Diário da Região

08/09/2013 - 00h47min

Santo ucraniano

São Valdomiro, o grande

Santo ucraniano

Reprodução Desenho de São Valdomiro, publicado na internet
Desenho de São Valdomiro, publicado na internet

Em terra de São José, São Valdomiro é um ilustre desconhecido. Não se sabe bem por quê, mas o santo ucraniano sem imagem e folhetim nas lojas religiosas de Rio Preto veio dar nome a uma rua do Jardim Santa Catarina. O resultado é que, apesar de em seu país de origem ser “O grande”, “governador dos católicos”, por aqui nem mesmo a mais fervorosa religiosa moradora da rua é devota do santificado ou, ao menos, sabe quem ele é. Nas orações de Aparecida Pacheco Paschoaline estão São Marcos, São Judas, Santo Expedito, Santa Luzia, Santa Edwirges, São José, Santa Rita de Cássia. Nada de Valdomiro.


Nem mesmo quanto ao nome do santo há concordância em terras rio-pretenses. Nas duas placas que localizam a pequena rua, de 300 metros divididos em três quadras, a grafia confunde. “São Valdomiro”, diz uma. “São Valdomyro”, com um quê de gringo, diz a outra. No registro oficial, aquele que consta nos autos da Prefeitura, nem um, nem o outro. O nome oficial é São Valdomir. Pudera! O nome do santo ucraniano é mesmo de confundir: Volodymyr, grão-príncipe. A Prefeitura já avisa que vai corrigir tantos equívocos.


Vai ver é mesmo covardia colocar um santo lá da Europa Oriental para competir com outros tantos milagreiros que já são imagem certa no altar do rio-pretense, entre eles o nosso São José. Aquele que dá nome à cidade e aquele que dá nome ao colégio onde estudaram, estudam ou vão estudar boa parte dos moradores da São Valdomiro. A rua começa em um dos muros do Colégio São José, que nos relatos dos moradores mais antigos, chegou ao bairro antes mesmo das primeiras casas estarem prontas.


Não há como saber de quem foi a ideia de batizar a rua, já que quando a prefeitura loteou o bairro, que era uma fazenda da família Mançor Daud, as vias já vieram batizadas. A rua São Valdomiro, que fica em bairro nobre, é marcada pelo tradicionalismo.

Sergio Isso Aparecida Pacheco Paschoaline não conhecia São Valdomiro
Na primeira casa do lado direito, moram o sogro e a sogra. Na casa ao lado, a filha está construindo e no quarteirão de cima mora com o marido e os netos. “Meu sogro mora aqui há bastante tempo e meus filhos estudam no São José, tem bairro melhor?”, diz Jouvency Ribeiro. Do lado esquerdo, segundo quarteirão, o pai habita uma casa, a filha outra e o filho também pensa em se mudar para ali. A ligação com São José é forte. “Meus filhos estudaram aí e meus netos também vão estudar. O Colégio São José chegou quando era tudo fazenda por aqui”, conta Oswaldo Ferreira Cabral, que mora na rua há mais de 30 anos.

Religioso, ele também desconhece o santo. “Ih, nunca ouvi falar. Valdomiro, só o prefeito”, brinca. Coincidências, de fato, existem. No século 900, o Valdomiro da Ucrânia foi imperador e por décadas dono dos mares Negro, Báltico e Cáspio. Além disso era neto de uma princesa Olga. Por aqui, Valdomiro Lopes além de governar a cidade é filho de Olga. Quem mora na São Valdomiro, no entanto, vai logo desfazendo os laços entre os dois nomes. “Ih, de santo esse prefeito não tem nada”, debocha um morador. “Ah, se fosse santo mesmo, tinha compaixão pela cidade”, critica o outro.

Apesar de estar em bairro nobre, a rua São Valdomiro nada tem de tapete vermelho. O asfalto é esburacado e remendado e quase não há sinalização de trânsito, apesar de o movimento ser grande pelo entra e sai no colégio e por a rua terminar na avenida Potirendaba. Os moradores cuidam do solo santo. Há casas que chegam a ter três árvores em uma só calçada. Além das sombreiras, as frutíferas relembram que ali já foi fazenda. São mangueiras que nessa época do ano estão carregadas, jabuticabeiras, pés de pitanga, acerola: mais de 50 árvores em poucas quadras de rua. A São Valdomiro encanta!


