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Diário da Região

14/12/2017 - 21h10min

Doutor das palavras

Delfim Silva Pires: o doutor motoqueiro que ama poema

Doutor das palavras

Guilherme Baffi Cardiologista Delfim Silva Pires, 66 anos, coleciona paixões: a literatura, os voos de traike e a potência das motocicletas
Cardiologista Delfim Silva Pires, 66 anos, coleciona paixões: a literatura, os voos de traike e a potência das motocicletas

Crônicas e poemas para curar as dores da vida. O médico cardiologista Delfim Silva Pires, 66 anos, costuma prescrever, além dos remédios e dos exames necessários, um pouco de poesia a seus pacientes. Amante das palavras, para ele a literatura é capaz de aplacar a dor, de levar a outros mundos e de libertar, ainda que se esteja preso em qualquer ambiente. “A literatura é o melhor remédio porque você acaba dando um salto, não fica preso no sofrimento do dia.”

O médico nascido em Carnapete, Portugal, tem como um dos grandes prazeres da vida a escrita e a leitura. Ainda virá um livro com a reunião de textos escritos ao longo da vida. Mas vai demorar um pouco, até que ele consiga organizar os mais de cem textos, alguns salvos no computador, outros ainda no papel.

Delfim começou o hobby por volta dos 17, 18 anos, mas não levava muito a sério. Os pais sempre incentivaram que ele estudasse e ele já gostava muito de ler. Para escrever foi um pulo. Até que, quando adulto, algumas pessoas começaram a ler seu material e a gostar. “Escrevi um texto para minha namorada e a irmã dela não acreditava que tivesse sido eu. Minha namorada confirmou, disse que foi na frente dela, que não havia nada no papel. A partir daí comecei a achar interessante.”

O médico se encanta tanto com o mundo da literatura que é difícil acreditar que ele tenha optado pela medicina e não pela carreira de escritor. A opção pela primeira se deu naturalmente, afinal já trabalhava como uma espécie de enfermeiro quando bem jovem. E não se arrepende. O coração tem espaço para os dois amores.

Na hora de responder pela escolha, se emociona ao relembrar de um filme que conta a história de um médico que sonhava em ser jogador de futebol e uma hora teve essa oportunidade. Já em campo, prestes a chutar para o gol, percebe uma criança na arquibancada que havia se engasgado. Estava aí resposta para sua grande dúvida. Ele salvou a vida criança. Assim como escolheu Delfim.

A inspiração para escrever vem dos mais diversos lugares, seja do que vive no atendimento aos pacientes, do cotidiano ou da imaginação. E o que costumava ser escrito à mão e depois na máquina de datilografar, há muito tempo evoluiu para o computador. É que o Delfim também é amante da tecnologia. Comprou o primeiro computador nos idos dos anos 1970. “Me disseram que havia uma máquina em que era possível apagar a palavra caso você errasse. Não acreditei. O computador era muito caro e descobri que não só dava para apagar as palavras como mudar o parágrafo de lugar, colocar margem, entre tantas coisas”, diz.

 

Delfim Silva Pires 02 - 05052017 Delfim faz um voo em seu traike, nos céus de Ibirá

E se vida real é inspiração para sua obra, Delfim conta que entre os atendimentos marcantes de sua vida - que terminou numa crônica - teve o caso de um jovem que chegou à clínica passando mal. Ele estava em outro atendimento, mas foi interrompido por uma enfermeira. Apesar de não gostar da interrupção, teve de ir à sala de espera para ver a gravidade da situação. “Quando cheguei, estavam todos desmaiados na sala de espera. O rapaz estava em pé, segurando o dedão do pé, que ele mesmo havia cortado”.

Ainda sobre a profissão, Delfim faz questão de exercê-la à forma antiga - olho no olho, dando toda a atenção ao paciente - o que lhe traz até comentários sobre ser chato ou exigente. Mas foi essa entrega que ajudou uma mulher - que havia passado por duas consultas com ele - a desistir da vontade de matar os filhos. “Na última consulta ela me disse que naquela hora conseguia me contar. É uma coisa tão sublime que você não sabe a que horas vai acontecer.”

