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Diário da Região

20/03/2016 - 00h00min

RODRIGO LOMBARDI

‘Ator é operário: faz cenas por atacado’

RODRIGO LOMBARDI

Caiuá Franco/TV Globo/Divulgação/Estadão Conteúdo Rodrigo Lombardi em cena de Velho Chico: galã ‘desapegado'
Rodrigo Lombardi em cena de Velho Chico: galã ‘desapegado'

A profissão de ator tem obrigações como qualquer outra: é preciso acordar cedo, cumprir uma extensa carga horária e sofrer com armadilhas como o sol quente em dias de externas ou a longa espera entre uma cena e outra. Mas Rodrigo Lombardi garante que tudo vale a pena. Principalmente quando se tem nas mãos uma história que pode gerar uma reflexão mais profunda.

É o caso do Capitão Ernesto Rosa, de Velho Chico, que luta para defender a população mais sofrida de Grotas de São Francisco. E, exatamente por isso, ele se despede da trama já no oitavo capítulo, quando o dono da fazenda Piatã é assassinado. Nesta entrevista, Lombardi fala sobre sua satisfação com esse trabalho e de como valoriza os papéis que o tiram da posição de galã na TV.

 

Pergunta - Como está encarando este novo personagem?

Rodrigo Lombardi - O Ernesto é um capitão de formação militar que chega em uma cidade dominada por coronéis de formação. Nessa época, os coronéis tinham permissão para comprar esses títulos para defender suas terras em lugares em que a polícia não chegava. Só que, junto com isso, vinha um poder e uma opressão sobre o povo local. Tiravam proveito de tudo e de todos. Ernesto não concorda com esse sistema e começa a querer botar na cabeça das pessoas que isso é errado, que eles podem se livrar desse cabresto. Esse comportamento gera um desconforto para o poder local, exercido pelo coronel Jacinto (Tarcísio Meira). Trava-se uma briga de famílias e de forças que culmina em um romance e se transforma no folhetim clássico que a gente conhece. Só que com pegada mais épica, cheio de planos abertos e sequências incríveis.

 

Pergunta - Muitas pessoas acham que tirar o horário nobre do eixo Rio-São Paulo e apostar em um romance mais clássico era o que a faixa das 21h merecia. Qual sua opinião sobre isso?

Lombardi - Acho que essa novela mistura o universo lírico e lúdico com a realidade. Com o passar dos últimos anos, perdemos um pouco nossa identidade. Estamos correndo atrás do prejuízo porque a gente esquece quem é. Velho Chico resgata isso, mostra uma brasilidade que, às vezes, deixamos de lado por achar que, por vivermos num mundo onde tudo acontece ao mesmo tempo, precisamos pensar apenas em consumir, ganhar, vencer... Mas o Brasil não é só das grandes metrópoles. É um país de agricultura. Sempre foi e sempre vai ser, e é disso que Velho Chico fala também.

 

Pergunta - Você tem sido muito requisitado como galã na TV. Como encara um personagem como esse, em que essa função não está incluída?

Lombardi - Vaidade é algo que um ator não pode ter. E meu trabalho na TV é mais antigo, eu vim da comédia e do teatro. Sou um profissional de composição de personagens. E o grande barato entre um trabalho e outro é se desconstruir. Quando chega o momento de se despedir de um personagem, essa ‘desintoxicação’ às vezes é prazerosa, em outras é mais difícil e dolorosa.

 

Pergunta - Como funcionou esse processo quando você precisou se despedir do Alex, de Verdades Secretas?

Lombardi - Foi prazeroso porque mexia com uma energia que eu não gostava, mas que precisava acessar ou perderia minha função ali. Às vezes você vai construir um papel e, depois, não consegue olhar para trás e dizer quando ele nasceu. É o caso do Ernesto. Eu não sei quando parei a minha vida pra começar a olhar pra ele. Quando vi, já estava envolvido.

 

Pergunta - Você fez questão de frisar que veio da comédia e do teatro. O rótulo de galã incomoda?

Lombardi - Ah, já me incomodou. Hoje, não. É uma coisa que as pessoas falam e o que as pessoas falam, é delas. Não é uma regra que vou adotar no meu trabalho. Não dá pra pensar nessas coisas, eu me concentro no que eu tenho de fazer. O próprio Luiz Fernando Carvalho me deu a possibilidade de sair desse lugar em Meu Pedacinho de Chão, de voltar para a minha raiz e explorar bem a expressão corporal, a voz...

 

Pergunta - Você é um dos atores mais requisitados atualmente e, mesmo assim, parece conseguir não se afetar pelo grande assédio da mídia. Como você encara a fama?

Lombardi - Acho uma bobagem. Entendo que as pessoas têm de preencher uma página por dia de notícias e, quando não têm, precisam fazer alguma coisa. Se não estou trabalhando, gosto de ficar em casa. Dificilmente você me vê passeando e não é por nada, é que eu prefiro ficar no meu canto. Trabalho tanto que consegui construir uma casa onde eu gosto de ficar. Existe uma inversão de valores hoje, acham que nossa vida é puro glamour, mas ator é operário. Fazemos cenas por atacado.

 

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