparando uma coletânea de contos chamada Réveillon e Outros Dias. Com o trabalho pronto, ele mandou uma cópia para todas as editoras que encontrou e para os mais variados concursos. “Eu ia em livrarias e anotava os nomes de todas as editoras que encontrava nas lombadas dos livros expostos. Nunca recebi uma resposta positiva. Nos concursos, nem uma honra ao mérito”, conta aos risos.

No entanto, ele afirma que, por ter uma certa experiência trabalhando com música e cinema, já estava calejado com essa situação. “Se tem uma coisa com a qual um artista tem que estar acostumando é a rejeição. Acho que já tinha aprendido que a rejeição tem menos relação com o trabalho em si do que com a posição de quem o rejeita - muitas vezes alguém ocupado demais, ou medroso demais ou mesmo ignorante.”

E como o que sempre importou para ele era o trabalho em si, a questão da posição alcançada no meio era algo que causava angústia, mas que não era forte o suficiente para levá-lo a desistir. “Porque você não pode parar, você não quer parar de fazer aquilo que te fascina. Nem que seja só para si mesmo. Além disso, acabou que, na literatura, as coisas foram, de certa forma, um pouco rápidas para mim. Eu não cheguei a ter que tentar começar outro livro da estaca zero. O primeiro que escrevi foi o mesmo que foi rejeitado a princípio, mas depois laureado pelo Prêmio Sesc.”

O prêmio para a coletânea de contos foi o empurrão que Rafael precisava para colocar sua vida no lugar, como descreve. Com a vitória, Réveillon e Outros Dias foi publicado pela editora Record e ele começou a participar de eventos literários para conversar sobre o livro. E foi nesse momento que ele percebeu que queria ser escritor.

“Sei que parece estranho isso, mas existe uma diferença entre querer escrever e querer ser escritor. Eu queria escrever, claro, se não sequer livro haveria, mas eu não tinha pensado em mim mesmo como um escritor. Eu sempre gostei de atividades criativas diversas, e sempre li muito. Como gostava de criar minhas próprias coisas, eu, enquanto leitor, mais cedo ou mais tarde iria querer escrever também”, lembra Gallo. “Hoje, percebo como a literatura deveria ter sido a primeira coisa que eu deveria ter pensado em fazer na vida. É algo que combina perfeitamente com quem eu sou, com quem eu queria ser, e eu demorei 30 anos para perceber isso.”

 

Livro Rebentar - 30122016 Rebentar, lançado pela editora Record, levou o Prêmio São Paulo de Literatura 2016 na categoria de melhor livro de romance para um autor estreante com menos de 40 ano

Com a coletânea publicada, Rafael partiu para seu próximo desafio, escrever um romance, um processo que, inicialmente, foi um pouco difícil. “A escrita é um pouco mais caótica do que no conto, pelas próprias dimensões da narrativa. A história de um romance, para quem o escreve, vai a se perder de vista; a de um conto, não. Sinto que estou um pouco mais em um ambiente controlado quando escrevo um conto. Mas isso é só um traço presente durante a elaboração da escrita, ao longo da organização e criação de todo o material. Aliás, quando fui ler o romance completo, eu mesmo estranhava como pude enlouquecer tanto para escrever aquilo, já que a história parecia caminhar tão naturalmente quando pronta”, recorda.

E assim nasceu Rebentar, publicado em 2015 também pela editora Record. Rebentar é um romance focado na história de Ângela, cujo filho, Felipe, desapareceu quando tinha apenas 5 anos de idade. Depois de passar 30 anos devastada pela perda e esperançosa por reencontrar seu filho, Ângela toma a resolução de encerrar sua história com Felipe, deixando de lado a busca e a esperança de tê-lo de volta. A fim de se dar o direito de seguir com a própria vida, Ângela começa a reorganizar seu mundo.

Para o autor, o assunto de filhos desaparecidos é capaz de chamar a atenção de qualquer pessoa, pelo que guarda de aterrorizante e pelo quanto coloca em choque uma relação afetiva que se espera ser a principal para uma pessoa. Mas o interesse de Rafael pela temática vai além do drama que ela proporciona: há uma questão pessoal.

