Diário da Região

20/07/2004 - 01h13min

Parlatório

Hamlet depois de Hiroshima

Parlatório

A história do atormentado príncipe shakespeariano ganhou surpreendente adaptação levada ao palco do Teatro Municipal pelo grupo T. Factory, de Tóquio, Japão, sob a direção de Takeshi Kawamura. Mesmo ainda sem ter visto o que virá a seguir, não hesito em considerar essa encenação um dos pontos altos da dramaturgia do Festival Internacional de Teatro (FIT) 2004. Apesar de falada em japonês, com algumas legendas em inglês projetadas no telão no fundo do palco, esse Hamlet nipofalante consegue passar uma visão multifacetada da sociedade japonesa do pós-guerra, tendo o bombardeamento atômico de Hiroshima (6 de agosto de 1945), como marco inicial de uma enorme e brutal transformação social e cultural ocorrida no país.

O Japão imperial, dos bravos samurais, do paciente ritual dos lutadores de sumô, das gueixas encantadoras e dóceis das casas de chá e de outras tradições milenares, sofreu violenta agressão externa, que lhe impôs uma nova Constituição, na qual foi poupada apenas a figura simbólica do Imperador, referida já no 1º artigo, mas com funções drasticamente limitadas pelo artigo 4º, que enfatiza que ele "não possui quaisquer poderes de governo". O impacto da cultura americana e suas conseqüências na sociedade japonesa dos últimos 50 anos atormentam esse Hamlet nipônico pós-moderno. Sua perplexidade com o que está ocorrendo ao redor tem a mesma tragicidade heróica vivida pelo seu modelo inspirador há 400 anos. As relações familiares esgarçadas, a perda da identidade nacional, o ketchup e os McDonald´s no cotidiano das pessoas, o aloiramento dos cabelos negros copiados dos padrões de Hollywood, o uso abusivo dos celulares, enfim, toda a invasão sutil e por vezes perversa da cultura americana no chamado país do sol nascente.

Tudo isso é passado ao espectador num ritmo alucinante e contínuo que capta sua atenção durante os 80 minutos de duração do espetáculo. Num mundo enclausurado (a prisão é a grande metáfora do texto), representado pelo uso de requintada técnica de dramaticidade, o público também se questiona perplexo nesse turbilhão de cores, sons, luzes, falas entrecortadas e incompreensíveis, recheadas de ironias, risos e lamentos. A encenação valorizou bastante a atuação dos treze atores que se multiplicam numa extraordinária polifonia de Hamlets e Ofélias. Conscientes de que falavam uma língua que quase ninguém entendia, a não ser os imigrantes e descendentes, que compareceram em bom número, os atores se esmeraram na plasticidade dos movimentos e expressões corporais.

Nesse sentido, até o desconhecimento da língua se constitui em mais um rico componente para traduzir a angústia da personagem solitária em sua incessante busca da liberdade e da paz interior. Em síntese, o grupo T. Factory dignificou o FIT, trazendo um Hamlet flagelado no Japão de hoje, mas que ganha dimensão universal; podendo ressurgir num pós 11 de Setembro ou no Iraque nos dias que correm. A arte sempre sobreviverá às atrocidades humanas, mesmo depois de Auchschwitz. Gentil de Faria é professor titular de literatura inglesa na Unesp, campus de Rio Preto.

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