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Diário da Região

11/10/2016 - 00h00min

DOÇURA INCISIVA

Crítica marca Outra Esfera, novo disco da rapper Tássia Reis

DOÇURA INCISIVA

Kelvin Yule/Divulgação ‘Talvez algumas pessoas só irão entender o que quero dizer se eu gritar’, diz a rapper Tássia Reis
‘Talvez algumas pessoas só irão entender o que quero dizer se eu gritar’, diz a rapper Tássia Reis

“Eu tentei falar baixinho, mas ninguém me ouviu. Eu tentei ir com carinho e o sistema me agrediu. Então, eu grito, elevo o meu agudo ao infinito”, diz Tássia Reis em um trecho de Ouça-Me, música do seu disco mais recente, Outra Esfera, lançado neste mês. E essa frase resume bem o sentimento da cantora e rapper sobre o novo trabalho.

“É um trabalho mais incisivo. Meu primeiro EP também era questionador, mas como eu cantei com a minha voz mais doce, talvez algumas críticas e questionamentos tenham passado despercebidos. Então, nesse disco, vim com todas as minhas características (doçura e poética), mas tentando ser mais incisiva. Talvez algumas pessoas só irão entender o que quero dizer se eu gritar. Ouça-Me fala disso. Ela vem como um grito que está guardado na garganta”, explica Tássia em entrevista ao Diário.

No entanto, ela garante que o novo trabalho não é um desvio do que vinha sendo feito antes, mas, sim, uma evolução. “Demos um passo à frente em relação ao primeiro EP. Acho que podemos descrever como uma continuação, não uma mudança”, pontua.

O avanço também é sentido na produção. Tássia e os produtores do disco ousaram mais na sonoridade, prevalecendo as melodias instrumentais sobre os elementos eletrônicos.

O projeto ganhou forma no fim do ano passado, quando Tássia começou a escrever algumas músicas. No início deste ano, ela percebeu que elas tinham uma conexão.

“É um contexto bem reflexivo, com uma boa dosagem de autoanálise. É minha reflexão sobre questões como feminismo, racismo, assuntos que nos afetam e como podemos seguir a partir daí.”

A intenção do trabalho, segundo ela, é tentar tirar o medo natural que as pessoas têm de viver, de prosseguir. “Um outro olhar, um olhar pouco mais profundo de si mesmo, mas querendo questionar o mundo e as condições também. E ser incisiva também é importante para que as pessoas ouçam.”

E Tássia não tem medo de bater de frente com a sociedade machista e racista, marcando seu espaço como mulher negra oriunda da periferia.

“Fico feliz de ser um espelho para muitas mulheres, de mostrar que conseguir alcançar, mesmo que a unhas e dentes, meu espaço com meu trabalho e meu próprio investimento”, diz.

Apesar dos passos dados, ela acredita que esse é um debate ainda delicado para a sociedade, que não está preparada para o choque feminista e negro ao mesmo tempo.

“Se as pessoas não estão dispostas a mexer em seus privilégios para que a sociedade como um todo tenha acesso aos seus direitos, isso significa que a gente está em uma sociedade caótica. Mas acho que estamos em um momento importante, em que muitas frentes estão se posicionando. E ter contato com todas essas frentes fortalece várias causas diferentes. As causas LGBT, a luta do movimento negro, a luta do movimento feminista, a luta do movimento negro feminista. Em vários pontos essas causas se encontram, então, porque não avançarmos de uma maneira que seja legal para todo mundo. É uma proposta que ainda estamos tentando entender, mas é uma realidade. E esses encontros já acontecem.”

Uma voz projetada pela internet

O rap e o hip hop começaram a ganhar espaço na vida de Tássia Reis quando ela tinha 14 anos, durante um curso de danças urbanas em sua cidade natal, Jacareí. 

Mas a música já era parte da vida dela. Seu primeiro contato musical foi em casa, com a mãe, que sempre gostou de cantar e dançar. O pai também tinha essa paixão, e o irmão foi quem apresentou o rap nacional para a cantora.

No entanto, Tássia não pensava em ser rapper. Ela começou a escrever com a intenção de colocar no papel seus sentimentos. Quando se mudou para São Paulo, para estudar moda, sua produção aumentou ainda mais.

Quando terminou o curso de moda, ela se voltou para a música pela falta de oportunidade no ramo em que se formou. “O mercado de trabalho é bem complicado para uma garota negra. Nas entrevistas que fazia, geralmente eu era a única negra e não conseguia nenhuma. As pessoas podem achar que isso é coincidência. Eu não acredito. Eu não conhecia ninguém para me indicar, o que me colocava na última instância. Não consegui nem estágio. Então, não foi difícil optar pela música, onde eu não tinha que ser aceita. Eu precisava produzir e gerar conteúdo”, conta.

Tássia tem muito a agradecer à internet, que não permite apenas que o artista independente conquiste seu espaço, mas que também proporciona às mulheres um meio de crescerem e serem vistas em um gênero antes dominado pelos homens. 

“A internet nos deu esse lugar de fala, sem ter o intermediário para dizer se podemos ou não. Ali podemos produzir nosso próprio conteúdo, divulgar nosso trabalho, conhecer outras mulheres do rap, acessá-las. Acho que o avanço está na tecnologia. Ela que possibilita que as mulheres estejam avançando.” 

Rapper acumula boas parcerias

Tássia Reis já cantou com Marcelo D2, gravou com Izzy Gordon, fez shows com a banda de jazzrap Mental Abstrato, foi para o universo das rimas femininas com o projeto Rimas e Melodias e recentemente gravou duas músicas com Liniker no álbum de estreia do cantor com a banda Os Caramelows, o Remonta.

“Conheci a Liniker no ano passado, em uma festa, e ficamos amigas. Ela ainda morava em Araraquara. A gente começou a conversar pela internet e a compor. Foi muito natural. Parecia que a éramos as mais novas melhores amigas do jardim de infância. Fiquei muito feliz de participar desse primeiro disco dela, com essa proposta de dançar, mas que também traz o empoderamento e a brincadeira que a gente gosta de fazer com a poesia.”

Ao ser questionada sobre com quem ela ainda gostaria de colaborar, Tássia ri e diz ter até vergonha de falar, por achar que está sonhando alto demais. “Seria uma honra fazer algo com a Elza Soares e com o Milton Nascimento. Acho que estou ousada, mas quem sabe não dou sorte?” 

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