Diário da Região

07/07/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

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Só, só duas letrinhas, um ruído sibilante e um ó de dó. Pode ser adjetivo, advérbio ou substantivo, e até uma exclamação, quando a moçada filosofa queimando erva: “Só, mano, só!”. Há um quê de gravidade estonteante, certa infusão perturbadora nessa palavrota, cê não acha? O só, mesmo que negando alguma coisa, é assertivo, conciso, arrebatador, enfeixa por dentro uma sentença. Em certos casos, é o dizer não dizendo, a engendrar dúvidas e armadilhas de significados. Pergunta a garota seduzida e sonhadora ao namorado velhaco: “Cê vai casar comigo?” Ao que o tal lhe responde: “Só!”.

Quase sempre, no esqueleto semântico da tísica palavra há um ranço de restrição, vazio, abandono, ironia e desajuda. É o sujeito “sozinho”, o sicrano “apenas”, o Zé-ninguém “isolado”, o fulano “em desamparo”. Também o companheiro “único”, o beltrano “somente” e um idoso “solitário” numa praça. Esse vocábulo agrega-se a outros, a fisgar a noção de alguém em êxtase místico, como na “Romaria” do Renato Teixeira: “É de sonho e de pó,/o destino de um só,/ feito eu, perdido em pensamentos/ sobre o meu cavalo”.

Nalgumas vezes, o só se pluraliza para restringir a dois a sozinhez: “falar a sós”. Noutras, em falseado plural, incute na mente dos ouvintes um halo de desprazer e deserção: “Ele habita a sós em seu mundo”. Existe poço mais fundo? Há ocasiões, ademais, em que o só vigora em orações comparativas, tão depressivas que a pessoa comparada é o reflexo dela mesma: “Ela é linda que só ela”. E assim, por demais graciosa e delicada, ficou só, como uma flor que ninguém viu e se murchou.

Diz a galera que um gol é “só alegria”. E, sendo só uma coisa, e por causa disso não podendo ser outra, torna a existência tediosa, cansativa. Um gol ou qualquer coisa que é só prazer implanta a sensação de quero mais, de fome não-saciada, repetidamente. Com o passar do tempo, deixa em nós “só tristeza e melancolia”, como em ‘Chega de Saudade’, de Tom Jobim e Vinícius. A tragédia de se ficar só é mesmo a sina dos amores mais felizes.

O só é um ilusionismo sem o lenço esvoaçante da magia, superlativo contraditório da dádiva e desalento: “Ele ganha só um milhão por mês!” que, não raro, aprisiona o marajá nos muros de si, na competição consigo de ter mais. Antônio Nobre, poeta simbolista português, definhou na feitura de seu único livro, ‘Só’, editado em Paris em 1892. Fez para si uma utópica e narcisista Torre de Anto (talvez a viagem sem volta a seu próprio nome carcomido) e lá, só, num labirinto deprimente de signos, viveu a sensação da morte até morrer.

Isto posto, requisita-se que o só deve ser banido do dicionário das boas maneiras. Evoca sentidos aflitivos, infunde rumores de sombrios funerais, que são o só do despovoar mais alastrado e lacônico. Eia, palavra insolente, tacanha, que caligrafia alguma lhe dá jeito.

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