Diário da Região

10/11/2013 - 02h37min

Pastoral

Bem-vindos ao banquete de Deus!

Pastoral

Padre Oscar Donizete Clemente/Divulgação Voluntários da paróquia da Santa Cruz, do pe. Oscar servem o jantar da sexta-feira para quase cem pessoas em situação de rua; ao fundo, Jesus ‘observa’
Voluntários da paróquia da Santa Cruz, do pe. Oscar servem o jantar da sexta-feira para quase cem pessoas em situação de rua; ao fundo, Jesus ‘observa’

Faltam 10 minutos para as seis da tarde da sexta-feira, e eles já vão chegando no salão da igreja Santa Cruz. Vêm de toda parte da cidade, limpinhos e ordeiros, homens e mulheres, alguns com filhos. Às 6 horas, Padre Oscar Clemente abre as portas e os braços, recebe a todos como amigos. E reza. É a hora do Ângelus, ave-maria, e eles se irmanam na oração, já que são irmãos na pobreza também.


O jantar é servido. Duas enormes mesas compridas, cobertas por toalha verde, cadeiras em volta e um grande aparador com o cardápio da noite: arroz, feijão, coxa e sobrecoxa de frango assadas, macarrão com molho branco e com molho vermelho, farofa, salada de repolho roxo e branco com tomate e cheiro-verde, suco de uva. De sobremesa, doce de leite e cocada caseira. O doce de leite é feito na fazenda da dra. Bety Liso, especialmente para eles.


A paróquia Imaculado Coração de Maria, no bairro Santa Cruz, capitaneada pelo padre Oscar Clemente, está no 13º jantar. A proposta de alimentar cada ser humano desprotegido da sorte é do papa Francisco. Em 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, ele enviou mensagem ao diretor da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva, para ser lida na assembleia da ONU. "(...) A fome e a desnutrição nunca podem ser consideradas um fato normal que precisamos nos acostumar, como se fizesse parte do sistema. Algo tem que mudar em nós mesmos, em nossa mentalidade, em nossas sociedades," afirmou o papa.


A empreitada tem apoio incondicional do bispo diocesano Dom Tomé Ferreira da Silva. "O alimento é dom de Deus e direito de todos. Alimentar o faminto, como expressão da caridade, é parte integrante da fé cristã e católica, segundo o desejo de Jesus Cristo (Mt 25,35). Todos, indistintamente, devemos ser compassivos com os que solicitam um prato de comida," disse.


"A primeira meta é não deixar ninguém com fome. A segunda é fazer um pool de sete paróquias para que os moradores comam todos os dias da semana. O padre Luiz Caputo, do São Judas, já aderiu," disse padre Oscar. Na sexta-feira, eram 84 comensais, mas normalmente passa de 90. Comem em pratos, com talheres e dignidade. São convidados da Igreja de Deus. Pessoas em situação de rua, ou seja, alguns moram em pensão mas não tem como pagar comida todos os dias.


O cardápio é do agrado deles. Semana seguinte, foi dobradinha. Os pratos são 'montanhosos' e repetidos. Para a maioria, é a única refeição do dia. Ali não se pergunta nada, nem se recrimina. Só ajudam e matam a fome.Para melhorar a vida deles, a paróquia instituiu o serviço grátis de dentista toda sexta-feira à tarde.

Pierre Duarte Pe. Oscar conversa com Claudemir depois do jantar - a vida prejudicada pela bebida e pelo abandono

A história (infeliz) de cada um

As histórias vão sendo contadas enquanto devoram a comida. Carlos tem 34 anos (optou-se por colocar só o primeiro nome porque não querem ser identificados). Veio de Belo Horizonte, é solteiro, profissão ajudante de caminhão, mas mora na rua. "Gosto de tudo aqui. Depois dessa janta, só tenho que ficar feliz, uma maravilha."

Marcelo é jardineiro, viúvo, já morou na rua e hoje pode pagar pensão com os bicos que faz. Aparenta não ter vícios. Morou em Marília e Tanabi. Não casou de novo, porque não encontrou a pessoa certa. "O atendimento é muito bom, do padre, do pessoal que faz a comida, é gente muito boa."

Maikon, viciado em crack, tem 29 anos, pouquíssimos dentes na boca e mora na rua desde os 21 anos. Mas não dorme em qualquer lugar. "Tenho pedigree! Não me misturo com baderneiro, escolho lugar para dormir sossegado," disse.
Ele admite que acabou-se com o vício, mas está bom, pelo menos está vivo. Não falta a um jantar da igreja. "Aqui é minha casa."

