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Diário da Região

12/07/2015 - 15h01min

Entrevista com escritor Chico Lopes

Um pouco mais sobre Chico Lopes

Entrevista com escritor Chico Lopes

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É fácil conciliar o trabalho de escritor, tradutor, crítico de cinema e pintor? Qual é a sua atividade preferida?

Chico Lopes – Ser escritor, crítico de cinema e pintor envolve disponibilidade de tempo muito grande e uma despreocupação com prazos. Não exerço a crítica de cinema de maneira profissional, apenas escrevo sobre filmes que eu próprio escolho e publico em sites culturais de amigos, sem remuneração.  Na verdade, faz bastante tempo que nem publico críticas, a não ser as antigas, porque o cinema atual, voltado para franquias e mediocridades industriais em avalanche, não me interessa muito. No entanto, publiquei meus melhores ensaios num livro de que me orgulho muito, “Na Sala Escura – A arte de sonhar com olhos abertos”, pela Penalux. Agora, a atividade de tradutor é mais rígida, depende sim dos prazos estipulados para as editoras, e acaba tendo outro enfoque, mais cronometrado.

Ocupo meu tempo assim, entre prazeres e obrigações. Gostaria de ter mais tempo para pintar, por exemplo. Não é tampouco uma atividade que profissionalizei, apesar de vir pintando desde menino. A pintura exige uma atitude mais relax, por assim dizer, com seu aspecto lúdico de ir erguendo um mundo à parte com formas e cores. É uma atividade mais alegre que a literatura, que exige concentração, introspecção. Acredito, no entanto, que em minha vida a literatura foi tomando o lugar da pintura como foco principal, e agora, com dez livros publicados, impossível voltar atrás. Mas às vezes tenho a impressão de estar pintando ao escrever uma narrativa. Pintando com palavras, ou tecendo imagens que dependem muito de luz e sombra. A cor de um vestido, por exemplo, pode definir um personagem feminino para mim.  A atividade preferida? Entre todas, escrever acaba sendo a mais crucial.

 

Qual foi o papel do cinema na sua trajetória como escritor?

Chico Lopes – Teve um papel muito grande. Sou cinéfilo daqueles que, de calças curtas, já estava à porta do cinema. Menino, o cinema teve muito impacto sobre mim. Eu fui descobrindo os filmes de Hitchcock com deslumbramento – e depois, à medida que fui me tornando mais adulto, fui vendo Polanski, Fellini, Bergman, Glauber, Joaquim Pedro, Nelson Pereira dos Santos no cinema de minha cidade. Escrever sobre filmes, no entanto, só comecei a fazê-lo nos anos 80, nos jornais de minha cidade e em outras pequenas publicações. Até que, em 1994, comecei a trabalhar como programador e apresentador de filmes no Cinevideoclube do Instituto Moreira Salles de Poços de Caldas, ficando lá até 2012.  Creio que os filmes sempre me atraíram por cortes, elipses, os encantos da montagem, dos movimentos de câmera, e pela possibilidade de imprimir às narrativas uma tensão típica das imagens, dos olhares, sugestões, supressões. Senti-me atraído por Hitchcock, desde sempre, por causa de sua capacidade de síntese, de dirigir um filme sem o que ele chamava de “manchas de tédio”, mantendo o interesse essencial do drama e contando com a cumplicidade do espectador. Além do mais, ele sempre foi um poeta da angústia, e eu sinto que a angústia tem um peso enorme no que escrevo. Se, na atividade literária, conseguimos fisgar a atenção, o interesse do leitor, podemos aí sim lhe oferecer panoramas psicológicos menos comuns.  Não acredito em escritores que, por excesso de intelectualismo, queiram abolir o prazer do leitor. Escrevo narrativas que sei complexas, com muitos pontos de vista se alternando, mas procuro sempre lembrar-me que é preciso contar uma história, não deixar o leitor perder o foco.

 

O estranho no corredor é um romance tenso, cujo ritmo é ditado pelo turbilhão de pensamentos do narrador. Como foi escrever essa obra?

