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Diário da Região

11/09/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

O sumiço da menina

Painel de Ideias

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Na igreja matriz da pequena Palmital havia uma pintura que me comovia, a de Maria, ao pé da cruz, com Jesus ensanguentado ao colo. Fiéis, adultos e crianças paravam em frente, contritos, reverentes.

Certa tarde, vi Maria Louca entrar na igreja. Fui, medrosamente, atrás. Ela parou em frente ao quadro, calada, sem os resmungos mal-humorados de sempre. A doida também se emocionava com a imagem da Santa Mãe em sofrimento. Teria ela sido mãe, também, em algum momento de seus descontroles?

O bullying da época a agredia com o apelido: Maria Louca. Andava pelas ruas a pedir trocados, comida ou sabão para lavar roupa. Sempre descalça, agitada por tiques nervosos. Balançava a cabeça, como se espantasse moscas invisíveis.

Apesar do medo, a molecada a provocava, com a frase e o apelido odiados por ela:

– Vai tomar banho, Maria Louca!

Ela desenrolava da cintura um chicote de corda e corria atrás dos provocadores. Vez por outra, atirava-lhes pedras catadas ao acaso nos trechos da perseguição. Berrava, ignorando quem estivesse nas imediações, fossem idosos, mulheres ou crianças:

– Pare aí, f.d.p... Louca é tua mãe, que tá dando a b... atrás do pé de café!!! (Abreviei, mas, ela gritava por extenso.)

A cidade a conhecia. Crianças a temiam. Mães exploravam o medo que inspirava: “Durma logo, senão Maria Louca vem te buscar.” Ou, então: “Coma tudo, senão Maria Louca te leva pro mato.”

Havia histórias de violências que ela praticara com crianças que sequestrara. Exageros para assustar adolescentes provocadores. Com minha mãe, que lhe dava mantimentos e roupas velhas, Maria Louca trocava os resmungos por um sorriso penoso, dificultado pela falta de prática. Mesmo ali, se surgisse uma criança – eu ou meus irmãos –, ela retomava as inflexões guturais iradas, fechava a cara e saía.

Então. Era domingo de festa na praça da matriz. Havia parquinho, carrinhos de pipoca, jogos e interação para todas as idades. Pais deixavam as crianças com cuidadores. Mesmo assim, a filhinha do Zé Elias, da padaria, sumiu. Ainda não tinha 5 anos. Um grupo reforçado fuçou por todos os cantos da praça e por todos os brinquedos. Nada de encontrá-la. Na esquina do antigo Banco Mercantil, a mulher da banca de revistas disse ter visto Maria Louca levando uma criança pela mão.

Desespero geral. Amigos de Zé Elias engrossaram a busca à menina, antes que a doida fizesse algum mal a ela. Uma carola, ainda com véu à cabeça e breviário à mão, revelou ter visto as duas. Levou o pai e os amigos até a igreja. Entraram e toparam com a cena inesperada. Um choque para a pequena plateia. A emoção fragilizou até Nardão, açougueiro rude, sempre mal-humorado. Maria Louca estava com a menina ao colo, em frente ao quadro da Santíssima com Jesus. Imitava a imagem e acariciava suavemente os cabelos da menina.

Silêncio na pequena igreja matriz. Com delicadeza, Zé Elias pegou a filha e ajoelhou-se, agradecido, diante de Maria. A outra, a louca.

 

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