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Diário da Região

13/11/2016 - 00h00min

CORAÇÃO VALENTE

Advogado completa 30 anos com órgão transplantado, um recorde no Brasil

CORAÇÃO VALENTE

Mara Sousa Advogado de Tanabi Waldir de Carvalho, 81 anos, com coração de 33 dentro do peito
Advogado de Tanabi Waldir de Carvalho, 81 anos, com coração de 33 dentro do peito

O coração do advogado de Tanabi Waldir de Carvalho, 81 anos, é uma máquina. Neste ano, completou 30 anos impulsionando o sangue e a vida de Waldir. Nunca um transplantado sobreviveu tanto tempo no Brasil com um coração de outra pessoa, de acordo com o Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, onde foi feita a cirurgia.

Sem essa segunda vida, Waldir não veria o nascimento de seis netos e três bisnetos. Nem faria as duas coisas de que mais gosta na vida: pescar e atuar no Tribunal do Júri. Já participou de mais de 200, nas contas dele. Em breve terá outros três. "A maioria dos que defendo sai pela porta da frente do Fórum", garante.

A primeira vida do advogado começou a dar sinais de cansaço em 1982, quando ele tinha 47 anos e era candidato a prefeito de Tanabi. Foi pescar no rio Grande em Fronteira (MG) e, ao retornar para o rancho carregando o saco de peixes nas costas, sentiu uma dor intensa no peito. Ele não sabia, mas havia infartado.

Waldir, que acabou eleito, sofreria outros quatro infartes. Um deles muito grave, durante um jogo do Tanabi Esporte Clube. No IMC em Rio Preto, os médicos diagnosticaram miocardiopatia, doença que deteriora o músculo do coração. O órgão ganhou três pontes de safena, mas de nada adiantou. Waldir só piorava.

A única salvação era o transplante. Como Rio Preto não oferecia o procedimento na época, o jeito foi buscar tratamento do Incor em São Paulo. Enquanto o vice-prefeito administrava a cidade, Waldir alugou um apartamento na Capital e entrou na fila de espera por um novo coração. Na época, o Incor já era referência em transplante cardíaco, sob a coordenação de médicos famosos como Adib Jatene e Euryclides Zerbini.

Foi um ano e meio de espera. Enquanto isso, Waldir definhava. Só um quarto do seu coração funcionava. "Não tinha forças para nada", lembra. O mês de agosto de 86 chegou e, sem perspectiva de um órgão para transplante, o advogado encarava a morte muito próxima. "Eu sabia que era questão de horas para morrer. Então pedia a Deus para me segurar neste mundo." No dia 28, véspera do seu aniversário de 51 anos, Jatene entrou no quarto do hospital onde estava Waldir:

"Temos uma ótima notícia para te dar."

"Tem um coração para mim?"

Tinha. Era o de um jovem de 18 anos assassinado no Centro de São Paulo. O rapaz trabalhava em uma lanchonete onde ladrões se esconderam da Polícia Militar. Na troca de tiros, um deles atingiu em cheio a cabeça do jovem. Foram 10 horas de cirurgia, que avançou pela madrugada do dia seguinte. Waldir acordou quatro dias depois, ainda na UTI. Devagar, levou a mão ao peito, sentiu o "tum-tum" do novo coração, começou a chorar copiosamente. Era o dia do renascimento.

Um mês depois, o advogado retornou a Tanabi. Foi recebido com festa e carreata desde a entrada da cidade. Finalmente assumiria de fato a prefeitura. Finalizou o mandato e, de coração novo, passou a cuidar da advocacia. Sua sobrevida superou todas as expectativas médicas. Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o tempo médio de sobrevida de um transplantado do coração é de 59% no sexto ano após a cirurgia.

O coração, 33 anos mais jovem do que o próprio Waldir, não dá mostras de cansaço. "Só sofre um pouco em dias de jogo do Corinthians", diz. Daqui oito meses, Waldir vai bater o recorde mundial de sobrevivência com coração transplantado: 30 anos, 11 meses e 10 dias, do norte-americano Tony Huesman, morto em 2009. Mas sua meta é muito mais ambiciosa: viver até os 100 anos. "Depois, aí sim posso ir embora."

