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Diário da Região

19/08/2016 - 09h00min

Há 80 anos, Lorca era assassinado por fascistas

Dia 19 de agosto de 1936, o poeta e dramaturgo Federico García Lorca foi assassinado pelas falanges fascistas. As circunstâncias precisas de sua morte continuam envoltas em mistério. Tanto assim que um inquérito acaba de ser aberto pela juíza María Romilda de Cubria, que faz anos investiga violações dos Direitos Humanos na Espanha durante o franquismo. A investigação coincide com os 80 anos de morte do poeta e também com a descoberta de novos documentos que podem esclarecer as circunstâncias em que foi executado e o local onde repousam seus restos. Um informe da chefatura de polícia de Granada fornece dados oficiais do franquismo às circunstâncias de sua prisão e assassinato. De acordo com o documento, ele era acusado de ser "socialista e maçom", além de dado a "práticas de homossexualismo, aberração que chegou a ser vox populi (de conhecimento geral)". Lorca teria sido detido, conduzido ao calabouço e, na madrugada do 19, levado de automóvel até um local chamado Fuente Grande, onde foi "passado pelas armas", junto a um professor desconhecido e dois anarquistas. Tinha então 38 anos. Esse tipo de investigação não é muito bem-vindo numa Espanha que, após 40 anos de ditadura fascista, se redemocratizou e procura olhar para o futuro, colocando uma pedra de silêncio sobre o passado. Passa-se o mesmo em outros países. Ruy Barbosa propôs queimar os documentos relativos à escravidão. Os crimes da ditadura militar de 1964-1985 continuam impunes para não "reabrir velhas feridas". O silêncio sobre sua morte não impediu que a obra de García Lorca fosse das mais celebradas ao longo do século 20 e assim continua até hoje. Nascido em Fuente Vaqueros, Província de Granada, em 5 de junho de 1898, Lorca participou de um grupo de poetas conhecido como "geração de 27", do qual faziam parte nomes como Jorge Guillén e Rafael Alberti. Foi amigo do cineasta Luis Buñuel e do pintor Salvador Dalí, que conheceu em Madri. Andaluz, Lorca não poderia deixar de se influenciar pela rica cultura da região. Ela está na origem de uma de suas obras maiores, o Romancero Gitano. No entanto, com o sucesso rápido, Lorca viu-se preso ao rótulo de "costumbrista", que poderíamos traduzir como "folclórico". Seria alguém profundamente ligado às coisas da terra, aos costumes e às artes populares. Em seu caso ao folclore andaluz, sem visão do universal. Isso o incomodava. Dizia que os ciganos eram apenas um tema, e poderia escrever sobre outros. Não queria ser aprisionado em etiquetas e sua ampla cultura o empurrava mais para o universalismo. Decidiu viajar para os Estados Unidos e viver algum tempo por lá. O livro Poeta em Nova York foi publicado apenas após sua morte. O fato é que sua obra sempre viajou bem - e não apenas com passaporte do idioma espanhol. O que não teria acontecido caso fosse autor apenas regional. Se o rótulo o incomodava, hoje a questão regional x internacional parece mais bem resolvida, na definição simplificada que passa pela fórmula de Tolstoi: para ser universal o artista deve falar de sua aldeia. Além do mais, a espetacular arte cigana não deixa ninguém indiferente, menos ainda um andaluz como Lorca. Culto e de horizontes amplos, tomava esses ricos elementos gitanos como pontos de partida para uma arte de reverberação universal. Por exemplo, na oposição inconciliável entre o modo de ser cigano e o da sociedade burguesa, o que empresta a essa poesia uma tonalidade política. Suas peças gozam de prestígio idêntico - e talvez até maior - que sua poesia. Bodas de Sangue (1933), Yerma (1934) e A Casa de Bernarda Alba (1936) estão entre os textos mais encenados de todo o mundo. E também filmados. Bodas de Sangue deu origem a dois filmes homônimos, de Edmundo Guibourg, em 1938, e de Carlos Saura, em 1981. O mesmo para Casa de Bernarda Alba (Mario Camus, 182) e Yerma (Pilar Távora, 1998). Ano passado, a cineasta Paula Ortiz fez uma versão livre de Bodas de Sangue intitulada La Novia, com a bela Inma Cuesta no papel principal. Após 80 anos, Lorca continua vivo em sua obra. Ignora-se o nome de quem o assassinou. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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