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Diário da Região

13/11/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

Quando craque brotava feito taboa no brejo

Painel de Ideias

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Para compreender o já distante fenômeno da multiplicação dos craques de várzea, é preciso voltar ao tempo em que eles brotavam feito taboa no brejo que delimitava o mitológico Beira-Rio, o campo do Corinthians da Boa Vista, atrás do Palestra, onde bandos de garotos corriam descalços no saibro, atropelavam sapos e com alguma frequência mandavam a bola de capotão para dentro do rio Preto. Pelo menos um desses garotos - Sebastião Miranda Filho, o Mirandinha - chegou à Seleção Brasileira.

O Beira-Rio era um entre os mais de 20, 30 campos varzeanos que disputavam o espaço urbano com as ruas e casas na Rio Preto dos anos 60, antes de serem tragados pela valorização imobiliária. A Vila Redentora já tinha ares de nobreza quando ainda permitia que seus quarteirões fossem ocupados pelos campos do Guarani e da Portuguesa, próximos de onde hoje está a Beneficência.

Uma foto aérea da cidade mostraria esses retângulos verdes e marrons (nem todos tinham grama) em praticamente todos os quadrantes urbanos: o campo do Juventus, no Jardim Canaã, perto da Cenobelino; o campo do Nacional, na Osvaldo Aranha, próximo à Curva da Galinha: o do Esplanada, em frente à Padaria Portuguesa; o do Santos, atrás da igreja de Santa Terezinha; do Internacional, na avenida Nossa Senhora da Paz; do Expresso Boiadeiro, na Vila Sinibaldi; da Ferroviária e do Fluminense na Vila Ercília e o do Brasil do Morro, no “Morro Pelado”, na região onde estão hoje os predinhos do condomínio Rio Leste.

Grandes arenas abertas, desprovidas de muros ou alambrados, nem sempre recobertas de grama, quase nunca completamente plainas, quase sempre marcadas por cicatrizes desenhadas pelo repetitivo cortar caminho dos pedestres no dia a dia, guarnecidas por traves de caibros e terças que só eram vestidas com redes de cordéis em dia de jogo importante. Nesse cenário, nomes como Dirceu, Fogueira, Noriva, entre outros, nasceram para o futebol profissional do Brasil.

Chega de saudade! Há algo remanescente dessa época que cruzou a barreira do tempo e se mantém nos como parte da liturgia do futebol brasileiro: a malandragem. A boa malandragem, essa centelha que mantém o Brasil com algum diferencial sobre seus adversários - a barreira que anda, a ajeitada com a mão, o grito de “deixa” para enganar o adversário, o braço levantado pedindo a falta, a cera, a catimba...

Mas nada é tão malandramente brasileiro quanto a atuação dos gandulas, que, de ágeis e prestativos enquanto o placar não é favorável, transformam-se em vagarosos e negligentes repositores de bola quando a ordem é perder tempo. O jornalista Wilson Guilherme até criou uma frase para definir as pessoas cujas decisões são sempre tomadas em favor do próprio interesse:

- Fulano é imparcial como um gandula!

Poucos gandulas foram tão ousados quanto o Ditinho. Fanático pelo time do Araçatuba, Ele trabalhava como gandula em um jogo da 2ª divisão (acho que contra o Olímpia) e, sentado atrás do gol, não se conformava em ver o seu time ameaçado pelos sucessivos ataques do adversário. Aí pelas tantas do 2º tempo, o adversário troca passes na até que a bola sobra livre para alguém que se livra do goleiro e bate em direção ao gol, mansa, rasteira, implacável. Tomado de súbita descarga de adrenalina, Ditinho entra no campo e, antes da bola cruzar a linha do gol, enfia o pé, mandando o perigo para longe.

Segue correndo para o alambrado e pula para fora, a salvo da ira dos jogadores, protegido pela cumplicidade dos torcedores, assediado pelos repórteres embasbacados:

- O que é que você sentiu ao evitar o gol? - quis saber um deles.

- Senti firmeza - respondeu Ditinho.

 

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