Chico Lopes – Foi lento, o processo. Comecei a escrever o livro no início dos anos 90 e só o terminei (ainda assim, houve revisões e cortes) em 2010.  Eu sou um escritor que fica muito tempo com seu texto, e acredito que as dificuldades que existem para a publicação de livros no país até me beneficiem, visto que posso trabalhar neles de maneira mais consciente, mais esmerada. Acredito muito em reescrever, reescrever o máximo possível, explorando a fundo a possibilidade do texto, do personagem, das situações. O professor, personagem principal de O estranho no corredor, tem um pouco de autobiográfico, claro, mas é uma criação livre, sem tanto assim de meu (penso que um escritor não reproduz, mas transfigura), em que tentei colocar toda uma carga de atavismo, de vida solitária no interior, à sombra de uma tia puritana e repressora. Ele foge para a capital, mas vive, na verdade, em zigue-zague, sua fuga é precária, e ele retorna ao interior. Quis, nesse movimento entre metrópole e cidade pequena, ilustrar o seu drama de não ter de fato um lugar no mundo, de precisar desesperadamente de uma identidade verdadeira (na verdade, dramatizo isso até no fato de ele ser o único personagem sem nome no romance, mesmo sendo o principal). Daí que estabeleço as ironias todas do livro: ele vive na capital em situação muito semelhante à que vivia no interior, morando nos fundos da casa de uma mulher idosa que se parece muito com sua tia interiorana (é sempre como se ele fosse apêndice, nunca senhor de si), e circula num micromundo cujo centro é o bar onde conhece Russo, o seu maior amigo. Quis que a narrativa se desenrolasse entre a atualidade e o passado (ele tem um caderno de memórias), cimentando essa perpétua hesitação de sua vida. Gosto particularmente do personagem de Russo, inspirado parcialmente num grande amigo meu dos tempos de boemia e bares, Cido Madrugada. E também quis um final inesperado. Há pessoas que consideram o livro sombrio e carregado demais (e algumas resenhas, como uma no jornal Rascunho, apontaram isso), mas, a meu ver, o livro tem brechas de esperança, pois o personagem cresce.

 

Você esperava receber um prêmio Jabuti no seu primeiro romance?

Chico Lopes – Não, não esperava. Ele foi lançado em 2011 com sucesso na Livraria Cultura de São Paulo, numa noite de autógrafos em que a editora 34 promoveu um debate no teatro Eva Hertz, e depois Manuel da Costa Pinto me entrevistou sobre ele no “Entrelinhas” da TV - Cultura de SP, mas eu não contava com prêmios. Sem dúvida, o Jabuti foi um reconhecimento importante, devido ao prestígio que o prêmio tem. E o livro, entre todos que publiquei, é certamente o mais lido. Obteve muito reconhecimento, com ensaios e resenhas publicados em várias partes do país, incluindo publicações universitárias. E até motivou uma professora de Letras a escrever uma tese de doutorado sobre a minha obra, que está em andamento. Constantemente as pessoas me perguntam sobre ele. Parece que o personagem do professor deixou muita gente intrigada, e sim, ele sofre uma perseguição misteriosa por uma figura que não se define e cujas intenções (que parecem hostis) não esclareço. Mas o livro não deriva para o fantástico. Creio que tem um realismo psicológico sólido.

 

Com relação à sua experiência como tradutor, como você lida com a questão da invisibilidade?Você se sente realizado como tradutor, assim como escritor?

Chico Lopes – Não me sinto realizado como escritor, porque ainda tenho alguns projetos a realizar, mas já andei um bom caminho, tendo publicado tantos livros em tantos gêneros (poesia, memória, ensaio, romance, conto). Como tradutor, temos um trabalho que depende das flutuações do mercado e sobre o qual não exercemos tanta escolha, visto que se trata de sobrevivência. Traduzi alguns clássicos, como Henry James e Nathanael Hawthorne, mas gostaria de traduzir outros mais, visto que meu trabalho tem sido de traduzir mais na área do entretenimento, com livros de magia, fantasia, bruxaria para adolescentes, que as editoras vêm publicando em avalanche ultimamente – nos EUA estes livros são conhecidos sob o rótulo de YA, para Young Adults, quer dizer. Não me oponho a esse tipo de tradução, mas gostaria de traduzir coisas mais adultas (sem tanto young, rs) com mais frequência. No entanto, o público leitor está voltado para esse aspecto, nos últimos anos. São livros puramente escapistas, que cumprem um papel exclusivo de entretenimento. E sim, o tradutor, por força de seu trabalho, é praticamente um agente invisível no processo editorial, porque raros leitores se dão ao trabalho de verificar seu nome na folha de rosto dos livros, e, no entanto, seu papel é fundamental e precisaria ser mais valorizado neste país.

 

Quais são seus novos projetos de publicação?

Chico Lopes - Depois de O estranho no corredor, concluí um romance que havia começado em meados dos anos 90, uma história que me obcecava sobre uma mulher de seus 50 e tantos anos, moradora de uma cidade não tão pequena do interior. Ela se apaixona por um homem totalmente desconhecido e o segue na multidão, nas ruas, por todas as partes da cidade, sem que ele nunca sequer a note. E, enquanto o procura obsessivamente, ela se recorda de seu passado, de seus amores por muitos homens. É uma pintura bastante dura do mundo sexual masculino e suas cafajestadas. Gosto muito do personagem da mulher – é, na verdade, o personagem feminino mais sólido que criei. Penso até que esse livro será melhor compreendido pelas mulheres que pelos homens, que não têm nele um papel muito lisonjeiro (rs). Este romance deverá sair no final deste ano, creio, pela editora Patuá. Por enquanto, é o único livro que tenho a publicar. Outros projetos andam pelo meio ou mais ou menos perto do fim, mas ficarão na certa para 2016 ou 2017.

 

 

 

  

 

 

 

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