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Diário da Região

05/06/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

Uma baixa na revolução

Painel de Ideias

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Zé Verza era pouco mais velho, na turma de meninos que se reunia à noite na escadaria da igreja, na acanhada Palmital, às margens do Paranapanema. Italianinho troncudo, musculoso, ajudava o pai na oficina mecânica, a meio quarteirão da casa da minha avó, com quem morávamos.

À tarde, fugia da oficina para participar do lanche que vó nos servia na varanda, com broas de fubá e bolinhos de chuva. Zé Verza tinha quase veneração por meu pai, sempre muito atencioso e estimulante com as crianças, contador de histórias que nos encantavam.

Pai defendia umas ideias esquisitas contra uma tal de burguesia, contra os que acumulavam fortunas, contra as privações do povo –, e outras, que nos estimulavam a rejeitar o egoísmo, a ganância, enfim, as injustiças. Falava de uma tal revolução, que igualaria os homens em bens materiais e conhecimento.

O prefeito da cidade era a principal vítima dele. Estávamos acostumados a ouvi-lo chamar o prefeito de “ditador fascista”, de “explorador que paga salário de fome ao funcionalismo”. Nas noites de sábado, saía, clandestinamente, com uma lata de tinta, pintando frases em muros, contra o prefeito.

Em uma das tardes em casa, Zé Verza disse que sabia ser meu pai o autor das pichações. O pai dele comentara. O menino acrescentou que gostaria de ir junto. O velho ficou surpreso e feliz. Entendeu que o adolescente havia se rendido à importância de ser militante.

De fato, Zé Verza passou a acompanhá-lo pelas ruas nas noites das ações clandestinas. Em contrapartida à cumplicidade, pai lhe dava cartilhas de iniciação política. Havia descoberto seu primeiro pupilo “têmpera de aço”, como se lia nos jargões dos livretos.

Certa noite, ao fim da pichação, pai quis conferir o que o pupilo militante já havia incorporado das lições das cartilhas. A cada pergunta, Zé Verza coçava os cabelos embaraçados, vacilava como se pedisse desculpas com o olhar.

– Não tem tido tempo para ler? – perguntou pai, compreensivo.

– Tempo tenho, não tenho é cabeça para esses assuntos. São muito chatos.

Pai ia insistir, mas o menino o impediu com um suave gesto de mão e completou:

– Seu Zé Garcia, o senhor me dá mais atenção do que meu pai, ensina-me coisas boas, conta histórias bonitas. Agora, isso que o senhor faz contra o governo, é muito perigoso. Meu pai falou que o senhor ainda vai levar uma surra dos capangas do prefeito.

O adolescente mostrou-lhe o bíceps volumoso e completou:

– Eu só quero estar por perto para não deixar que batam no senhor.

À noite, após contar o desfecho à mãe, na varanda, pai era a estátua da melancolia. Deixei-os na penumbra e fui encontrar os amigos na escadaria da igreja.

A revolução havia sofrido uma baixa surpreendente.

 

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