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Diário da Região

28/08/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

O super-herói voador

Painel de Ideias

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Chamava-se Gilmar. Morávamos na periferia da pequena Palmital, entre terrenos baldios, vacas e cavalos a pastar amarrados. Cães magrelos perambulavam em busca de podridão comestível.

Na ruazinha de terra, minha casa de madeira tinha um quintal exíguo e varal repleto de lençóis e roupas, cuja esfregação extenuava minha mãe, Zozô. Mãe vivera acostumada, até pouco tempo antes, a uma rotina suave, repentinamente perdida e não explicada às crianças. Agora, por conta da estafa do dia, nunca concluía as histórias que iniciava, em minha cama, para me levar ao sono. Dormia antes.

Gilmar morava do outro lado da rua, casinha de alvenaria, branca na metade superior e, da metade para baixo, marrom, da terra respingada pelas chuvas de anos. O quintal era quase chácara, com frutas variadas: laranja, jabuticaba, pitanga, abacate, carambola...

Além de vizinhos, estudávamos na mesma classe do grupo escolar. Íamos juntos, cedinho, à aula, e voltávamos à hora do almoço. Ao chegarmos, eu pedia para entrar no quintal dele. Ele pedia para almoçar em minha casa. Eu queria frutas. Ele queria meu pai, Zé Garcia. Recebia em minha casa atenção e afeto que lhe faltavam. Sabíamos. Não raro, exibia-nos marcas roxas pelo corpo, resultado da pedagogia obtusa do pai violento.

Zé Garcia era ótimo desenhista. Criava histórias em quadrinhos nas quais éramos os super-heróis. O amigo amava as “suas” aventuras. Seu personagem voava e vencia monstros terríveis. Ele lia o episódio do dia, dobrava com carinho a folha e levava para casa, com autoestima transbordante.

Certo dia, meu pai contou a Gilmar que estávamos de mudança para Assis, cidade vizinha. Depois dessa revelação, o amigo passou a ir também à noite à minha casa. Aproveitava que o pai era funcionário noturno, padeiro, e fugia para lá. O super-herói voador queria aproveitar os últimos momentos de convívio, amizade e afeto.

Em uma daquelas noites, chegou chorando. Nas costas, imenso ferimento, vermelhidão e inchaço. O pai o espancara com tábua grossa. Trêmulo, disse que pretendia fugir para longe. Seu Zé, com o carinho de sempre, conversou bastante, pediu-lhe paciência, mas só o acalmou ao garantir-lhe que viria, todos os sábados, de manhã, buscá-lo para passar o fim de semana conosco na nova cidade.

Cabisbaixo, Gilmar saiu.

Mudamos num sábado de manhã. Na noite, enquanto ainda desfazíamos caixas da mudança, um amigo telefonou para meu pai:

- O filho do Cardoso se matou.

Cardoso era o padeiro. O filho, Gilmar.

Pai contou-me, em seguida. E deu-me aquele abraço de amenizar dores, longo, apertado. Aqui entre nós, não era a mim que ele queria estar abraçando. Naquele instante, pai queria afagar outro super-herói. Mas ele havia voado para longe.

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