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Diário da Região

25/01/2017 - 00h00min

JANEIRO CINZA

Grafiteiros de Rio Preto repercutem a cruzada do prefeito de São Paulo

JANEIRO CINZA

Sergio Isso/Arquivo Edson Ramos considera a atitude de Doria tiro no pé
Edson Ramos considera a atitude de Doria tiro no pé

A tinta cinza passada pelo prefeito de São Paulo, João Doria, em cima de murais da Avenida 23 de Maio respingou sobre grafiteiros de todo o País. Para eles, a cruzada de Doria contra as pichações na capital paulista configurou-se como o maior atentado contra a arte de rua da história do Brasil. “É algo que mexe com toda a classe. Perdemos a referência de maior mural grafitado da América Latina”, comenta o grafiteiro Edson Ramos, de Rio Preto, referindo-se a um mural de 15 mil metros da Avenida 23 de Maio que foi pintado em 2015, por mais de 200 artistas, entre eles Os Gêmeos, Nina Pandolfo, Nunca, Finok e Zefix.

O rio-pretense considera a atitude de Doria um ‘tiro no pé’, já que os muros cinzas de agora vão virar uma lousa para os pichadores. “É uma guerra difícil de ganhar. A resposta das ruas vem rápido. O muro é de quem chegar primeiro.” Para o grafiteiro Edgard Andreatta, de Votuporanga, o artista de rua acabou pagando o preço de uma briga política. “Boa parte do que foi coberto é produção feita na gestão de Fernando Haddad (ex-prefeito de São Paulo). Foi tudo feito de forma arbitrária, sem um diálogo com a galera que faz arte nas ruas”, critica.

 

Grafiteiro Pecks - 25012017 Contratado pela Prefeitura, Pecks cobre de cores viaduto em Rio Preto

O grafiteiro Pecks, também de Rio Preto, diz se sentir chocado com uma agressão desse tipo contra a arte de rua, principalmente no momento de crise social e política que vive o País. “Em Londres, se alguém é pego apagando um grafite, é preso. A gente ainda está com os pés fincados no terceiro mundo. As pessoas não entendem que a arte é composta de dezenas de manifestações. E o pior: o gesto negativo parte do próprio poder público.”

Pecks destaca ainda que a arte de rua não é apenas o grafite ou a pichação. “Arte de rua também é o cara de que faz malabarismo no sinal, o que faz estátua viva e o que toca e canta. Só espero que esses artistas não sejam perseguidos também.” Outro aspecto negativo apontado pelo rio-pretense é que a atitude de Doria acabou dividindo a opinião das pessoas sobre o que é grafite e pichação. “É uma tarefa difícil para o artista de rua romper com o estigma do vandalismo. Quando acontece algo desse tipo, fica mais difícil ainda”, lamente Pecks.

Tapume vai virar obra de arte

Longe do cinza da capital paulista, Rio Preto se colore através das manifestações dos grafiteiros. E a mais recente delas parte da iniciativa privada. A empresa Tarraf escalou os grafiteiros Edson Ramos, de Rio Preto, e Fábio de Almeida, o Does, de São Paulo, para conceber um mural no tapume de duas torres residenciais que estão sendo construídas na Avenida Juscelino Kubitschek. O trabalho será executado neste sábado e domingo, 28 e 29.

 

Mural da Avenida 23 de Maio - 25012017 Mural da Avenida 23 de Maio, na Capital, contava com obras de artistas como Os Gêmeos: no detalhe, o muro coberto de cinza

“Achei a iniciativa muito bacana. E o melhor, eles nos deram liberdade total para criar”, comenta o grafiteiro rio-pretense. 
Apesar de já ter trabalhado ao lado de Does, Ramos diz que esse será o primeiro painel de grande proporção concebido pelos dois. O tapume conta com 120 metros quadrados. A última parceria entre os dois foi em 2016, em Rio Preto, quando eles integraram o time de grafiteiros selecionados para dar colorido especial ao novo viaduto da Avenida Fortunato Ernesto Vetorasso.

O mural vai unir as figuras abstratas de Ramos aos elementos com letras de Does, que ficou conhecido nacionalmente ao ter sua arte estampada em um frasco de perfume da marca Natura. Trazendo no currículo uma exposição em Nova York e uma parceria com uma marca de tênis, que já rendeu a criação de 11 estampas exclusivas, Ramos destaca que Rio Preto é um celeiro de bons grafiteiros. “A cidade tem muitos talentos, mas não é todo mundo que conhece. Eu mesmo já viajei muito com o grafite”, diz. 

análise

Moralismo sobre a ‘pele’ das cidades

juny-kp!

O homem deixa marcas em seu ambiente desde os tempos pré-históricos. Dito isso, qualquer conversa moralista sobre marcar a cidade, seja com as caligrafias do pixo (com x), seja pelas cores do graffiti e do muralismo, é simples falta de conhecimento e de leitura de mundo. Precisamos refletir sobre a importância do pixar e colocá-lo no mesmo patamar do grafitar enquanto linguagem e expressão no que chamo de ‘pele da cidade’. 

Embora as pessoas tendam a preferir a estética do graffiti, não há hierarquia entre essas duas ações no âmbito da rua, a não ser a de quem chegou primeiro no espaço. Pixar é a voz do jovem periférico, é a manifestação de sua existência; pixar é marcar a cidade, assim como quando marcávamos o caderno, marcávamos a carteira escolar. Pixar é alcançar espaços sociais negados. O que muda aqui é a escala. O Brasil é único em sua caligrafia. Se há pixação, é porque há desigualdades sociais e econômicas extremas.

Explorar um assunto que não é de domínio do eleitorado me parece uma estratégia de marketing, e com poder explosivo que gera polarização e cria massa de defesa para legitimar sua inusitada posição de prefeito. Juntamos a isso uma população que não sabe distinguir graffiti de pixação, e que entra em defesa do conceito de belo (tão subjetivo), sem perceber que, assim, mais uma vez, corrobora com a privação desses jovens da cena artística e cultural e de contextos sociais privilegiados. 

Antes de preservarmos a ferro e fogo os patrimônios materiais da cidade, pintando a cidade de cinza, por exemplo, deveríamos primar pelo patrimônio Humano. Gente antes de coisas. Garantindo acesso à educação, saúde e logística de qualidade. Combatendo a desigualdade social extrema que assola tanto a capital São Paulo, quanto os mais diversos rincões do país. Quanto ao graffiti, o Brasil é fértil em diversidade, qualidade e reconhecimento.

São tantos os nomes que seria injusto evidenciar algum aqui. Temos tradição de quatro décadas, desde Vallauri. Acredito ser necessário, sim, dar voz aos artistas protagonistas das pinturas da 23 de Maio, e pressinto que ele fará um novo ‘festival de graffiti’ sobre sua gestão. Para mim, como artista visual e urbano, a única resposta aceitável seria NÃO PARTICIPAR.

juny-kp! é artista visual, professor e diretor criativo do escritório de arte Casa de Criar

 

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