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Diário da Região

18/02/2015 - 01h44min

Ocupação Silenciosa

Ativistas negros estimulam debate sobre desigualdades nas artes

Ocupação Silenciosa

Omar Khouri/Divulgação Peter de Brito (o mais alto na foto) junto a outros artistas na galeria Millan, em São Paulo
Peter de Brito (o mais alto na foto) junto a outros artistas na galeria Millan, em São Paulo

Com uma série de performances silenciosas, um grupo de artistas e ativistas negros está estimulando o debate sobre as desigualdades nas artes e a segregação nos espaços culturais, especialmente na cidade de São Paulo. Batizada de "A Presença Negra", a ação tem como um dos idealizadores o artista visual Peter de Brito, de Gastão Vidigal, radicado na Capital.


Ela consiste na visitação - por um grande número de afrodescendentes - a galerias de arte, museus e outros espaços culturais em dias de abertura de exposições, onde o público habitual, via de regra, é em sua maioria branco. A primeira ação-performance foi em outubro, na galeria Luisa Strina. Neste mês, o projeto ganhou repercussão nacional, depois que a "Folha de S. Paulo" cobriu a performance na galeria Millan.


Brito conta que, a partir de seu incômodo com a ausência de negros nas aberturas de exposições, pensou em fazer uma ação, e convidou outro artista visual, Moisés Patrício, para elaboração de uma estratégia. A partir de uma página numa rede social, começaram a convidar artistas, pesquisadores, jornalistas e outros agentes ligados às artes.


"Nosso objetivo é promover encontros em vernissages, aproveitando essa oportunidade para gerar um movimento de combate às desigualdades nas artes e ganhar força por meio da sabedoria coletiva, e também incentivar a visitação a espaços culturais - ocupar espaços que também são nossos, de direito. Outro ponto é elaborar uma fórmula mais eficiente de mapeamento e difusão das produções e pensamentos de artistas contemporâneos negros", diz.


Brito explica que a visitação ocorre pura e simplesmente, ou seja, sem qualquer manifestação de bandeiras, apenas com a presença dos artistas negros nos espaços, interagindo com os convidados. "A apreciação é o mote da ação". O foco são as galerias de maior prestígio, e a escolha das exposições se dá pelo tema. A ação também já ocorreu nas galerias Mendes Wood, Fortes Vilaça, White Cube e no Centro Histórico e Cultural Mackenzie.


"Não notamos, propriamente, discriminação ostensiva, porém, houve quem se sentisse constrangido com certos olhares nas galerias. Em uma delas, foi criada a situação mais constrangedora, pois a fotógrafa foi orientada a não fazer o registro de nossa presença", conta o artista. "A simples presença de negros em espaços onde não são esperados causa estranhamento e questionamentos, deixando claro o racismo disfarçado."


A ação já possibilitou o contato com outros artistas, bem como a iniciativa de pensarem mais projetos juntos. "Esperamos que outras pessoas se mobilizem e iniciem ações parecidas em todo o Brasil." Em Rio Preto, um dos que se interessaram na proposta é o artista primitivista Daniel Firmino.


Ele observa que são pouquíssimos os artistas negros que conseguem mostrar sua produção em grandes galerias ou em exposições como a Bienal, e conta que já foi aconselhado a tirar personagens negros de suas telas para torná-las mais "vendáveis". "Acredito até que a arte primitivista sofra preconceito por concentrar muitos criadores negros."


Integrante do grupo, a artista visual Renata Felinto observa que não se trata da busca por uma visibilidade desesperada. "Trata-se de artistas que desejam apreciar arte de outros e de seus pares de cor, em espaços de exibição de arte e, ao mesmo tempo, identificar fragmentos de sua história coletiva, de sua identidade. O sistema de arte que erigiu-se no Brasil não pode mais ignorar essa demanda", avalia.

Johnny Torres Daniel Firmino diz que já foi aconselhado a tirar figuras negras de suas telas para tornálas mais vendáveis

Análise

Aprendemos a pensar e a fazer política

Linaldo Telles

Estão faltando mesmo festas estranhas com gente esquisita para ficar legal, para desnaturalizar o olhar. Essa ideia de gente invisível imposta pela sociedade já se tornou brega. E quanto mais nós, negros, nos incomodamos com os hipócritas e fascistas, mais perdemos a força.

Esse movimento tem algo de especial quando propõe um posicionamento pacífico e sutilmente irônico. Gosto dessas iniciativas que apresentam o negro ocupando, ao lado do branco, o espaço da festa. Numa integração natural, porque é natural. Queiram ou não, é natural.

Pisamos hoje em um terreno mais fértil e diferenciado com relação ao passado, e isso é uma conquista que vem dos próprios excluídos. Nós, negros, não esperamos por uma intervenção divina para isso acontecer, partiu da consciência e dos direitos. Isso pressupõe força, liderança e estratégia. Como disse Caetano: "Mamãe sempre disse para eu pedir licença, mas nunca deixar de entrar."

A importância de proliferar essas manifestações "performáticas" em espaços culturais e alternativos se dá justamente para esclarecer que aprendemos a pensar e a fazer política. Deixamos o trabalho servil para ocupar comandos. Hoje, o negro não é mais um personagem secundário ou um títere no cenário mundial, embora tímido ainda. É fundamental a persistência e a continuidade permanente de ocupação, até deixarmos de ser tema.

Linaldo Telles é ator e diretor de teatro, figurinista e cenógrafo

Racismo legitimado historicamente

Cláudia Prestes

Ao observar depoimentos de artistas participantes da performance "Presença Negra", vejo-os descrevendo espaços culturais da capital paulista como excludentes e elitizados. Infelizmente, tal descrição se aproxima da que percebo em nossa cidade. Para mim, que trago na consciência, na identificação, no andar, no vestir, nos cabelos crespos - ora livres, ora turbantados - mas principalmente no tom da pele, a certeza de que descendo daqueles homens e mulheres que chegaram ao Brasil através do rapto nos tempos da escravidão, a situação dos negros e negras nos espaços artísticos e culturais desta cidade é nítida: artistas e público são formados por maioria branca.

Negros também podem ser vistos nestes espaços, mas estão em sua maioria, quando não na totalidade, a trabalho. É facilmente observável! Basta 'ir com olhos de ver'. A produção temática ou de artistas afrodescendentes é comum em mostras comemorativas no Mês da Consciência Negra. Em outros momentos do ano? Difícil! O Brasil foi formado relacionando diferentes grupos e origens étnicas, mas é obvio que em toda a história e desenvolvimento do Brasil, dentre variadas formas de desigualdades e violências, o racismo é uma das mais, senão a mais gritante.

É um racismo legitimado historicamente e até mesmo fundamentado pela omissão de nossas escolas, que "invisibilizam" a História, a geografia, manifestações artísticas, filosóficas, as ciências relacionadas ao continente negro. Isso dificulta até mesmo que muitos negros e negras sejam, ou queiram ser, reconhecidos como tal. Anterior mesmo à negação da cultura daqueles que vieram escravizados do continente africano para o Brasil, é a negação da própria história da África.

Sequer somos provocados a refletir sobre a real importância dos afrodescendentes na construção da sociedade brasileira, bem como da diversidade como algo positivo para nós, construindo, assim, uma identidade social saudável e pessoas capazes de, além de ver, empenharem-se em eliminar qualquer tipo de discriminação e conflito em decorrência de quaisquer que sejam as diferenças.

Cláudia Prestes é artista, professora, militante do movimento negro e feminista, pesquisadora de história, arte e cultura afro-brasileira e africana e educação das relações étnico-raciais






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