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Diário da Região

19/07/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

Muito sushi e pouca picanha

Painel de Ideias

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Daria uma picanha por um sushi!

A frase pode parecer meio estranha, mas quem estranhou mesmo fui eu, ao ler outro dia que num município de elevado PIB do interior de São Paulo, de médio porte e grande contemporaneidade, já tem mais restaurantes japoneses do que churrascarias.

Sentado onde estava sorvendo meu chá de maçã com um filete de canela, matutei para a mudança de paradigmas que a gastronomia tem feito na vida da gente.

Há pouco mais de uma década, modernos e minorias esquisitas ainda admitiam chamar os amigos para “queimar uma carninha e ouvir um chorinho” (e isso não significava assistir à cremação da tia morta, como quis à época uma piadinha infame).

Era o convite habitual para um histriônico e bufão churrasco mesmo. Com as indefectíveis linguiças de entrada, para fazer subir o fogo no carvão e os efeitos dos goles iniciais dos destilados (“pra esquentar”), seguida das “carnes nobres”, que invariavelmente desembocavam e embocavam na hors-concours picanha, notadamente, a maturada.

A cidade paulista citada acima é São José do Rio Preto, e por minorias esquisitas entendamos todos nós, pessoas que leem.

Pois o deslocamento do foco para a então incipiente culinária japonesa se dava aos poucos, assim, fatiada feito pedacinhos de sashimi. Era possível encará-la, mas colocá-la no lugar do churrasco seria quase uma heresia.

Depois do quinto gole no chá de maçã ousei refletir um pouco mais, especialmente ao lembrar-me de ter lido também que durante o período do pós-Guerra o mundo discutia a fome, com ênfase na quantidade de alimentos disponíveis; e só depois que essa geração subiu aos céus, é que os novos passaram a discutir a qualidade do que se come.

Mas o insight só viria a seguir: a culinária japonesa também está fadada ao destino das churrascarias, devido à ostentação e à desordem.

Sim, estimado leitor gourmet, esse degustador de chás de maçã assegura com toda a convicção que, assim como foi moda ao falante abastado e novo rico de décadas passadas se vangloriar da picanha maturada que importara da Argentina, ou contrabandeara do Uruguai, especialmente para aquela ocasião com os amigos, o volume da voz dessa tribo de cidadãos, que poderíamos chamar de maioria explícita, já está tumultuando o silêncio necessário à apreciação da comida japonesa.

Onde o barulho de vozes é superior à qualidade do alimento, acreditem, haverá um salto regressivo para o “out”.

Talvez seja legítimo suspeitarmos de que a gastronomia em si, seja pela via dos experimentos nacionalistas “alex-atalianos”, seja pelo prazer de reinventar raízes intimistas ou simplesmente pela contenção propícia de um bate papo saudável e pouco ruidoso, haverá de se fixar na condição de arte, de maneira similar àquela que vivenciávamos quando um amigo recebia um LP novo de determinado artista ou adquiria um quadro conceitual digno de se apreciar. E aí, danem-se os bois ou os sushis...

Nessa hora, confesso, é uma maravilha pertencermos à minoria esquisita, onde há gente que consome chá de maçã com filete de canela.

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