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Diário da Região

05/05/2017 - 00h00min

Painel de Ideias

A relatividade da certeza

Painel de Ideias

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Segundo Fernando Pessoa, deve-se tomar cuidado com a certeza. A confiança no caráter objetivo de nossas percepções, e na conformidade das nossas ideias com a realidade ou a verdade, é um sintoma de ignorância ou de loucura. O homem mentalmente são não está certo de nada, isto é, vive numa incerteza mental constante; quer dizer, numa instabilidade mental permanente; e, como a instabilidade mental permanente é um sintoma mórbido, o homem são é um homem doente.

Esse aforisma, de certo modo paradoxal, algumas vezes chama atenção, especialmente, quando aquela convicção ferrenha sobre fatos e normas toma conta do espírito, de um juízo aparentemente perfeito.

E isso aconteceu num caso já julgado e arquivado. Era para condenação certa, com possibilidade de restrição da liberdade: tráfico de drogas. Quantidade significativamente vultosa. Confissão. Provas suficientes. Nestes termos, pode-se sustentar, terminantemente, que contra fatos não há argumentos? Será que a justiça é feita dessa certeza concreta, tão somente?

A acusada tinha 15 anos. Órfã de pai. Fugiu da casa pobre, numa cidadezinha do interior. Na capital federal sonhava comprar roupas, celular. Um sonho – digamos - comum e esperado para a idade. Porém, ela caiu nas mãos de um explorador, de um criminoso. Além de prostituída, recebeu a incumbência de buscar entorpecentes no Paraguai. Na volta, a polícia a flagrou. Até o julgamento, ficou 40 dias presa. Na audiência, chorou muito, reconheceu que se iludiu, expressou arrependimento e saudade apertada da mãe.

Por consenso de todos os presentes, recebeu uma medida em meio aberto. E ao ouvir o resultado do julgamento, que estaria livre, que voltaria para casa, com acompanhamento da assistência social, isso foi muito para ela, foi a sua felicidade extrema, que a fazia tremer a face, chorar de alívio. Ela, obviamente, sem entendimento das coisas jurídicas, queria agradecer os que ali estavam. Outro problema: o que responder a ela?

Não está escrito na frente do Fórum ‘Casa de Caridade’. É antigo, ademais, o adágio de que ‘justiça não se agradece’. A menina, com indicativos concretos para uma possível ressocialização, foi socorrida pela lei, essencialmente, e nada mais que isso. A lei justa é um dos melhores reflexos da democracia, que só se estrutura num sistema genuinamente político.

Mais uma vez, o paradoxo de pessoa teimou em cutucar a consciência, pois a certeza hoje corrente está apartada dos políticos. Mas foi por esse sistema que adveio a lei que pode ter redimido aquela jovem criatura. Do mesmo sistema político, também, diga-se de passagem, as leis que atualmente permitem um melhor combate à corrupção. Porém, ela não ia entender nada se disséssemos que ela deveria agradecer ao sistema político. Resumimos: ao invés de tentar agradecer alguém, ore pelo nosso país.

 

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