André, 42 anos, tem casa, mas vazia. Tudo o que tinha dentro ele trocou ou vendeu pelo crack. A casa é herança da mãe, que morreu em 2002. A vida está boa assim, na droga? "Claro que não. Tomo banho num cano..."

É resistente a tratamentos. "As pessoas de casa de recuperação não se importam se vou sarar ou não. Põem a gente para trabalhar, escravizam. Sou só um número para eles, e não um ser humano. Mas quem resolve isso é Deus."
Estudou até a sétima série e sabe o conteúdo da Lei Áurea (que acabou com a escravidão no Brasil).

Eles comem rapidamente, e meia hora depois vão embora. Claudemir fica para conversar com o padre. Na segunda-feira, ele iria ser internado em Schmitt. Tem 48 anos e aparência de 60. Bebe desde os 14 anos.

Foi pasteleiro no Mercadão durante 18 anos, casou-se duas vezes, teve três filhos, ganhou um terreno do patrão onde construiu casa. Perdeu tudo, família, casa, emprego, respeito.Passa o dia andando pela rua. Dorme onde der. Prefere o albergue noturno, mas se ficar na rua evita baderneiros e viciados. "Entendo eles. Mas não fico junto," diz.

Na sexta-feira, não almoçou, nem tinha dinheiro. Come o que dão. No bolso, apenas uma papeleta com as atividades de Schmitt, onde iria se tratar. "Quero sair dessa vida."

Pierre Duarte Benedita cozinha com alegria e gratidão pela cura do filho

A boa vontade de homens e mulheres

O projeto da Pastoral do Alimento, da Santa Cruz, tem o respaldo imprescindível de uma equipe de 30 voluntários, que formam o GEV- Grupo Esperança Viva, que assumiu a responsabilidade de arrecadar, produzir e servir as refeições.

O casal líder, Dulce e Luiz Castellan, faz a escala da produção. O filho deles se recuperou em 2007, mas eles não abandonam o posto. "A intenção é mostrar que eles (filhos) não estão sozinhos," diz Dulce. Das 15 às 18h, uma equipe cozinha e arruma as mesas do refeitório paroquial. Às 18h, outra equipe entra para servir e limpar.

Há três anos, o projeto vinha caminhando na forma de atender o morador na rua, levando cobertor e sopa no frio. Agora, recebem as pessoas como convidados na igreja. Os integrantes do GEV são pais de filhos recuperados ou em recuperação do vício da droga. Benedita Venâncio é mãe de Clever, que se recuperou na Fazenda Esperança (onde nasceu o GEV) e encontrou trabalho, mas ela perseverou no grupo, por gratidão e para que o filho sinta que ela está ali, pronta para tudo.

"Acho que eles ficam fortalecidos vendo que a gente continua trabalhando. Pra mim, é muito bom, a gente se sente doando e ajudando a recuperação de alguém. Renovamos a esperança," disse Benedita, que ajuda a cozinhar. Ela e o grupo vestem uma camiseta verde com os dizeres: "Quem tem esperança, vive diferente."

Em Rio Preto, paróquias e centros espíritas distribuem sopa e alimentos às pessoas em situação de rua, entre elas a Associação Madre Teresa de Calcutá, paróquia Menino Jesus de Praga e Albergue Noturno.

Pierre Duarte Manhã de sábado - Pastoral do Povo de Rua serve almoço para 130 pessoas em média

A Pastoral do Povo de Rua,da Diocese, desafio diário



Sábado, domingo e feriado tem almoço na praça Cívica Jornalista Leonardo Gomes (da Biblioteca). Há 12 anos, padre Amilton Guerra, fundador da Pastoral do Povo de Rua, vive o desafio de conseguir doações e voluntários. Média dos comensais: 130 pessoas por almoço. Ele já chegou a servir para 250 pessoas por ocasião de um indulto.

"A Pastoral do Povo da Rua precisa de voluntários para acompanhar as pessoas em situação de rua," diz o bispo dom Tomé. Se para os padres Caputo e Oscar o sistema é convidar os moradores, para o padre Amilton é ir até eles nos abrigos das calçadas. Inclusive porque assim ele descobre quem está doente e encaminha para o AME.