‘Primeiro voo sozinho é como o primeiro beijo’

Quem conversa a primeira vez com essa pessoa tão amável e sensível mal pode imaginar as surpresas que vêm pela frente. Além de médico, escritor e leitor voraz, Delfim também tem um lado aventureiro muito forte.

Ele curte voar de traike - uma asa delta com motor. Faz isso nos finais de semana livres, em Ibirá, e conta que não tem prazer maior do que o primeiro voo solo. “O primeiro voo sozinho é uma coisa fantástica, assim como o primeiro beijo.” 

Tudo começou em 1995, em Mirassol, quando deu a primeira volta na aeronave e já comprou o equipamento, embora essa paixão tenha começado na época da faculdade, quando voava com um professor. “Não é perigoso. Dizem que a gente só pode ter um acidente e eu já tive o meu”, conta. Foi um vento inesperado na decolagem que causou uma batida na cerca e resultou num braço quebrado. “A pessoa tem de respeitar a natureza, saber seus limites porque se tiver um acidente é uma coisa muito grave”, afirmou.

E não para por aí. Delfim também é motociclista e até já fundou um motoclube, em Auriflama, onde também trabalha. Aos 13 anos deu uma volta numa Cinquentinha. Ficou encantado com a força da máquina, que na acelerada já empinou. Recentemente, a filha sugeriu que Delfim comprasse uma moto mais segura, confortável. Ele comprou uma Harley Davidson. A ideia era que o pai abandonasse o traike e ficasse apenas com a moto, hobby um pouco menos radical. Que nada, Delfim continua pilotando o traike e a Harley. Questionado se a família não se preocupa com os gostos extremos, ele afirma: “Isso me traz problemas porque eles acabam fazendo essas maluquices e eu não tenho como corrigir”.

 

Arte - Delfim Silva Pires - 05052017

Duplo Céu

Delfim não tem cidade natal no Brasil, afinal nasceu em Portugal, mas escolheu Duplo Céu, um distrito da vizinha Palestina para ser o seu berço. Foi lá que viveu até os dez anos, se alfabetizou, perdeu dias e dias olhando o correr da cachoeira do Talhadão acreditando que uma hora aquela água toda fosse acabar. Que nada, ainda bem. Ali começava a nascer um olhar mais sensível pelas belezas, grandes e pequenas, deste vasto mundo.

O médico conta que os pais vieram para cá em busca de uma vida melhor. Se tornaram comerciantes. Ele chegou ao Brasil com um ano e quatro meses e só entendeu a importância da mudança adulto. “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”, recita ele um poema de Fernando Pessoa. E emenda que sentiu na pele essa dor, já que seus pais deixaram uma família para nunca mais rever.

Hoje isso não ocorre mais porque as visitas de lá para cá e daqui para lá são frequentes. E ainda tem a tecnologia, que ajuda a encurtar as distâncias.

Por aqui, Delfim construiu sua própria família. Casou duas vezes e tem cinco filhos - todos médicos - três do primeiro casamento e dois do segundo. Formou-se na Farm, em Rio Preto, atual Famerp, em 1975. Hoje, ainda trabalha duro para pagar a faculdade de medicina dos dois filhos que ainda não estão formados. Ele tem uma clínica em Rio Preto, trabalha no SOS Unimed e no Pronto Atendimento da Unimed. Dois dias por semana segue para Auriflama, onde realiza consultas.

As histórias de Delfim são muitas e encantam, inclusive pela entonação de voz, que muitas vezes lembra o famoso apresentador Sérgio Chapelin. Já tem filhos, deve ter plantado alguma árvore, resta escrever o próprio livro. “O que a gente carrega dentro da gente é uma coisa fantástica”, diz. Concordo.

Com pimenta

O médico Delfim conta que chega a ser chamado de chato e exigente porque insiste em fazer muitas perguntas ao paciente na hora da consulta, mas não se abala porque acha que esse o contato e toda essa atenção são importantes para o bom exercício da profissão

Com açúcar 

O médico Delfim é tão amável que a conversa chega a ser comovente em muitos momentos, como quando contou sobre o atendimento a um colega de profissão, que há 11 anos teve uma parada cardíaca. Ou mesmo quando contou sobre o dia em que o pai, um senhor na casa dos 80, viu e ouviu a irmã pelo computador, lá de Portugal. “Me emociono com esse troço”, disse.

 

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