Diário da Região

25/11/2011 - 01h48min

Duplamente esquecidos

Cerca de 60% dos acolhidos do Projeto Teia têm mais de 10 anos

Duplamente esquecidos

Hamilton Pavam Rodrigo deixou de ser abrigado aos 18 anos; foi profissionalizado, conquistou emprego, formou família e ganhou dignidade. Era tudo o que ele queriana vida
Rodrigo deixou de ser abrigado aos 18 anos; foi profissionalizado, conquistou emprego, formou família e ganhou dignidade. Era tudo o que ele queriana vida

Órfão de pai e mãe, quando estava perto de completar 18 anos, Rodrigo Ferreira Martins, 25, vivia um momento delicado: ele sabia que, em pouco tempo, teria de romper os vínculos criados na instituição que o abrigava, a extinta Frater, em Rio Preto, e caminhar com as próprias pernas. Rodrigo, porém, que chegou ao local por volta dos 12 anos e sempre foi um rapaz de muita fé, acabou surpreendido pelo destino.


Encaminhado ao primeiro emprego pela equipe da antiga instituição, na serigrafia da Associação Renascer, logo ele se mudaria para uma casa alugada perto do trabalho. A vida do garoto rejeitado por familiares depois da morte da mãe, que chegou a morar na rua e ficou institucionalizado até completar 18 anos, então começava a ser reescrita.


Hoje, casado com Daniele, 25, Rodrigo tem uma filha de 1 ano e 7 meses, Maria Vitória, e a convicção de que é um vencedor. “Passei por isso tudo e sempre pensei comigo: ‘a rua não é para mim, eu vou vencer na vida ainda’. Sempre tive fé em Deus e ter minha família é o sonho que consegui realizar. Sempre pedi a Deus uma casinha para morar, uma esposa e uma filha, que eu tenho hoje, a Maria Vitória.”


O drama que ficou no passado de Rodrigo atualmente é vivenciado por 40 crianças e adolescentes com idade entre 10 e 17 anos abrigados em Rio Preto à espera da reinserção familiar ou de uma adoção que talvez nunca aconteçam. Alguns desses menores são oriundos da Frater, desativada há sete anos, segundo a Vara da Infância e Juventude de Rio Preto.


“Esses menores certamente vão sair de lá quando completar a maioridade para trabalhar, ou casados. Por isso, é muito importante que essa meninada tenha oportunidades em cursos profissionalizantes, para que possam seguir sua própria vida”, diz o juiz da Infância, Osni Assis Pereira.


Embora a nova lei de adoção (em vigor desde novembro de 2009) limite a permanência da criança e do adolescente em abrigos por no máximo dois anos a não ser em casos excepcionais, para o juiz, na prática, é impossível cumprir o que a legislação estabelece. “É a parte da lei que não pega. A gente faz de tudo, tenta reinserir na família, direciona para adoção, mas às vezes ela não acontece”, diz Pereira.


Com o passar do tempo e o avançar da idade, naturalmente os menores se sentem integrados à família social e a possibilidade de adoção pode assustar, segundo Maria do Carmo Gardin, coordenadora do Teia, projeto que recebe menores que precisam ser retirados do convívio familiar. Outro fantasma enfrentado pelos adolescentes é o rompimento dos vínculos com a equipe da instituição que o acolheu ao completar 18 anos. Rodrigo chorava muito quando teve de deixar a Frater.


Maria do Carmo afirma que está em estudo a implantação de uma espécie de república monitorada, para receber menores que saem do acolhimento depois de completar 18 anos, até os 21. “A adoção acima de 10 anos fica muito difícil no Brasil, principalmente quando envolve grupos de irmãos. Se a criança não volta à sua família de origem, está fadada a ficar institucionalizada”, diz.


Projeto Teia acolhe menores


As crianças e adolescentes que precisam ser retirados do convívio familiar em Rio Preto são acolhidas no projeto Teia, no qual ficam sob os cuidados de mães sociais de sete casas-lares. Cada casa tem capacidade para receber oito menores, ou seja 56 atendidos, mas atualmente o projeto tem 65, ou seja, nove a mais. Entre as crianças e adolescentes, há grupos de irmãos, o que acaba dificultando mais a adoção.


Um grupo de quatro irmãos afrodescendentes, duas meninas e dois meninos, de 7, 9, 10, e 11 anos, está há três anos no projeto, sem perspectiva de adoção. “A adoção não tem um caráter altruísta como deveria ter. A pessoa adota para realizar um sonho e por isso preferem crianças mais novas”, observa o promotor da infância e Juventude, Cláudio Santos de Moraes.


Em Fernandópolis, um grupo de três irmãs, de 18, de 17 e de 15 anos, está prestes a deixar a instituição onde passaram dez anos de sua vida. A mais velha foi inscrita no programa Minha Casa, Minha Vida e em breve, elas deverão receber um imóvel próprio e seguir a vida.


“Há sete anos, elas tiveram uma experiência de adoção, mas foram devolvidas pela família substituta. Foi um segundo abandono e depois disso elas mesmas preferiram ficar na instituição”, diz Suzete Isaías, presidente da Associação Assistencial Nosso Lar, de Fernandópolis.


As duas mais velhas fazem estágio remunerado no Fórum. “A gente está tentando prepará-las para a vida, porque no Brasil sabemos que a adoção tardia não acontece. Então elas sabem que terão de andar sozinhas.”

   

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