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Diário da Região

13/11/2016 - 00h00min

DETETIVES LITERÁRIOS

Alunos de Bonifácio descobrem sobrevivente do holocausto

DETETIVES LITERÁRIOS

Divulgação Alunos do 9º ano do Sesi de José Bonifácio e a professora de história Janaina Paiva Ono (no centro) com o Hagadá, livro usado na celebração da Páscoa judaica. Após dois anos de imersão na vida dos Rappaport, a turma conseguiu enviar a obra (escrita em alemão e árabe) de volta à família, em Israel. No detalhe, a capa e a dedicatória, ponto de partida de toda a investigação
Alunos do 9º ano do Sesi de José Bonifácio e a professora de história Janaina Paiva Ono (no centro) com o Hagadá, livro usado na celebração da Páscoa judaica. Após dois anos de imersão na vida dos Rappaport, a turma conseguiu enviar a obra (escrita em alemão e árabe) de volta à família, em Israel. No detalhe, a capa e a dedicatória, ponto de partida de toda a investigação

Era uma vez um livro. Um livro que conta a saga de um povo em busca da liberdade. Era uma vez um livro. Um livro que carrega consigo uma história de resiliência, amor e superação. No entanto, tal história não está impressa em suas páginas. Foi construída por aqueles que tocaram suas mãos nele. Era uma vez um livro. Um livro que proporcionou a uma turma de adolescentes uma experiência única e incrível de aprendizado.

A partir de um livro amarelado e envelhecido pelo tempo, alunos do 9º ano da escola Sesi da cidade de José Bonifácio puderam vivenciar na prática uma experiência investigativa repleta de descobertas. Tudo começou em 2014, quando essa turma ainda estava no 7º ano e se mobilizou na arrecadação de livros usados para realizar uma feira no colégio. A atividade fazia parte da disciplina de Vivência de Empreendedorismo, ministrada pela professora de história Janaina Paiva Ono.

Ao realizar a coleta para a feira, a professora e os alunos depararam com um livro antigo, escrito em árabe e alemão, que despertou de imediato a curiosidade de todos. Do que trata esse livro? A quem ele pertenceu? Como ele veio parar em José Bonifácio? Qual o percurso que ele percorreu até ser doado para a feira de livros usados da escola Sesi? Esses e outros questionamentos motivaram a realização de um processo investigativo que levou dois anos, e que terminou na última semana, com o envio do livro para Israel, o lugar onde começou a história que não está impressa em suas páginas.

A Hagadá de Rappaport

Divididos em turmas, os alunos assumiram o papel de detetives, buscando nos moradores da cidade e nas redes sociais as pistas para desvendar o mistério em torno desse livro. Com a ajuda da pequena comunidade judaica de José Bonifácio, eles descobriram que tal publicação se trata da Hagadá, cujo texto é usado nas celebrações da noite do Pessach, a Páscoa dos judeus, e contém a história da libertação do povo de Israel do Egito.

“A Hagadá é um dos livros mais importantes para o povo judeu. A publicação que veio parar em nossas mãos tem 1958 como o ano de edição. É um livro grande, de capa dura, que traz, além dos textos, uma série de ilustrações”, comenta Janaina. Após o esclarecimento sobre o conteúdo do livro, o desafio de professora e alunos era descobrir a quem ele pertenceu e como veio parar na cidade. A aluna que havia levado a Hagadá para o Sesi é filha de um dono de uma loja de móveis usados em José Bonifácio. 

O livro estava dentro de uma cômoda que ele havia comprado para revender. A única pista concreta era o nome grafado na dedicatória do livro: Ariela Rappaport. A partir dele, os jovens detetives partiram para as redes sociais, em busca de Ariela ou de alguém da família Rappaport. Após muitas tentativas (e muitas pistas falsas), eis que o grupo encontrou a irmã da mulher a quem o livro foi dedicado: Regina Rappaport, que já morou no Brasil e atualmente está em Israel.