“Pode parecer que eu não tenho nada em comum com a protagonista - uma mulher, mais velha, mãe, eu sequer tenho filhos -, que convive com a tragédia, mas o subterrâneo da história de Rebentar se comunica muito com o subterrâneo da minha própria história. A questão dos laços afetivos, especialmente familiares, a pergunta sobre o que é exatamente amar uma pessoa - em especial, quando essa questão demanda a resposta de um amor que é algo diferente daquilo a que você se habituou a chamar de amor - são questões centrais na minha vida. Essa ternura que existe, é real, mas não, não está ao seu alcance. Não ainda.”

O papel da premiação na literatura

“Um escritor, no Brasil, está sempre em uma espécie de corda bamba, e dá medo de cair, mesmo depois de já ter dado uns bons passos. Claro que sempre é possível se levantar e recomeçar, mas são tantas coisas que o cercam, muitas delas fora do seu controle, que quando uma dessas coisas ao seu redor também fora do seu controle te favorece, é muito bom”, comenta Rafael Gallo sobre a vitória no Prêmio São Paulo de Literatura 2016, na categoria melhor livro de romance para um autor estreante com menos de 40 anos.

Segundo ele, um prêmio faz muita diferença na vida de um escritor, especialmente quando se está no começo da carreira. “Eu até gostaria que ganhar ou deixar de ganhar um prêmio não fosse algo tão decisivo assim. No cinema, por exemplo, é diferente. Se um filme ganha o Oscar, legal, mais gente vai assisti-lo. Se ele não ganha, ok também, muita gente vai vê-lo do mesmo jeito. Mas na literatura, se você ganha um prêmio, os jornais resenham o livro, os eventos te convidam, as pessoas te dão atenção. Se você não ganha, se não é nem finalista, o esquecimento pode ser total”, analisa.

Os comentários não são, de forma alguma, uma maneira de desvalorizar os prêmios, garante Rafael. No entanto, ele acredita que a recepção geral em relação a eles não deveria ser tão extremista. “Muitos dos livros que não ganharam mereciam a atenção que os premiados recebem, e isso deveria ser mais bem equilibrado. Para mim, foi uma alegria enorme ter recebido o Prêmio São Paulo, e ele me forneceu uma serenidade muito grande em relação ao meu trabalho e à minha posição como escritor. Mas eu também deveria poder ter essa serenidade se não tivesse ganhado. O livro é o mesmo, tendo ganhado ou não. Mas a recepção dele muda completamente.”

Carreira

A literatura agora parece a escolha óbvia de carreira para Rafael, mas levou muito tempo para que ele percebesse isso. Enquanto isso, o escritor passou pelas mais variadas carreiras, mas sempre envolvido, de alguma forma, com arte. Ele é formado em música, com foco em composição e regência, trabalhou um tempo com trilhas musicais para cinema e audiovisual, deu aulas e fez mestrado em audiovisual. “Mas a verdade é que, embora eu adore música e tenha sido muito legal trabalhar com isso, eu tenho um perfil um pouco diferente do que é esperado de um músico bom. Um músico, em geral, precisa ter um lado técnico muito aprimorado, inclusive do ponto de vista físico, e eu não me identifico muito com isso. O que eu gostava na música eu encontro na literatura. Aliás, o que eu gostava nos desenhos animados também”, conta. 

 

Diário da Região

Esperamos que você tenha aproveitado as matérias gratuitas!
Você atingiu o limite de reportagens neste mês.

Continue muito bem informado, seja nosso assinante e tenha acesso ilimitado a todo conteúdo produzido pelo Diário da Região

Assinatura Digital por apenas R$ 1,00*

Nos três primeiros meses. Após o período R$ 19,00
Diário da Região
Continue lendo nosso conteúdo gratuitamente Preencha os campos abaixo e
ganhe + matérias!
Tenha acesso ilimitado para todos os produtos do Diário da Região
Diário da Região Digital
por apenas R$ 1,00*
*Nos três primeiros meses. Após o período R$ 19,00

Já é Assinante?

LOGAR
Faça Seu Login
Informe o e-mail e senha para acessar o Diário da Região.

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para acessar o Diário da Região.