Tanto que depois de viver 30 anos em São Paulo foi nesta rua que a religiosa Aparecida Pacheco resolveu morar. Mas, há de se dizer, a história da idosa consegue encantar mais que a rua. Aos 82 anos, dona Cida frequenta aulas de ginástica duas vezes por semana, cuida da casa sozinha, faz as próprias compras e trabalha fazendo consertos em roupas. Aos sábados e domingos, a falta de criatividade leva a pensar que ela descansa, mas engana-se. “Eu vou pro forró os dois dias. Não pode parar, minha filha. Se parar, a gente começa a pensar no passado e entra em depressão”.

Um passado que poderia fazer qualquer pessoa menos motivada deixar de viver. A mulher perdeu três dos quatro filhos que teve e ficou viúva, sem muito tempo de descanso entre um luto e outro. Dois dos filhos e o marido morreram de enfarte, o outro em acidente. “O duro é a saudade. Tem dias que dá aquela tristeza, eu choro e depois peço perdão a Deus por chorar e retomo a vida. Não pode parar, minha filha”.

A religiosa que mora na rua há 14 anos não conhece São Valdomiro, mas tem um altar com imagens de outros santos e orações matinais. É cheia de fé. “Não gosto nem de ver tragédia na televisão. Tem que ser feliz. Eu rezo todo dia por nós”.

Dona Cida não segura sorrisos nem quando conta suas tristezas. Solta um atrás do outro, largos, gostosos de ouvir. Depois, de unhas feitas em vermelho, distribuiu fortes abraços à reportagem e convida: - Voltem sempre, viu?
Venham para bater papo. Na rua São Valdomiro, vocês são sempre bem-vindos!



Sergio Isso Elenice Greccho Pereira, comerciante da rua: há 9 anos, ela vende salgados e pastéis

A terra santa de dona Elenice



Foi na rua São Valdomiro que Elenice Greccho Pereira ganhou a vida. Há 9 anos, ela toca um carrinho que vende salgados, refrigerantes, chocolates e pastéis fritos na hora. Também morou por um tempo na rua e colocou os filhos para estudar no São José. “O movimento aqui é bom por causa da avenida Potirendaba, é uma rua muito boa”.

De Valdomiro, ela, que é católica, conhece só o prefeito. “Santo eu não conheço não”. Mesmo assim, diz que não pensa em trocar a terra santa. “Mas mesmo sem conhecer, gosto demais daqui”.






Sergio Isso “Aqui é frio demais, um vento forte, prefiro o calor”, diz Geralda de Paula Moreira, vinda do Tocantins, que mora numa casa ainda em construção

Um lar em construção

Da calçada dá para ver as camas onde a família do Tocantins mora. Como a casa ainda está em construção, não há portas nem janelas, os olhares e o vento correm soltos. Tão soltos que fazem com que os moradores queiram voltar para a cidade natal. “Aqui é frio demais, um vento forte, prefiro o calor”, nas palavras da matriarca Geralda de Paula Moreira, 68 anos. Só no reboque, a casa em construção ainda é mesmo fria.Geralda está em Rio Preto há cerca de dois meses, com dois filhos e uma nora. Os moços trabalham como pedreiros e pegaram a reforma de uma casa na rua São Valdomiro após fazer algumas obras em Onda Verde e terem o trabalho reconhecido.Para não pagar aluguel, pediram que o dono deixasse eles morarem na casa em construção ao lado da casa onde estão trabalhando. A economia, eles dizem, vai compensar a dificuldade. “A gente tem conta para pagar, por isso compensa. No Tocantins quase não pagam para pedreiro”, explica Esmitiane Lilian, 35 anos, a nora de Geralda. A família é de Caseara, na divisa com o Pará e agradece pelo teto sem portas, nem piso, nem janela. “Ixi, ainda assim é melhor do que muita casa de lá”, diz Geralda. Imperador, criador de igrejas e neto de OlgaVolodymyr, o grande, foi grão-príncipe e instituiu a igreja católica na Ucrânia, responsável pela formação da Igreja Ortodoxa Ucraniana. Viveu entre 980 e 1015, descendente de duas importantes figuras da história política ucraniana, filho do príncipe Sviatoslav e neto da princesa Olga - outra coincidência, o mesmo nome da mãe do prefeito de Rio Preto.São Valdomiro foi um grande imperador, dono de poder e impérios na Europa Oriental. Ainda jovem, ele obrigou a população a se batizar no rio de Dnipró e começou a construiu igrejas católicas. Não há registros sobre a data comemorativa do santo ou de quando ele foi santificado, mas na Ucrânia há monumentos em homenagem a ele. Ao lado, desenho dele, entre centenas disponíveis na internet.

   

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