Extremamente emocionada pelo contato, ela explicou que o livro pertenceu a seu pai, Fredy Rappaport, um judeu que, na infância, viveu na pele os horrores da perseguição nazista, encontrando no Brasil, na década de 1950, o refúgio para a construção de seu novo lar. Ao mesmo tempo em que se mostrou desejosa por ter o livro que pertenceu a seu pai novamente em suas mãos, Regina desconfiou do contato feito pela turma de José Bonifácio. E essa desconfiança interrompeu o processo investigativo.

“Acabamos perdendo o contato com ela e ficamos angustiados por isso. Ainda havia mistérios a serem revelados. Talvez ela (Regina) tenha considerado invasivo o nosso contato”, recorda a professora. O desfecho dessa emocionante investigação deu-se neste ano, quando, na disciplina de história, os alunos começaram a estudar a Segunda Guerra e o holocausto. “O assunto do livro acabou voltando à tona na sala de aula, e decidimos investir novamente na investigação para podermos construir a biografia de seu dono.”

Desta vez, o retorno da família foi mais positivo. Por meio de um dos netos de Rappaport, David Nissin Rappaport, os jovens puderam aparar as últimas arestas desse mistério, estudando sobre a cultura e a história do povo judeu de uma forma única. “E isso aconteceu justamente no ano em que o tema da redação do Enem foi sobre intolerância religiosa. Os judeus são um povo historicamente perseguido por sua religião, e a experiência vivida por Fredy Rappaport configurou-se num grande e transformador ensinamento para os alunos”, diz Janaina, que garante ter vivido através do mistério da Hagadá sua maior experiência como educadora.

 

Alunos do 9º ano do Sesi de José Bonifácio 2 - 12112016 Montagem da biografia: dos campos nazistas para o Brasil

Fredy Rappaport viveu horrores da guerra

Mais que detetives, os alunos da 9ª série da escola Sesi da cidade de José Bonifácio desempenharam com sucesso o papel de historiadores. E o desfecho desse trabalho deu-se com a criação da biografia de Fredy Rappaport, a quem pertenceu a Hagadá que surgiu misteriosamente no colégio. Fredy Rappaport era filho único de uma família judaica de classe média alta. Nasceu em 22 de dezembro de 1928, na Bucovina, região que antes da Primeira Guerra pertencia à Áustria e, depois, passou a integrar a Romênia, aliada da Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

Aos 9 anos, após a perseguição nazista, ele foi enviado para um campo de concentração junto com seu pai, Leon Rappaport, que tinha uma fábrica de perfumes e sabonetes. A mãe, a dona de casa Regina Rappaport, foi enviada para outro campo. No campo de concentração, pai e filho chegaram a comer casca de batata para poder sobreviver. Após um tempo, o pai foi morto com um tiro na frente do filho por ter se atrasado em um minuto para voltar ao alojamento após o trabalho. Seu corpo nunca foi enterrado de forma digna.

Com a rendição da Alemanha, mãe e filho se reencontraram. Porém, Regina já estava com o coração debilitado pelos horrores que havia passado, vindo logo a falecer. Após a guerra, Fredy refugiou-se em Israel, onde, após quatro anos de separação, reencontrou Sarah, uma antiga namorada, cuja família também havia sido perseguida pelos nazistas. Os dois se casaram e, devido à pressão árabe e a iminentes guerras, decidiram vir para a América, temendo que um novo holocausto pudesse ocorrer.

O casal veio para o Brasil em 1958 e permaneceu junto por 58 anos. Estabeleceu-se em São Paulo, no bairro do Bom Retiro, onde a comunidade judaica se concentrava na época. Em 1961, Fredy criou a Parati Industrial, uma das maiores empresas do setor têxtil do Brasil. Ele chegou a gravar depoimento para o Instituto Spielberg que ajudou na produção do filme A Lista de Schindler (1993). Fredy morreu em 2007; Sarah, em 2009. Estão enterrados em São Paulo: ele no cemitério israelita de Embu e ela no Butantã. 

 

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