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Diário da Região

10/09/2017 - 00h00min

Painel de Ideias

Nêgo Tião

Painel de Ideias

GUILHERME BAFFI NULL
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Meu tio Dionízio, quando vinha nos visitar, era a maior alegria. À noite, ficávamos todos em torno da mesa, sob a luz torta da lamparina, para ouvir suas estórias. Ele tinha como profissão desbravar e administrar fazendas. O proprietário o contratava para a empreitada, quando a propriedade estava no ponto de se sustentar com todos os equipamentos funcionando, era hora de partir para novas aventuras, cada vez mais afundando pelos sertões do noroeste paulista.

No início dos anos 1960, foi contratado para abrir uma fazenda lá pros lados da então incipiente Santa Fé do Sul. À época, lugar de mata virgem. Bichos ferozes habitavam aquelas plagas. O contratante, de nome Euclides, tinha herdado a imensa gleba e desejava a todo custo transformá-la em produtiva. O herdeiro recebeu também um negro velho, antigo morador. No passado, havia servido seu avô, seu pai e agora o serviria também.

O homem de idade bastante avançada acompanhava a família havia muitas décadas. Tinha por ela verdadeira devoção. Morava numa casa de taipas nos fundos da sede. Pela idade, era poupado de serviços pesados. Cabelos e barba encaniçados lembravam em muito os negros nas ilustrações. Os dentes cor de marfim ficavam à mostra quando sorria ao contar suas aventuras nas matas da região e as pescas no Paranazão. Gostava de contar sobre caçadas, principalmente de onças, onde ele não usava arma de fogo e, sim, a antiguíssima ‘azagaia’. Arma de curto arremesso que consistia num pequeno cabo e, na ponta, lâmina de metal. Dizia ele que ficava por horas de espreita onde a pintada ia passar. De cara com o bicho, quando ela saltava sobre ele, em posição de ataque, penetrava a garganta do felino, fazendo-o dar o último urro. Além de muita coragem, tinha que ter destreza no manejo. Um descuido, e, colocaria em risco a própria vida. Já que estava a centímetros do bicho selvagem sedento por sangue humano.

O dono da fazenda morava com a mulher, Santina, e duas crianças na casa grande. Quando tinha que se ausentar, ordenava ao Nêgo Tião para ficar de sobreaviso. Tinha tanta confiança nele, que, nessas ocasiões, colocava-o pra dormir no quarto de visitas. Sobre a penteadeira, mantinha uma cartucheira de dois canos, pronta pra entrar em ação, caso acontecesse algo com a mulher e os meninos. Tinha ordens expressas para atirar e depois perguntar.

Certa feita saiu, de madrugada, a bordo da Rural Willys em direção à pequena vila para tratar de negócios e deixou o fiel escudeiro de plantão. E, claro, o aviso para defender com unhas e dentes seus entes queridos. Disse isso após entregar a arma municiada.

O sol barria o horizonte, quando terminou seus afazeres na cidade. No caminho, teve pressentimento de que algo não ia bem. Tentou pensar em outras coisas, mas sempre voltava àquela sensação ruim. Passava das 21h quando se avizinhou da casa. Estranhou não ver os cães virem ao seu encontro.

A lua ia alta. Santina saiu pro terreiro. Nêgo bem que avisou: ‘Cuidadu cas onça!’. Ouviu os cães ladrarem no quintal, era a bitela. Com a azagaia em punho, correu a tempo de proteger a patroa no exato momento do bote sobre ela. Petrificada, a moça desmaiou. No mesmo instante, dois faróis alumiam o corpo da esposa caído e o negro velho de pé todo ensanguentado. Enlouquecido, salta do veículo, saca o “Colt” e atira. No chão, a mulher em choque, um fera dilacerada e o herói morto, Negô Tião.

Segundo meu tio Dionízio, o fazendeiro jamais se recuperou daquela tragédia!

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