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Diário da Região

27/07/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

Meus olhos

Painel de Ideias

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Há mais ou menos um ano recebi o convite para que quinzenalmente colocasse em palavras meus pensamentos sobre o cotidiano, e o que pude destacar até agora senão as mazelas e os pequenos feitos dos quais no fundo ninguém dá a menor importância? Apesar do esforço que fiz até agora para expor tudo que grita dentro e fora de mim, permito-me hoje ser tão egoísta quando todos os outros, ou simplesmente mudar de posição meu próprio egoísmo, para falar sobre o que nesse instante me importa, eu mesma.

O que destaco nesse dia é meu próprio cotidiano, é o que reparei e que acho que vale a pena ser comentado. O assunto escolhido são meus próprios olhos, sim, os meus olhos e o pouco que encontro neles da única motivação para que eu não deixe de escrever: a literatura.

Tenho uma relação de amor e ódio com meus olhos. Lembro-me de uma vez, quando criança, uma mulher ter se apaixonado pelos eles na mercearia do bairro. Os dela brilhavam enquanto me dizia encantada que os meus pareciam duas jabuticabas maduras. Eram, de fato, grandes e brilhantes, mas com o passar do tempo, meu nariz, boca e bochechas cresceram tanto que os afundaram para dentro do rosto, por isso hoje são mais como sementes, do que como frutos.

Odeio-os porque não tem expressão, amo olhos expressivos, que sorriem, que desafiam, que seduzem. Meus olhos não se expressam, quando vejo seu reflexo posso enxergar algo como um rio imenso e escuro em que as águas não se mexem e não se pode enxergar o fim. São calmos demais, pode até ser que misteriosos, mas eu prefiro os voluptuosos.

Nos retratos são meros coadjuvantes, parecem sempre desajustados, pintados ou sem pintar, tenho a impressão de serem desalinhados, seus cílios são curtos demais, têm bolsas embaixo e uma das pálpebras está cheia de pintas. Meus olhos são feios, coitados. Talvez eu os ame apenas pela estranheza.

Às vezes ficam apertadinhos quando brisados, sonolentos, semiacordados, ou quando empurrados por um sorriso exageradamente feliz. Raramente se enchem de água, se fecham com dificuldade quando a noite cai e se perdem com facilidade assustadora. Sempre os pego olhando para o nada sem meu comando durante longos períodos, fixados em qualquer horizonte ou desesperadamente errantes. Abertos, mas sem enxergar absolutamente nada. Não, não faço meditação, durante esses surtos são apenas vítimas da minha leseira crônica.

Além de me causarem estranheza, é certo que meus olhos me incomodam. Sempre quis que fossem outros, talvez mais claros ou mais escuros, tento em vão puxá-los ou levantá-los com pinturas, tento encará-los com carinho, tento fazê-los reagir, mas eles continuam lá, sem nada a me dizer, em silêncio. É também por isso que os amo. É também por isso que os odeio. Nada pode me causar mais paixão e repulsa ao mesmo tempo do que o aquilo que é estranho e desconfortável. Sigo nesse romance mal-resolvido com os meus olhos.

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