Como o caso de um homem entocado na Pedra (local de comércio informal de venda de veículos próximo ao Palestra Esporte Clube). Não saía para comer de jeito nenhum. Com muita paciência, o padre e alguns voluntários conseguiram se aproximar: o homem estava em fase terminal de câncer e não conseguia chegar até a praça.

"Descobrimos a família e o levamos para o Hospital João Paulo 2º. Morreu com dignidade, recebendo tratamento," disse Amilton. Estava na rua por desilusão, separado da família. "Nosso objetivo é ir até eles, conversar. Eles querem um ombro amigo," disse o padre.

"Os dois métodos (com local fixo ou na rua) são válidos, mas aqui - com mesa arrumada - você promove uma acolhida diferente e eles também se sentem amados de uma maneira diferente," afirmou pe. Caputo. Todos têm razão. Mesmo fazendo esse gesto extremo de caridade, a Pastoral foi acusada de sujar a praça com os descartáveis usados na distribuição de comida. O jeito foi fotografar o local antes e depois, para mostrar a situação.

"Estamos em crise. Falta tudo." O feijão é doação de um voluntário. São gastos 20 quilos por semana, além de 40 quilos de arroz e 15 quilos de carne. Precisam de fubá para fazer polenta com molho de carne moída. O consumo de gás é de quatro botijões por mês.

Quem ajuda muito é um grupo espírita que vai ao Ceasa toda madrugada do sábado e traz legumes para várias instituições, entre elas a Pastoral do Povo de Rua. A comida é feita numa casa cedida pelo bispado, na rua Peru 150, Vila Maceno, onde recebem doações. Mas pe. Amilton não desiste e já pensa na ceia de Natal, no dia 24 de dezembro às 18 horas. "O projeto do papa Francisco é o grande projeto de Jesus," disse.

Divulgação Antes da refeição, um momento de oração com padre Caputo e os voluntários do São Judas

No Santuário São Judas Tadeu

Segunda-feira, é dia de jantar no São Judas, no Jardim Roseiral. O projeto começou no dia 16 de setembro deste ano e recebe 30 a 35 pessoas. Uma equipe piloto reunida pelo padre Luiz Caputo visitou a Paróquia Santa Cruz, para um intercâmbio de experiências entre os voluntários. Doadores e voluntários foram sensibilizados. Distribuíram-se panfletos na Paróquia Santa Cruz, Albergue Noturno, nas ruas e pontos de concentração.

Por semana, gastam-se 12 quilos de carne bovina, suína ou frango; 8 quilos de arroz; quatro quilos de feijão e 20 litros de suco."Vendo a experiência da Paróquia Santa Cruz e motivado pelo padre Oscar, achei necessário fazer também. Sabemos que eles não tinham onde comer à noite. Durante o retiro do clero, em agosto, amadureci a ideia e resolvi trazer como gesto concreto para a comunidade que, de imediato, acolheu," afirmou pe. Caputo.

Ele não teve dificuldade de começar. "A comunidade se sensibilizou logo; temos os que coletam os alimentos, fazem e servem. Ainda os que limpam e preparam o ambiente. Outros acolhem. Cada um faz segundo o seu carisma".
Para a voluntária Michele Claus, 25 anos, vale a pena. "Vemos que eles vêm satisfazer a fome, mas não é só isso. Quando me convidaram, foi uma surpresa. De tudo o que faço na Igreja é o que eu mais gosto. É uma forma de retribuir o que tenho," disse.

"Por trás disso tudo, existe uma preocupação com a evangelização. Não me esqueço, no primeiro dia, que eu ia dar início ao jantar, um deles pediu para rezar. Acabamos aprendendo mais que ensinando," disse Caputo.

Conquistando um sorriso

Gilmar, 33 anos, mora na rua há cinco anos e perdeu dois dentes frontais pelo consumo de entorpecente. Agora, sonha em conseguir um emprego e recomeçar. "Toco guitarra. Hoje não dá. Como vou assim no barzinho?" Adilson, 31 anos, também está sem dois dentes. "Esse tapa no visual vai nos ajudar. É bom se sentir respeitado." Durval, 52 anos, está tratando a gengiva. O trabalho é feito gratuitamente pelo cirurgião dentista Rogério Ribeiro de Aguiar, 38 anos, num trailer adaptado com consultório.

“É um trabalho para resgatar a dignidade,” disse Aguiar. O serviço faz parte do projeto da Santa Cruz. O trailer fica no estacionamento da paróquia, com atendimento sexta-feira, das 14h às 18h. Interessados em fazer doação de material ou mão de obra, ligar para 99743-6622.



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