 

Silvio Pereira de Oliveira - 13112016 Silvio Pereira de Oliveira durante caminhada matinal no Bosque da Felicidade, em Rio Preto

‘Foi mais uma chance que Deus me deu’

Silvio Pereira de Oliveira, 68 anos, comerciante aposentado, sempre acordou bem cedo, todos os dias. Só mudou o propósito do hábito: antes era para beber um trago antes do trabalho, agora é para praticar caminhadas. A mudança marca o renascimento de Silvio, há 14 anos, quando recebeu um novo fígado no Hospital de Base (HB), em Rio Preto. "Foi uma nova oportunidade que Deus me deu, e eu preciso agarrá-la", afirma.

A vida de excessos, definitivamente, ficou no passado. Beber agora, só água e, vez ou outra, refrigerante. O passatempo é praticar esportes, entre caminhadas e partidas de futebol, inclusive com o neto que tinha só um ano quando ele foi transplantado. Foi no dia 1º de novembro de 2002 que Silvio recebeu o fígado de um jovem de 22 anos morto em um acidente de moto em Sorocaba. Era a única salvação para o comerciante, já que seu fígado estava imprestável pelas hepatites B e C.

"O médico me disse que nem cachorro queria meu fígado." Não era para menos. Silvio, que nasceu e cresceu em São Paulo, bebeu muito, desde os 17 anos. Começou como passatempo de adolescente, mas logo descambou para o vício curto e grosso. "Bebia desde quando acordava até antes de dormir. Tomava de tudo: cachaça, uísque, conhaque, cerveja. Por fim, nem ficava mais bêbado." Na virada do século, veio passear na casa de um primo em Rio Preto.

Gostou tanto da cidade que decidiu morar nela. "Se estou vivo é porque vim para cá. Se tivesse ficado em São Paulo, teria morrido, porque lá a fila do transplante é muito grande." Ele garante: o Silvio que entrou no centro cirúrgico não é o mesmo que saiu. "Sou outra pessoa, muito mais feliz em viver porque conheci a morte bem de perto." A meta é chegar pelo menos aos 22 anos do jovem que me deu o fígado. "Estou quase lá."

Inês sobrevive com rim do irmão desde 1995

A aposentada Inês Donizeti Trostosi, 70 anos, é a transplantada com maior sobrevida do Hospital de Base (HB) em Rio Preto. Há 21 anos ela carrega no corpo um dos rins que pertencia ao irmão. Nesse tempo, viu nascer seus três netos, um dos quais vive com ela. "Deus me deu a missão de cuidar dele. Vou fazer isso até ele ser maior de idade. Depois posso me encontrar com meu marido no céu, porque sei que ele está me esperando", diz, emocionada - há nove meses, ela perdeu o companheiro, vítima de câncer no pulmão.

Falência renal

Na época do transplante, Inês trabalhava com o marido na entrega de sofás. Um dia, em Três Lagoas (MS), começou a se sentir mal. No dia seguinte, já no HB em Rio Preto, os médicos constataram falência nos seus dois rins. Por isso, começou a fazer hemodiálise três vezes por semana. A única solução era receber um dos rins de um dos seus três irmãos, todos mais velhos. Um negou-se a doar logo de início. Outra alegou medo da cirurgia. Só o segundo mais velho não titubeou em salvar a vida da irmã.

Inês não se esquece do dia em que renasceu: 29 de novembro de 1995. A cirurgia durou sete horas. O rim esquerdo do irmão foi inserido no seu lado direito, sem retirar os seus. A aposentada ainda toma remédios para evitar a rejeição do rim pelo organismo. Passa por consulta no HB a cada três meses e faz dieta controlada, evitando gordura e sal. Graças a esses cuidados, leva uma vida normal em Potirendaba. 

 

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