Diário da Região

02/07/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

A propósito da viagem do Joaquim

Painel de Ideias

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Começava a semana e nas primeiras horas de domingo foi embora o mestre-compositor caipira Joaquim Moreira, hóspede do Asilo de Schmitt por dois anos, com quem tiver o prazer de estreitar laços de amizade, ainda que um tanto tarde.

Logo no nosso primeiro encontro ele fez questão de recitar um longo texto rimado, falando sobre a bênção de uma amizade nova.
Ouvi atento, enquanto ele falava pontuando cada palavra com o dedo indicador.

Não sei se o mestre deixou esse texto escrito ou gravado, ou era invenção da sua cabeça privilegiada, mas admirei a prodigiosa memória de alguém com mais de noventa anos, na época. Eu, com menos rodagem, ando esquecendo o que almocei ontem.

Achei o novo amigo tão simpático quanto talentoso, as duas qualidades disputando espaço numa pessoa miúda, afável e rara.
Notei que o velho compositor recebia, paciente, e sempre com um sorriso largo, os abraços de violeiros e cantadores de toda a região, que o visitavam no Asilo.

Eles vinham pra reverenciar o mestre, numa romaria repetida sempre no último domingo de cada mês, no evento chamado Viola Solidária, que completou vinte edições.

A moda caipira no auge do seu encanto, a contar causos, mascarar dores e alegrar corações.

Todos queriam registrar fotos do encontro no celular e o Joaquim, entre selfies, achava um jeitinho de divulgar seu trabalho:

- Quer comprar um CD meu?

Era uma gravação especial sobre Santos Reis, matéria em que era reconhecido como um dos maiores entendedores desta tradição que vem de longe, e que nunca consigo saber se classifico como devoção ou cultura popular, ou os dois.

Lembro que, ainda criança, via as folias de reis na região metropolitana da grande Ida Iolanda, vagando de lá para cá. Era um incansável périplo levando a bandeira ora à zona rural, ora às poucas casas do lugarejo. Os foliões abusavam dos tons agudos. Era um canto alto e afinado, ouvido por certo a longa distância nos descampados.

Se o morador abria as portas de casa pra receber a bandeira o grupo fazia visita solene e ritual, sem separar rico de pobre. Agradeciam da mesma forma alegre e cortês a toda doação, não importando o valor material, se um novilho ou um tostão.

Os palhaços enfiados em máscaras pontiagudas e armados de espadas longas faziam correr as criancinhas. Aos poucos elas se rendiam, vinham devagarinho, perto o suficiente pra tocar os foliões. E descobriam que havia gente de carne e osso atrás daquela armação multicolorida. 

Dá pra compreender o encantamento de Joaquim por essas solenidades.

Pois é, diz a sabedoria caipira que quando uma pessoa morre vão-se os defeitos, ficam as virtudes.

O sujeito feio fica lindo. O resmungão, afável. O caloteiro, um razoável pagador, a quem devemos perdoar os contratempos financeiros. O burrão da turma vira um ‘crânio’ em alguma matéria secundária! O sujeito intragável, um amigo dileto. A sogra encrenqueira, uma santa!

E assim lavamos a consciência e renovamos o estoque de hipocrisia.

Mas nada disso se aplica ao boa-gente Joaquim Moreira da Silva, autor do clássico “Rio Preto de Luto”, uma autêntica moda de viola eternizada nas vozes de Tião Carreiro e Pardinho.

Tive a felicidade de falar bem do seu trabalho aqui neste espaço nobre do Diário da Região. E ele teve tempo de ler. Que bom, falei com o coração.

Hora de finalizar a prosa e acho que me perdi em divagações. Mas o que são as crônicas sem elas?

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